Se havia corrupção em seu governo, ele mandava apurar
Em meio ao cenário eleitoral de 2022, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva reafirmou, em entrevista a uma rádio no Tocantins, que durante seus mandatos ordenava a investigação de qualquer suspeita de corrupção — e que os instrumentos legais criados por seu governo, como a lei de transparência e a delação premiada, eram prova desse compromisso. A declaração carrega o peso de uma história contraditória: os mesmos anos que Lula reivindica como exemplo de rigor institucional foram também marcados pelo Mensalão e pelo Petrolão. No espaço entre a memória que se oferece e a que a história registra, Lula construía não apenas uma defesa do passado, mas uma candidatura para o futuro.
- Lula afirma que mandava investigar corrupção em seu governo, mas a sombra do Mensalão e do Petrolão paira sobre cada palavra da declaração.
- O ex-presidente usa o caso de Fabrício Queiroz — ex-assessor acusado de 'rachadinha' — como símbolo da falta de apuração sob Bolsonaro, transformando uma pergunta em acusação velada.
- A tensão central é irrespondida: se havia instrumentos e vontade de investigar, como escândalos de grande escala floresceram dentro de seu próprio governo?
- Em contexto de pré-campanha presidencial, a entrevista funciona menos como prestação de contas e mais como construção de contraste — Lula como garantidor de investigações versus Bolsonaro como protetor de suspeitos.
- A narrativa de Lula encontra seu limite onde a história começa: os mesmos instrumentos que ele reivindica não impediram que seu governo se tornasse alvo da maior operação anticorrupção da história brasileira.
Na terça-feira, em entrevista à rádio 98 FM de Tocantins, o ex-presidente Lula afirmou que, durante seus mandatos, mandava investigar tudo o que cheirava a corrupção. A declaração não mencionava o Mensalão diretamente, mas a sombra daquele escândalo — estourado em 2005, quando um esquema de pagamento a congressistas veio à tona — pairava sobre cada palavra.
Lula construiu seu argumento em torno de uma comparação: ele e Dilma Rousseff haviam criado instrumentos legais reais contra a corrupção, como a lei de transparência e a lei da delação premiada. Para ilustrar o contraste com o presente, apontou para Fabrício Queiroz, ex-assessor de Flávio Bolsonaro acusado de participar de um esquema de 'rachadinha'. 'Por que o Queiroz não foi ouvido até agora pelo Ministério Público?', perguntou, deixando a questão flutuar como acusação velada.
A ironia é pesada. O Mensalão aconteceu sob sua gestão. O Petrolão foi descoberto durante o governo Dilma pela Operação Lava Jato, que resultaria na prisão de empresários, políticos — e do próprio Lula. A história do Brasil oferece uma resposta mais complicada do que a narrativa que ele propunha.
Mas o contexto era 2022, e Lula se posicionava como candidato presidencial. A entrevista não era apenas sobre o passado: era sobre o futuro. A pergunta que ele deixava no ar — quem está mandando investigar agora? — era também uma promessa implícita. E a pergunta que ele não respondia — como a corrupção floresceu sob seu nariz — permanecia, como sempre, em aberto.
Na terça-feira, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva fez uma afirmação que ecoa através de quase duas décadas de política brasileira: durante seus mandatos, ele mandava investigar tudo o que cheirava a corrupção. A declaração, feita em entrevista à rádio 98 FM de Tocantins, não mencionava diretamente o Mensalão — aquele escândalo que estourou em 2005 quando o deputado Roberto Jefferson revelou um esquema de pagamento de mesadas para congressistas apoiarem o governo petista. Mas a sombra daquele episódio pairava sobre cada palavra.
Lula construiu seu argumento em torno de uma comparação. Ele e a presidente Dilma Rousseff, disse, haviam criado os instrumentos legais necessários para combater a corrupção: a lei de transparência, a lei da delação premiada. Essas ferramentas, em sua visão, representavam um compromisso real com a investigação de irregularidades. Agora, afirmou, a situação era diferente. Bem diferente.
