Se trabalhou, trabalhou contra o Brasil
Quando Donald Trump anunciou, por carta ao presidente Lula, uma tarifa de 50% sobre todas as exportações brasileiras a partir de 1º de agosto, ele não apenas perturbou uma equação comercial — ele colocou em xeque dois séculos de interdependência construída produto a produto, colheita a colheita. Jorge Viana, presidente da ApexBrasil, respondeu não com pânico, mas com a clareza de quem conhece os números: uma relação em que 70% do suco de laranja americano vem do Brasil não se desfaz sem que ambos os lados sangrem. O que resta, até o prazo final, é a pergunta que toda crise comercial eventualmente faz — há vontade política suficiente para separar a retórica da realidade?
- Trump impôs uma tarifa de 50% sobre exportações brasileiras via carta direta a Lula, medida classificada como 'lamentável' pelo presidente da ApexBrasil e que entra em vigor em 1º de agosto.
- A interdependência entre os dois países é profunda e concreta: suco de laranja, aviões Embraer, carne bovina e café somam bilhões de dólares em fluxos que uma decisão unilateral não rompe sem consequências graves para ambos os lados.
- Viana levantou a suspeita de que brasileiros com interesses próprios podem ter atuado nos bastidores americanos para viabilizar a medida — uma acusação velada que aponta para conflitos internos além das fronteiras diplomáticas.
- Pequenas empresas exportadoras, que representam 40% do total, e o estado de São Paulo, responsável por mais de 70% das exportações ao mercado americano, serão os mais duramente atingidos.
- O Brasil responde diversificando parcerias com Ásia e avançando no acordo Mercosul-União Europeia, mas a preferência declarada é negociar com pragmatismo e preservar os 201 anos de relação comercial antes que o prazo expire.
Jorge Viana, presidente da ApexBrasil, recebeu o anúncio de Donald Trump com incredulidade: uma tarifa de 50% sobre todas as exportações brasileiras, comunicada por carta ao presidente Lula, com implementação marcada para 1º de agosto. Para Viana, a medida era mais do que uma decisão comercial — era um golpe contra dois séculos de relacionamento entre os dois países.
Em entrevista, Viana chamou a tarifa de 'lamentável' e foi além: sugeriu que brasileiros com interesses próprios podem ter trabalhado nos bastidores americanos para que a medida fosse adotada. 'Se trabalhou, trabalhou contra o Brasil', afirmou, deixando claro que qualquer ator doméstico envolvido teria agido contra os interesses nacionais.
Os números que ele citava revelavam uma interdependência difícil de ignorar. Mais de 70% do suco de laranja consumido nos EUA vem do Brasil. A Embraer exporta 2,7 bilhões de dólares anuais para lá. Carne bovina e café somam outros 2,7 bilhões. Viana também questionou a base factual da argumentação americana: desde 2009, os EUA acumulam superávit comercial com o Brasil — quase 400 bilhões de dólares. Se o objetivo era reduzir déficits, o Brasil era aliado, não adversário.
O impacto mais duro, porém, recairia sobre quem menos pode absorvê-lo. Pequenas empresas exportadoras — cerca de 40% do total — seriam atingidas em cheio, assim como São Paulo, responsável por mais de 70% das exportações brasileiras ao mercado americano.
Viana não via o Brasil como refém. O país avança na diversificação de parcerias com Índia, Indonésia e na conclusão do acordo Mercosul-União Europeia. Mas a preferência era clara: separar ideologia de comércio, negociar com pragmatismo e preservar uma relação construída ao longo de 201 anos. Até 1º de agosto, havia tempo. A questão era se haveria vontade política de ambos os lados para usá-lo.
Jorge Viana, presidente da Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos, recebeu a notícia como muitos no Brasil a receberam: com incredulidade e preocupação. Donald Trump havia anunciado, por carta ao presidente Lula, uma tarifa de 50% sobre todas as exportações brasileiras, com implementação marcada para 1º de agosto. Para Viana, a decisão era mais que uma medida comercial — era um golpe contra dois séculos de relacionamento entre os países.
Em entrevista à Voz do Brasil, Viana não poupou palavras. Chamou a tarifa de "lamentável" e sugeriu algo que pairava no ar mas raramente era dito em voz alta: que brasileiros com interesses próprios podem ter trabalhado nos bastidores americanos para que essa medida fosse adotada. "Se trabalhou, trabalhou contra o Brasil", afirmou, deixando claro que qualquer ator doméstico envolvido nessa negociação teria agido contra os interesses nacionais.
