Quando estava aborrecida lia, hoje os miúdos têm muitos estímulos
Nascida em 1986, Joana Marques sempre soube que queria ser guionista, começando nas Produções Fictícias e passando pelo Canal Q antes de chegar à rádio. Criada com regras rigorosas em casa mas liberdade total na casa dos avós, desenvolveu uma personalidade criativa que a levou a questionar autoridades desde adolescente.
- Nascida em janeiro de 1986 em Lisboa
- Autora do programa radiofónico mais ouvido em Portugal, Extremamente Desagradável
- Começou nas Produções Fictícias, passou pelo Canal Q e Antena 3 antes de chegar ao sucesso atual
- Licenciada em Ciências da Comunicação pela Universidade Nova de Lisboa, mas sempre soube que queria ser guionista
Joana Marques, autora do programa radiofónico de maior audiência em Portugal, partilha a sua trajetória desde criança até ao sucesso no 'Extremamente Desagradável', num podcast com Francisco Pedro Balsemão.
Joana Marques cresceu dividida entre dois mundos. De um lado, a casa dos pais em Linda-a-Velha, onde as regras eram muitas e o castigo podia durar meses. Do outro, a casa dos avós no Restelo, onde a despensa estava aberta e não havia lei. Nascida em janeiro de 1986 em Lisboa, aprendeu cedo que a seriedade tinha um preço: quanto mais se enervava com as brincadeiras do irmão — seis anos mais velho — mais ele gozava. Ele escrevia os guiões das peças de teatro que faziam juntos. Ela era sempre a personagem secundária.
O irmão era o lado sério da família. Enquanto Joana ouvia Spice Girls, ele fechava-se no quarto durante aquela fase complicada da adolescência a ouvir Nick Cave. As diferenças de gosto eram tão profundas quanto a diferença de idades. Mas a verdadeira tensão estava entre os dois espaços onde vivia. Na casa dos avós, podia comer o que quisesse da despensa. Em casa, tinha de voltar ao mundo das regras, e chorava sempre que os pais a iam buscar. "Era chato voltar ao mundo das regras", recorda agora.
Adolescente um pouco rebelde — talvez por culpa da tamanha disciplina que tinha em casa — passou meses de castigo. Um deles marcou-a particularmente: ficou um mês a ver todos os clássicos do cinema. Estudou na zona do Restelo e depois tirou uma licenciatura em Ciências da Comunicação pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. Mas a faculdade esteve sempre em segundo plano. Nunca quis ser jornalista. No primeiro ano de licenciatura percebeu logo que não gostava do curso. Tirou, em paralelo, um curso de guionismo. "Eu sabia que queria ser guionista", diz com a certeza de quem sempre soube o caminho.
Começou a trabalhar nas Produções Fictícias, depois saltou para o Canal Q e mais tarde para a rádio, onde fez as manhãs da Antena 3. Hoje é autora do programa mais ouvido em Portugal — o Extremamente Desagradável. O título vem de Inês Lopes Gonçalves e é a rubrica herdeira de "Altos e Baixos". "Nunca fui boa nisso", confessa, referindo-se ao tipo de humor que o programa exige. Não considera que o que faz todos os dias seja um "ato de coragem". Acredita que o ódio das pessoas não vai passar para a "vida real" e até desvaloriza os alertas do pai, que às vezes lhe telefona a pedir-lhe para não falar mais desde ou daquele assunto.
Tem dois filhos, muito diferentes um do outro. O mais velho adora moda e quer ser estilista. O mais novo adora carros e é do Sporting, mesmo com um pai do Benfica e a mãe do FC Porto. Trouxe para o podcast Geração 80 — onde foi convidada de Francisco Pedro Balsemão — o primeiro livro que leu em criança, Uma Aventura. Recorda a diferença entre gerações: "Quando estava aborrecida lia, hoje os miúdos têm muitos estímulos". É uma observação que vem de quem aprendeu, desde pequena, que o tédio podia ser preenchido de muitas formas — desde o teatro com o irmão até aos clássicos do cinema que viu de castigo.
Citações Notáveis
Eu sabia que queria ser guionista— Joana Marques
Era chato voltar ao mundo das regras— Joana Marques, sobre ter de sair da casa dos avós
A Conversa do Hearth Outra perspectiva sobre a história
Cresceu entre duas casas muito diferentes. Como é que isso moldou a forma como vê a autoridade?
A casa dos avós era o escape. Lá não havia consequências, havia liberdade total. Em casa havia regras muito claras e castigos longos. Acho que isso criou em mim uma certa rebeldia, mas também uma compreensão de que as duas coisas são necessárias.
O irmão era muito mais velho e muito mais sério. Sentia-se deixada de fora?
Ele mandava nos guiões, eu era sempre a personagem secundária. Mas acho que isso me ensinou algo importante: que nem sempre se ganha, e que está tudo bem. Ele ouvia Nick Cave, eu ouvia Spice Girls. Éramos muito diferentes.
Sabia desde muito cedo que queria ser guionista. Isso foi uma certeza ou uma fuga?
Foi uma certeza. Mesmo na faculdade, que não gostava, tirei um curso de guionismo em paralelo. Sabia exatamente para onde queria ir. A faculdade era só um papel.
O programa que faz agora é o mais ouvido do país. Isso assusta-a?
Não considero que seja um ato de coragem. As pessoas podem odiar o que digo no programa, mas não acredito que isso passe para a vida real. O meu pai às vezes telefona-me preocupado, mas eu desvalorizo.
Os seus filhos são muito diferentes um do outro, como você e o seu irmão.
Sim, é curioso. Um quer ser estilista, o outro é do Sporting apesar de ter um pai do Benfica e uma mãe do FC Porto. Vejo neles a mesma diversidade que havia em mim e no meu irmão.
Como é que a sua geração consumia entretenimento comparado com as crianças de hoje?
Quando estava aborrecida, lia. Tinha um livro, Uma Aventura, que me marcou. Hoje os miúdos têm tantos estímulos que é difícil eles pararem para ler. É um mundo completamente diferente.