Minha história é muito rica, não mudaria nada
Em Lima, uma criança nasceu em 1971 com os braços malformados e, aos três meses, passou por uma amputação que moldaria sua existência para sempre. Luis Galarreta transformou essa condição não em limite, mas em trajetória — percorrendo décadas de política peruana até chegar, como vice na chapa de Keiko Fujimori, ao centro de um segundo turno que divide o país. Sua história é também a história de um homem que um dia condenou o fujimorismo e depois o abraçou, lembrando que na política, como na vida, as convicções raramente permanecem onde as deixamos.
- Galarreta perdeu os braços aos três meses de vida por consequência de um medicamento tomado pela mãe durante a gravidez — uma tragédia silenciosa que antecedeu décadas de vida pública.
- Sua entrada na Fuerza Popular em 2015 representou uma ruptura radical: o mesmo homem que criticou violações de direitos humanos e corrupção nos anos 1990 tornou-se um dos principais defensores do legado fujimorista.
- A visibilidade de suas próteses em formato de gancho viralizou nas redes sociais, criando um contraste simbólico entre a narrativa de superação pessoal e as escolhas políticas controversas que o trouxeram até aqui.
- No segundo turno acirrado contra Roberto Sánchez, Galarreta ocupa o papel de vice e porta-símbolo de uma chapa que polariza o eleitorado peruano entre memória, reabilitação e desconfiança.
Lima, 1971. Uma criança nasce com os braços malformados e, aos três meses, passa por uma amputação bilateral — consequência de um medicamento tomado pela mãe durante a gravidez. Essa decisão médica, descrita pelo próprio Galarreta como "muito difícil", seria o ponto de partida de uma trajetória que o levaria décadas depois a integrar uma das chapas presidenciais mais polêmicas do Peru.
Sua carreira política começou distante do fujimorismo. Nos anos 2000, circulava pelo Movimento pela Liberdade de Vargas Llosa e pelo Partido Popular Cristão, conquistando mandatos como vereador de Lima e depois como deputado federal. Em 2011, chegou a criticar abertamente o governo de Alberto Fujimori, apontando violações de direitos humanos e corrupção como marcas daquela década.
A virada veio em 2015, quando Galarreta deixou o Partido Popular Cristão e ingressou na Fuerza Popular de Keiko Fujimori. A mudança foi radical: tornou-se porta-voz da campanha presidencial de 2016, assumiu a presidência do Congresso em 2017 e passou a defender publicamente aspectos do legado que antes condenara. Sua narrativa sobre os anos 1990 foi reconfigurada — erros e crimes reconhecidos, mas resultados positivos também destacados.
Hoje, vice-presidente do Parlamento Andino e candidato a vice-presidente na chapa de Fujimori, Galarreta enfrenta um segundo turno tenso contra Roberto Sánchez. Suas próteses em formato de gancho tornaram-se imagem recorrente nas redes sociais — não tanto pela deficiência em si, mas pelo contraste entre a superação pessoal que representam e o percurso político que o trouxe até aqui.
Lima, 1971. Uma criança nasce com os braços malformados. Aos três meses de vida, os médicos recomendam amputação. A mãe havia tomado um medicamento durante a gravidez que afetou o desenvolvimento fetal — uma decisão que ninguém gostaria de tomar, mas que mudaria para sempre a trajetória de Luis Galarreta. Décadas depois, ele estaria de pé ao lado de Keiko Fujimori em um dos momentos mais tensos da política peruana, usando uma prótese em formato de gancho no lugar das mãos, viralizando nas redes sociais não pela deficiência, mas pelo cargo que ocupava: vice na chapa presidencial de um dos nomes mais polêmicos do país.
Galarreta construiu sua carreira política começando longe do fujimorismo. Nos anos 2000, integrava o Movimento pela Liberdade, o grupo liderado pelo escritor Mario Vargas Llosa, que era candidato presidencial. Sua primeira tentativa eleitoral foi em 2001, quando disputou uma vaga no Congresso pelo bloco Unidade Nacional — sem sucesso. Um ano depois, conseguiu se eleger vereador de Lima. Em 2006, conquistou seu primeiro mandato como deputado, e em 2011 foi reeleito. Naquela época, filiado ao Partido Popular Cristão, um grupo de centro-direita que mantinha distância clara do movimento que Keiko Fujimori liderava.