Mas Viana não era um pessimista. Ele enxergava uma janela de oportunidade nos dias que faltavam até agosto. Se o Brasil e os EUA conseguissem separar a retórica política da carta — aquela parte que tocava em questões ideológicas e até em interferência nos assuntos internos brasileiros — dos números comerciais reais, havia espaço para reverter o curso. O dano, alertou, seria intenso para ambos os lados. Não era ameaça; era diagnóstico.
Os números que Viana citava revelavam uma interdependência que não podia ser simplesmente descartada. Mais de 70% do suco de laranja consumido nos Estados Unidos vinha do Brasil. A Embraer exportava 2,7 bilhões de dólares anuais para lá, com mais de 1.500 aviões em operação. Carne bovina, café — quase 900 milhões e 1,8 bilhão de dólares respectivamente. Essas não eram cifras abstratas; eram cadeias produtivas inteiras que se entrelaçavam entre os dois países, criando uma dependência mútua que uma decisão unilateral não podia romper sem consequências graves.
Viana também questionava a própria base factual da argumentação americana. A carta de Trump misturava questões políticas com dados comerciais que, segundo ele, não refletiam a realidade. Desde 2009, os EUA mantinham superávit comercial com o Brasil — quase 400 bilhões de dólares acumulados. Se o objetivo era reduzir déficits, o Brasil era aliado, não adversário. A lógica da tarifa não se sustentava quando examinada com rigor.
O impacto real, porém, recairia sobre os ombros de quem menos podia absorver. Pequenas empresas exportadoras — cerca de 40% do total de exportadores brasileiros — seriam atingidas em cheio. São Paulo, responsável por mais de 70% das exportações para os EUA, sofreria o baque mais duro. Não eram abstrações econômicas; eram negócios reais, empregos reais, famílias reais que dependiam desse fluxo comercial.
Viana, porém, não via o Brasil como refém. O país estava diversificando parcerias, ampliando relações com Ásia — Índia, Indonésia — e buscando fechar acordos do Mercosul com a União Europeia e o bloco EFTA. Esses movimentos, disse, ajudariam a amortecer um possível colapso do mercado americano. Mas a preferência era clara: manter os 201 anos de relacionamento, trabalhar com pragmatismo, separar ideologia de comércio, e seguir vendendo e comprando como o Brasil sempre havia feito. Até 1º de agosto, havia tempo. A questão era se haveria vontade política de ambos os lados para usá-lo.
Citações Notáveis
O dano que uma medida dessa causaria é muito intenso, eu diria, no Brasil e nos Estados Unidos, nos dois lados— Jorge Viana, presidente da ApexBrasil
Nós apostamos que até o dia 1º de agosto é possível, se separarmos a parte ideológica, mais política da carta e trabalharmos a parte comercial, acho que é possível ter entendimento— Jorge Viana
A Conversa do Hearth Outra perspectiva sobre a história
Por que você acha que alguém dentro do Brasil teria incentivado Trump a impor essa tarifa?
Porque há sempre atores domésticos com interesses que não coincidem com os do país como um todo. Pode ser competidor que quer reduzir concorrência, pode ser alguém com agenda política. Viana não nomeou ninguém, mas deixou claro: se isso aconteceu, foi traição.
A carta de Trump realmente mistura política com comércio?
Sim. Viana disse que uma parte é quase intervenção externa, tocando no Judiciário brasileiro. A outra parte fala de números comerciais que ele considera distorcidos. É como se Trump estivesse usando argumentos econômicos para justificar uma decisão que é fundamentalmente política.
Mas os EUA não têm déficit comercial com o Brasil?
Ao contrário. Desde 2009, os EUA têm superávit de quase 400 bilhões de dólares com o Brasil. Se o objetivo é reduzir déficit, o Brasil deveria ser aliado, não alvo. A lógica não fecha.
Quem sofre mais com essa tarifa?
Os pequenos exportadores — 40% do total — e São Paulo, que manda mais de 70% das exportações para os EUA. Não são grandes corporações; são negócios médios e pequenos que vivem desse mercado.
Há saída para isso?
Viana acredita que sim, se conseguirem separar ideologia de comércio até 1º de agosto. Também aposta em diversificação — Ásia, Europa — para reduzir dependência. Mas a preferência é clara: preservar 201 anos de relacionamento com pragmatismo.
E se não conseguirem?
O dano será intenso nos dois lados. Mas o Brasil não fica imóvel. Está buscando novos parceiros, novos mercados. A questão é quanto tempo leva para compensar o que se perde.