Para ilustrar seu ponto, o ex-presidente apontou para Fabrício Queiroz, o ex-assessor de Flávio Bolsonaro acusado de participar de um esquema de "rachadinha" — aquele arranjo em que servidores públicos devolvem parte de seus salários para seus chefes — enquanto trabalhava no gabinete do então deputado estadual no Rio de Janeiro. "Por que o Queiroz não foi ouvido até agora pelo Ministério Público?", perguntou Lula, deixando a pergunta flutuar no ar como uma acusação velada contra a administração Bolsonaro.
Há uma ironia pesada nessa defesa. O Mensalão, afinal, aconteceu sob a vigilância de Lula. Quando o escândalo veio à tona, o ex-presidente disse que não sabia de nada. Sete anos depois, em 2012, o Supremo Tribunal Federal condenou diversos integrantes do esquema. Depois viria o Petrolão, descoberto durante o governo Dilma através da Operação Lava Jato, que resultaria na prisão de empresários e políticos, incluindo o próprio Lula, após condenações criminais em 2014.
Mas naquele momento, falando para uma rádio no Tocantins, Lula estava construindo uma narrativa diferente: a de um líder que havia criado as estruturas para investigar, que havia estabelecido as regras do jogo. Se havia corrupção em seu governo, ele mandava apurar. A questão implícita era: quem está mandando apurar agora? Quem está garantindo que Queiroz seja ouvido, que as suspeitas sejam investigadas?
Suas palavras vinham em um contexto específico. Era 2022, e Lula se posicionava como candidato presidencial, oferecendo uma visão de governo que contrastava com o de Jair Bolsonaro. A entrevista não era apenas sobre o passado — era sobre o futuro. Se eleito novamente, disse Lula, as apurações continuariam. A máquina de investigação funcionaria. Diferentemente de agora, sugeriu ele, quando as coisas só vêm à tona quando alguém denuncia, quando não há pressão institucional para que as suspeitas sejam perseguidas.
O que fica em aberto é a questão que Lula não respondeu: se ele mandava investigar tudo, como o Mensalão cresceu sob seu nariz? Como a corrupção floresceu em seu governo a ponto de exigir uma operação de limpeza anos depois? A resposta que Lula oferecia era que ele havia criado os instrumentos, que havia mandado investigar. Mas a história do Brasil sugeria uma resposta mais complicada.
Citas Notables
Por que o Queiroz não foi ouvido até agora pelo Ministério Público?— Lula, em entrevista à rádio 98 FM
Foi durante o meu governo e da presidente Dilma que criamos todos os instrumentos para acabar com a corrupção do país— Lula
La Conversación del Hearth Otra perspectiva de la historia
Quando Lula diz que "mandava investigar tudo", ele está realmente respondendo a uma acusação específica, ou está construindo uma narrativa para o futuro?
Ambas as coisas. Ele está se defendendo do Mensalão sem nomeá-lo — uma escolha deliberada — mas também está oferecendo um contraste com Bolsonaro. É uma jogada política dupla.
Mas o Mensalão aconteceu durante seu governo. Como ele concilia isso com a afirmação de que investigava tudo?
Ele não concilia. Ele muda o assunto. Diz que criou as ferramentas, que mandava investigar, e depois aponta para Queiroz como exemplo de negligência atual. É um desvio elegante.
Por que Queiroz é o exemplo perfeito para ele usar?
Porque é um caso que ainda está aberto, ainda está sendo investigado, e está ligado a Bolsonaro. Permite que Lula critique o governo atual sem ter que defender seu próprio passado.
A lei da delação premiada que Lula menciona — ela não foi usada contra ele?
Sim, foi. Mas ele está recontando a história como se a lei fosse uma ferramenta que ele criou para combater corrupção, não para investigá-lo a ele. É uma questão de perspectiva.
Então essa entrevista é menos sobre o que Lula fez e mais sobre o que ele promete fazer?
Exatamente. É uma promessa de que, se eleito, a máquina de investigação funcionará novamente. Que as coisas não ficarão encobertas como, segundo ele, estão agora.