Tô preso pela morte de policial, mas você não vê que estou aqui
Detento condenado a 102 anos por homicídio de policial militar consegue usar celular e enviar vídeos de dentro da cela. Conversas exclusivas mostram diálogos descontraídos onde o preso se exibe e até sugere buscas online sobre seu nome.
- Maycom Leiria da Silva: condenado a 102 anos por morte de PM em 2016
- Policial Thales Ferreira Floriano: assassinado em 6 de agosto de 2016 em Cidreira
- Cinco condenados pelo homicídio, incluindo o irmão Lucas Leiria (84 anos de pena)
- Leiria atua como representante de presos na Penitenciária Estadual de Porto Alegre
Condenado por matar PM em 2016, Maycom Leiria da Silva usa celular dentro da Penitenciária de Porto Alegre para se comunicar e gravar vídeos, desafiando a segurança do sistema prisional.
Maycom Leiria da Silva está cumprindo uma sentença de mais de 102 anos na Penitenciária Estadual de Porto Alegre. Ele foi condenado por participar do assassinato do policial militar Thales Ferreira Floriano em 2016. Apesar de estar atrás das grades, Leiria consegue fazer algo que deveria ser impossível: usar um celular.
As conversas obtidas com exclusividade pela Rádio Guaíba revelam a facilidade com que o detento se comunica do interior da cela. Em um diálogo com uma mulher, ela expressa sua descrença sobre a situação. "Às vezes parece que você não está preso, você passa celular", diz ela. Leiria não nega. Ele vai além: envia um vídeo de si mesmo gravado dentro da cela, sorrindo, gesticulando com as mãos enquanto ouve música. A cena é descontraída, como se estivesse em qualquer lugar, menos em uma penitenciária.
O tom das conversas é casual, quase provocador. Quando perguntado se já havia matado alguém, Leiria responde afirmativamente. "Tô preso pela morte de policial", admite. Depois, como se tudo isso fosse pouco, ele sugere à interlocutora que busque seu nome na internet. "Bota meu nome no Google", propõe, e em seguida envia seu nome completo por escrito. O comportamento revela não apenas acesso a um telefone celular, mas também uma atitude de desafio à autoridade prisional.
Dentro da Penitenciária Estadual de Porto Alegre, Leiria ocupa uma posição de destaque. Ele atua como "plantão", ou seja, representante dos presos da Galeria A no Módulo de Vivência número 3. Seu irmão, Lucas Leiria da Silva, também está preso no mesmo local, condenado a 84 anos de reclusão por envolvimento no mesmo crime. Os dois são apontados como lideranças da facção Bala na Cara, que atuava em Cidreira.
O crime que os levou à prisão ocorreu em 6 de agosto de 2016. O soldado Thales Ferreira Floriano, lotado no 2º Batalhão de Policiamento em Áreas Turísticas, foi baleado na cabeça durante uma ação na Vila Chico Mendes, em Cidreira. Ele deixou uma esposa e uma filha de três anos. Cinco criminosos foram condenados pelo homicídio, incluindo os irmãos Leiria. Além da morte do policial, eles receberam condenações adicionais por dez tentativas de homicídio.
Em 2020, durante o julgamento, a defesa de Maycom Leiria argumentou que o policial teria sido morto por um disparo feito por colegas, não pelos acusados. A reportagem tentou contato com seus representantes legais, mas não obteve resposta até o momento da publicação. O caso agora expõe uma falha significativa na segurança do sistema penitenciário: um detento condenado por homicídio de um policial consegue manter comunicação externa, gravar vídeos e, aparentemente, exercer influência sobre outros presos enquanto cumpre uma sentença que deveria isolá-lo completamente do mundo exterior.
Citações Notáveis
Às vezes parece que você não está preso, você passa celular— Mulher em conversa com Maycom Leiria
Tô preso pela morte de policial— Maycom Leiria da Silva
A Conversa do Hearth Outra perspectiva sobre a história
Como um celular chega até as mãos de alguém condenado a mais de cem anos de prisão?
Essa é a pergunta que ninguém consegue responder com clareza. O que sabemos é que chegou, e que Maycom Leiria não apenas o possui, mas o usa com uma liberdade que parece quase zombadora.
O que mais chama atenção nessas conversas?
A descontração. Ele não está sussurrando, não está com medo. Está sorrindo para a câmera, gesticulando, ouvindo música. É como se estivesse em qualquer lugar menos em uma cela.
Ele admite o crime?
Sim. Quando perguntado se havia matado alguém, ele confirma. Diz que está preso pela morte de um policial. Não há negação, não há arrependimento aparente.
E o sugestão de buscar o nome dele no Google?
Isso é o mais perturbador. Ele não apenas admite, como parece querer que as pessoas saibam quem ele é. É uma forma de afirmação, talvez até de status dentro da facção.
Qual é o impacto disso para a segurança prisional?
Mostra que o sistema está comprometido. Se um líder de facção condenado por matar um policial consegue se comunicar livremente, que tipo de controle realmente existe? Que outras ordens estão sendo transmitidas de dentro daquela cela?
E a família do policial que foi morto?
Thales deixou uma esposa e uma filha de três anos. Essa criança cresceu sem pai. E agora vê o homem condenado por sua morte se exibindo em vídeos, como se nada tivesse acontecido.