Se nem seu povo acredita em você, por que nós deveríamos?
Em meio a uma crise de confiança que esvaziou sua base de clientes e atraiu investigação federal, a Lecar busca recomeçar: reembolsou quem pediu o dinheiro de volta e anuncia agora uma parceria com fabricante chinesa para lançar o Lecar POP, um hatch elétrico compacto. É o movimento de uma empresa que, tendo perdido o chão sob os próprios pés, tenta encontrar novo terreno — ainda que em solo estrangeiro.
- A investigação do MPF sobre o programa 'Compra Programada' desencadeou uma fuga em massa de clientes, obrigando a Lecar a devolver recursos a cerca de 90% dos que haviam feito reservas.
- A tentativa anterior de parceria com a Dongfeng naufragou após desconfiança do mercado brasileiro — e a frase de um representante chinês ('se nem seu povo acredita em você, por que nós deveríamos?') expôs a dimensão do problema.
- Com projetos próprios híbridos flex ainda em desenvolvimento com Horse Powertrain e WEG, a empresa não abandona completamente sua identidade, mas pivota para um modelo elétrico importado da China.
- O Lecar POP — hatch de cinco lugares totalmente elétrico — já tem contrato assinado com uma fabricante chinesa não revelada, e testes de validação estão previstos para setembro de 2026.
- Em setembro, a equipe viaja a Xangai para avançar nas negociações; se bem-sucedida, a estratégia transforma a Lecar de montadora nacional em importadora de tecnologia chinesa.
A Lecar tenta reconstruir sua credibilidade no mercado automotivo brasileiro depois de uma crise que começou em abril de 2026, quando o Ministério Público Federal abriu investigação sobre seu programa de 'Compra Programada'. A repercussão foi imediata: clientes cancelaram reservas em massa, e a empresa reembolsou aproximadamente 90% deles. O fundador Flávio Figueiredo Assis afirma que a maioria prometeu voltar quando o projeto avançar — uma esperança que ainda precisa se confirmar.
A empresa não abandona seus planos originais por completo. O Lecar 459 e a picape Lecar Campo, ambos com motorização híbrida flex, seguem em desenvolvimento com Horse Powertrain e WEG. Mas o foco agora é outro: um hatch elétrico compacto de cinco lugares, batizado provisoriamente de Lecar POP, desenvolvido com uma fabricante chinesa cujo nome Figueiredo Assis ainda se recusa a revelar.
Chegar até essa parceria não foi simples. Antes, a Lecar negociou intensamente com a Dongfeng — reuniões no Brasil e na China, discussões sobre transferência de tecnologia, planos para comercializar um modelo baseado no Dongfeng Box. As negociações fracassaram, e a própria Dongfeng anunciou entrada direta no mercado brasileiro, tornando qualquer acordo ainda menos viável. Um representante da empresa chinesa resumiu o impasse com brutalidade: 'Se nem seu povo acredita em você, por que nós deveríamos?'
Figueiredo Assis diz ter procurado as dez maiores fabricantes chinesas. Com uma delas, há contrato assinado. Em setembro, a equipe vai a Xangai para avançar nas negociações — e, se tudo correr bem, as vendas do Lecar POP começarão de lá. É um pivô radical para uma empresa que nasceu com ambições de produção nacional, mas que agora aposta na importação como caminho de sobrevivência.
A Lecar está tentando reconstruir sua reputação no mercado automotivo brasileiro. Depois de devolver dinheiro para aproximadamente 90% dos clientes que cancelaram suas reservas — uma debandada provocada por questionamentos públicos sobre o projeto da empresa — o fundador Flávio Figueiredo Assis anunciou uma mudança de rumo: a companhia vai lançar um hatch elétrico compacto desenvolvido em parceria com um fabricante chinês.
A crise de confiança começou em abril de 2026, quando o Ministério Público Federal abriu investigação sobre o programa "Compra Programada" da Lecar. A repercussão foi devastadora. Clientes que haviam feito pré-reservas começaram a pedir o dinheiro de volta, e a empresa atendeu todos os pedidos de reembolso. Segundo Figueiredo Assis, a maioria desses clientes afirmou que voltaria a fazer negócio com a Lecar assim que o projeto avançasse — uma declaração que soa mais como esperança do que como certeza.
