Dois homens de 80 anos não têm tempo para contenciosos
Em março, Lula e Trump se encontrarão carregando o peso de tensões comerciais que nenhuma planilha resolve sozinha. Jorge Viana, da ApexBrasil, revela que a aposta brasileira repousa sobre algo mais antigo que a diplomacia formal: a confiança de que dois homens de oitenta anos, diante da finitude do tempo, preferirão o entendimento ao conflito. É uma estratégia que reconhece os limites da razão institucional e aposta na força silenciosa do vínculo humano — mas que será testada por tarifas, investigações comerciais e uma Suprema Corte americana que já disse não ao presidente Trump.
- O Brasil enfrenta tarifas americanas, uma investigação comercial em curso e um parceiro que ignorou a própria Suprema Corte para manter a pressão sobre o comércio global.
- A Suprema Corte dos EUA declarou ilegais as tarifas impostas unilateralmente por Trump, mas ele respondeu anunciando uma tarifa global de 15%, recusando qualquer recuo.
- Lula aposta que a 'química' pessoal com Trump — descrita pelo presidente da ApexBrasil como uma conexão real entre dois líderes octogenários — pode destravar o que a diplomacia formal não conseguiu.
- O encontro de março colocará na mesa minerais críticos, combate ao crime organizado e a remoção de tarifas, mas a investigação comercial americana contra o Brasil paira como uma sombra sobre qualquer acordo.
- A estratégia brasileira é clara e arriscada: transformar uma relação pessoal em capital político antes que as pressões estruturais tornem o diálogo impossível.
Jorge Viana, presidente da ApexBrasil, foi direto ao ponto nesta segunda-feira: Lula está apostando na relação pessoal com Donald Trump como principal instrumento para resolver as tensões comerciais entre os dois países. O encontro marcado para março será a arena onde essa aposta será testada, com temas como tarifas, minerais críticos e combate ao crime organizado sobre a mesa.
Viana descreveu uma 'química' entre os dois presidentes que, segundo ele, já começou a aliviar o clima bilateral. A lógica por trás da estratégia tem algo de existencial: dois homens de 80 anos, argumenta Lula, não têm tempo a perder com conflitos prolongados. A finitude da vida como argumento diplomático.
O cenário em Washington, porém, ficou mais complexo. A Suprema Corte americana decidiu, por seis votos a três, que Trump não pode impor tarifas sem autorização do Congresso — uma vitória tática para o Brasil. Trump reagiu chamando a decisão de 'uma vergonha' e anunciou uma tarifa global de 15%, sinalizando que não pretende recuar.
Para além das tarifas, os Estados Unidos mantêm uma investigação comercial contra o Brasil em andamento, um processo que pode tanto complicar as conversas de março quanto servir de moeda de troca. A 'química' entre os presidentes terá de sobreviver a essas realidades mais duras — porque boa vontade, por si só, não dissolve tarifas nem encerra investigações.
Jorge Viana, que comanda a ApexBrasil, a agência responsável por promover as exportações e atrair investimentos para o país, deixou claro nesta segunda-feira que o presidente Lula está apostando tudo em algo que não cabe em planilhas: a relação pessoal com Donald Trump. Quando perguntado o que o Brasil espera do encontro marcado para março, Viana foi direto: Lula está contando com o lado humano do presidente americano, aquele que sempre prevalece nas negociações que importam.
O encontro entre os dois líderes será uma oportunidade para discutir questões que afetam profundamente a economia brasileira. Na mesa estarão temas como o combate ao crime organizado, o acesso a minerais críticos e, talvez o mais urgente, a remoção das tarifas comerciais que os Estados Unidos vêm impondo ao Brasil. Viana descreveu a expectativa como positiva e mencionou algo que ele chama de "química" entre os dois presidentes — uma conexão que, segundo ele, já começou a aliviar as tensões que marcaram o relacionamento bilateral nos últimos tempos.
A aposta de Lula tem uma lógica que ressoa com a idade de ambos. Viana explicou que o presidente brasileiro acredita que dois homens de 80 anos não têm tempo a perder com conflitos prolongados. Não há espaço para contenciosos quando a vida é finita. Essa convicção de que a "química" pessoal pode resolver o que a diplomacia formal não consegue é o cerne da estratégia brasileira para março.
Mas o contexto político em Washington mudou ligeiramente nas últimas semanas. A Suprema Corte dos Estados Unidos decidiu, por seis votos a três, que Trump não pode impor tarifas por conta própria. A Constituição americana atribui ao Congresso o poder de instituir impostos e tarifas de importação, e o presidente não pode contornar essa autoridade sem aprovação legislativa explícita. Para o Brasil, essa decisão foi uma vitória tática — um argumento que Lula pode usar na mesa de negociações.
Trump, porém, não aceitou a derrota com elegância. Chamou a decisão da Corte de "uma vergonha" e, mesmo assim, anunciou que elevará para 15% a tarifa global de importação. É um movimento que mantém a pressão sobre o Brasil e sobre outros parceiros comerciais, sinalizando que, independentemente do que a Suprema Corte diga, ele pretende usar todas as ferramentas disponíveis para reconfigurar o comércio internacional.
Enquanto isso, os Estados Unidos mantêm uma investigação comercial contra o Brasil em andamento. É um processo paralelo que pode complicar as conversas de março, ou que pode ser usado como moeda de troca. A estratégia brasileira de apostar na relação pessoal entre os dois líderes será testada por essas realidades mais duras — tarifas, investigações, pressões econômicas que não desaparecem com uma boa conversa, por mais química que exista entre os presidentes.
Notable Quotes
Está apostando mais no humano, como ele sempre faz— Jorge Viana, presidente da ApexBrasil
Dois homens de 80 anos não podem ficar com algum contencioso, não têm mais tempo de vida para isso— Jorge Viana, sobre a visão de Lula
The Hearth Conversation Another angle on the story
Por que Lula acha que a relação pessoal com Trump vai resolver questões tão concretas quanto tarifas comerciais?
Porque ele vê Trump como alguém que toma decisões baseado em relacionamentos, não apenas em ideologia. Aos 80 anos, Lula acredita que há espaço para uma conversa entre dois homens que entendem o jogo do poder.
A Suprema Corte disse que Trump não pode impor tarifas sozinho. Isso não deveria ser o suficiente?
Deveria, mas Trump já deixou claro que vai tentar mesmo assim. A decisão da Corte é um trunfo diplomático para Lula levar à mesa, mas não é uma solução final.
E se a "química" não funcionar em março?
Então o Brasil fica exposto. Há uma investigação comercial em aberto, tarifas ameaçando, e nenhuma rede de segurança além da aposta pessoal.
Viana parece otimista. Ele sabe algo que não está sendo dito?
Ele sabe que Lula já conversou com Trump antes e que algo funcionou. Mas otimismo diplomático e realidade comercial são coisas diferentes.
Qual é o risco real aqui?
Que Lula chegue em março esperando resolver tudo com uma conversa e saia com promessas vazias enquanto as tarifas continuam subindo.