Mas a relação entre Galarreta e o fujimorismo era tudo menos amistosa no começo. Em 2011, ele criticou duramente o governo do pai de Keiko, o ex-presidente Alberto Fujimori, dizendo que a década de 1990 havia sido marcada por problemas institucionais, violações de direitos humanos e corrupção. Era uma posição clara, sem meias palavras. Poucos anos depois, porém, tudo mudaria. Em 2015, Galarreta deixou o Partido Popular Cristão alegando motivos pessoais e ingressou na Fuerza Popular, o partido comandado por Keiko Fujimori. A mudança representou uma guinada política radical e o transformou rapidamente em um de seus principais aliados.
No novo partido, Galarreta se tornou porta-voz da campanha presidencial de 2016 e, no ano seguinte, assumiu a presidência do Congresso peruano. Mais significativo ainda: começou a defender publicamente o legado dos anos 1990, afirmando que o governo de Alberto Fujimori havia cometido erros e crimes, mas apresentava resultados positivos em outras áreas. Era uma reconfiguração completa de sua narrativa política. Quando perguntado sobre sua história pessoal, Galarreta falava com uma certa resignação: "Minha história é muito rica, não mudaria nada", disse em entrevista ao canal da jornalista Milagros Leiva no YouTube. Descrevia como seus pais receberam a notícia antes de seu nascimento de que ele poderia ter uma malformação, e que a recomendação médica era amputar parte de seu corpo. "Deve ter sido uma decisão muito difícil", refletiu.
Atualmente, Galarreta ocupa o cargo de vice-presidente do Parlamento Andino e integra a chapa presidencial de Keiko Fujimori em um segundo turno acirrado contra Roberto Sánchez, da Juntos pelo Peru. Sua trajetória — da crítica ao fujimorismo à sua defesa, da carreira no Movimento pela Liberdade à Fuerza Popular — reflete as complexidades e realinhamentos da política peruana. E sua presença na campanha, com as próteses em formato de gancho visíveis, tornou-se um símbolo visual que circula nas redes sociais, não tanto por sua deficiência, mas pelo contraste entre a narrativa pessoal de superação e as escolhas políticas que o levaram a abraçar um movimento que ele próprio havia condenado anos antes.
Citações Notáveis
Antes do meu nascimento, meus pais foram informados de que eu poderia ter uma malformação e que a recomendação médica era amputar uma parte do meu corpo. Deve ter sido uma decisão muito difícil.— Luis Galarreta, em entrevista ao canal da jornalista Milagros Leiva
A Conversa do Hearth Outra perspectiva sobre a história
Como alguém que criticou tão duramente Alberto Fujimori em 2011 consegue, apenas quatro anos depois, defender seu legado?
Galarreta nunca explicou publicamente essa mudança de forma direta. O que sabemos é que ele deixou o Partido Popular Cristão por "motivos pessoais" e depois passou a falar em "erros e crimes" do governo Fujimori, mas também em "resultados positivos". É uma forma de reconfiguração que permite estar dos dois lados.
Você acha que a mudança foi oportunista ou ideológica?
Provavelmente ambas as coisas. Politicamente, a Fuerza Popular era um partido em ascensão, e Galarreta se tornou rapidamente um dos seus principais nomes. Mas também é possível que ele tenha genuinamente revisto suas posições ao longo do tempo.
Qual é o significado de uma pessoa com deficiência física estar em uma posição tão visível na política peruana?
Há algo de importante nisso — ele não está lá apesar da deficiência, mas também não está lá por causa dela. Está lá porque construiu uma carreira política. O fato de viralizar nas redes sociais por usar prótese diz mais sobre como as pessoas veem a deficiência do que sobre quem ele é.
E a história pessoal dele? A amputação aos três meses de vida?
Ele fala sobre isso com uma certa paz. Diz que não mudaria nada, que sua história é rica. Mas é também uma história de resiliência que contrasta com as escolhas políticas que fez — nem sempre as mais coerentes.