A empresa não está abandonando completamente seus planos originais. A Lecar continua desenvolvendo dois modelos próprios: o Lecar 459 e a picape Lecar Campo, ambos com motorização híbrida flex. Esses projetos seguem em parceria com as empresas Horse Powertrain e WEG e fazem parte da estratégia de nacionalização da marca. Mas é claro que o foco agora está em outra direção.
O novo modelo, batizado provisoriamente de Lecar POP, será um hatch de cinco lugares totalmente elétrico. A empresa assinou contrato com uma fabricante chinesa para desenvolvê-lo, e os primeiros testes de validação estão previstos para setembro de 2026. Figueiredo Assis não revelou qual é a parceira, mas a história de como chegou até ela é reveladora do momento difícil que a Lecar atravessa.
Antes dessa parceria atual, a empresa havia negociado um projeto semelhante com a Dongfeng, outra fabricante chinesa. As negociações foram intensas: reuniões presenciais no Brasil e na China, discussões sobre transferência de tecnologia e desenvolvimento conjunto. O plano era comercializar um modelo baseado no Dongfeng Box — conhecido na China como Nammi 01 — sob a marca Lecar. Mas as negociações fracassaram. E para piorar, a própria Dongfeng anunciou que vai atuar oficialmente no Brasil, tornando qualquer acordo com a Lecar ainda menos atrativo.
Figueiredo Assis não esconde a frustração. "Se nem seu povo acredita em você, por que nós deveríamos?", disse um representante da Dongfeng — uma frase que o fundador descreve como dura de ouvir, mas que resume perfeitamente o problema que a Lecar enfrenta. A desconfiança do mercado brasileiro afastou até mesmo parceiros chineses que poderiam ter ajudado a empresa a sair do buraco.
Mas ele não desistiu. Figueiredo Assis afirma que procurou todas as dez maiores fabricantes chinesas. Já há um acordo com uma delas — que ele se recusa a nomear por enquanto. Em setembro, a empresa vai para Xangai para avançar nas negociações. Se tudo correr bem, as vendas do Lecar POP começarão de lá mesmo. É um pivô radical: de um projeto de carro eletrificado feito no Brasil para um modelo chinês importado. Mas para uma empresa que perdeu 90% de seus clientes em questão de semanas, é também um sinal de que ainda há vida no projeto.
Citações Notáveis
Devolvemos os valores para todos os clientes que pediram cancelamento. A maioria afirma que voltará a fazer negócio com a Lecar à medida que o projeto avance— Flávio Figueiredo Assis, fundador da Lecar
Procurei todas as TOP 10 da China. Em setembro vamos para Xangai. Se tudo der certo, vamos abrir vendas de lá mesmo— Flávio Figueiredo Assis
A Conversa do Hearth Outra perspectiva sobre a história
Por que a Lecar perdeu tanta confiança tão rápido? O que exatamente a investigação do MPF descobriu?
A investigação foi aberta em abril, mas o que realmente importa é que o público começou a questionar o projeto. Não sabemos os detalhes da investigação, mas o efeito foi imediato: 90% dos clientes pediram o dinheiro de volta. Isso não acontece sem razão.
E agora a empresa está apostando em um carro chinês. Isso não é exatamente o que os clientes queriam — um carro brasileiro?
Sim, mas a Lecar está em modo de sobrevivência. Os projetos híbridos brasileiros continuam, mas são lentos. Um carro elétrico chinês pode chegar ao mercado muito mais rápido. É pragmatismo, não ideologia.
A história com a Dongfeng é interessante. Por que uma fabricante chinesa se importaria com o que o mercado brasileiro pensa da Lecar?
Porque a Dongfeng está entrando no Brasil oficialmente. Se associar com uma marca desacreditada não faz sentido estratégico. A Lecar virou um risco, não um ativo.
Figueiredo Assis diz que os clientes voltarão. Você acredita nisso?
Ele precisa acreditar. Mas a verdade é que perder 90% dos clientes em semanas deixa cicatrizes. Alguns podem voltar, mas a base inicial foi destruída. Ele está reconstruindo do zero.
O que muda se o Lecar POP chegar ao mercado em 2027?
Tudo. Um carro elétrico funcional, com preço competitivo e marca chinesa confiável por trás, pode reposicionar a Lecar completamente. Mas isso só funciona se o produto for bom e se a empresa conseguir restaurar alguma credibilidade.