O vírus adiciona mais uma inflamação, e ela pode ter uma crise
Crianças e adolescentes representaram 73,7% das 52.087 internações por asma no Brasil em 2024, com picos no inverno. Vírus respiratórios, ambientes fechados e aglomeração no inverno são os principais gatilhos, não o frio em si.
- 73,7% das 52.087 internações por asma no Brasil em 2024 foram de crianças e adolescentes até 14 anos
- Em julho de 2024, houve 4.034 internações pediátricas por asma, quase o dobro de janeiro
- Cerca de 20 milhões de asmáticos no Brasil precisam de tratamento contínuo
- Vírus respiratórios em ambientes fechados, não o frio, são o principal gatilho de crises no inverno
Especialistas alertam que o inverno intensifica crises de asma principalmente em crianças, devido à circulação de vírus e ambientes fechados. Manutenção do tratamento e vacinação são essenciais para prevenir hospitalizações.
O inverno chega e com ele vem uma ameaça particular para milhões de crianças brasileiras: as crises de asma. Não é o frio em si que agrava a doença, como muitos imaginam, mas sim o que o frio traz consigo — janelas fechadas, ambientes aglomerados, e uma circulação muito maior de vírus respiratórios que encontram terreno fértil em vias aéreas já inflamadas.
Emilio Pizzichini, coordenador da Comissão Científica de Asma da Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia, explica o mecanismo com clareza: quando uma pessoa com asma mal controlada pega um resfriado ou uma virose, o vírus adiciona uma camada extra de inflamação aos brônquios, e a crise acontece. No Brasil, cerca de 20 milhões de asmáticos enfrentam essa realidade todos os anos, e a maioria deles precisa de tratamento contínuo, não apenas sazonal. Vacinas contra gripe, Covid e o vírus sincicial respiratório reduzem significativamente o risco de agravamento e hospitalização, mas Pizzichini aponta um problema estrutural: não há especialistas suficientes para atender toda essa população, e muitas infecções respiratórias em crianças nunca são adequadamente diagnosticadas na atenção primária.
Os números revelam a dimensão do problema. Em julho de 2024, no auge do inverno, houve 4.034 internações por asma em crianças e adolescentes de zero a 14 anos — quase o dobro das 2.108 registradas em janeiro. Ao longo de todo o ano de 2024, o Brasil contabilizou 52.087 internações por asma, e crianças e adolescentes responderam por 73,7% desse total. Esses números não são abstratos; representam crianças em leitos de hospital, famílias em salas de espera, e um sistema de saúde sob pressão.
Marcela Marques, pneumologista do Atendimento Multiassistencial de Saúde da organização Umane, detalha os cuidados práticos que podem fazer diferença real. A casa deve estar arejada, com luz solar entrando, sem mofo ou umidade. Cortinas precisam estar limpas, brinquedos não devem se acumular no quarto da criança, e bichos de pelúcia — aparentemente inofensivos — devem ser evitados. Cobertores acumulam ácaros; edredons são preferíveis. Ao limpar a casa, os pais devem trocar a vassoura por um pano úmido com água ou um aspirador. E há algo que Marques chama de um dos piores aspectos: a exposição ao fumo passivo, seja de cigarro comum, eletrônico ou narguilé.
Mas o cuidado ambiental é apenas parte da equação. Marques lamenta que muitas famílias não recebam orientação adequada dos serviços de saúde logo após a primeira internação. Quando o tratamento preventivo com medicação começa cedo, as crises subsequentes se tornam raras. O que faz diferença é a educação: quando a família compreende quais são os gatilhos específicos, o que pode desencadear uma crise, e como agir quando uma começa, as idas frequentes ao pronto-socorro diminuem drasticamente. Um plano de crise bem estruturado, discutido com a família, pode evitar muitas emergências.
Pedro Giavina-Bianchi, alergista e imunologista da Associação Brasileira de Alergia e Imunologia, reforça o papel da aglomeração. No inverno, as pessoas passam mais tempo em espaços fechados, próximas umas das outras, e isso cria as condições perfeitas para a transmissão viral. A prevalência de infecções virais aumenta, e com ela, as crises de asma. Ele recomenda que asmáticos evitem contato com pessoas resfriadas ou gripadas e não negligenciem as vacinas — não apenas a da influenza, mas também a pneumocócica. Durante a pandemia de Covid-19, vimos que o distanciamento social funciona, e a máscara protege não apenas contra o novo coronavírus, mas também contra rinovírus, influenza e outros vírus respiratórios.
O inverno, portanto, não é apenas uma estação do ano. Para crianças e adolescentes com asma, é um período que exige vigilância, tratamento em dia, vacinação atualizada, e uma família bem orientada sobre como reconhecer e responder às crises. Quando esses elementos se alinham, as internações caem. Quando não, o sistema de saúde se vê sobrecarregado e as crianças sofrem as consequências.
Citações Notáveis
Se a asma não está bem tratada, bem controlada, o resfriado ou a virose adicionam mais uma inflamação na via aérea da pessoa, nos brônquios, e ela pode ter uma crise— Emilio Pizzichini, coordenador da Comissão Científica de Asma da SBPT
Quando a pessoa usa a vacina, diminui o risco de ter um agravamento da inflamação da asma, ter uma crise e ser hospitalizada— Emilio Pizzichini
A Conversa do Hearth Outra perspectiva sobre a história
Por que o frio em si não causa asma, se tantas pessoas pioram no inverno?
O frio fecha as casas, concentra as pessoas em espaços pequenos, e os vírus se propagam muito mais rápido. É a aglomeração e a circulação viral, não a temperatura.
E se a criança já tem asma bem controlada? O inverno ainda é perigoso?
Menos perigoso, mas ainda é. Uma asma bem controlada resiste melhor a uma infecção viral, mas se o vírus chegar, pode desencadear uma crise mesmo assim. Por isso a vacinação é tão importante.
Os números mostram que julho é o pior mês. Isso é verdade em todo o Brasil?
Julho é inverno no Brasil, então sim, é quando vemos o pico. Mas o padrão é o mesmo em qualquer lugar frio — mais gente dentro de casa, mais vírus circulando, mais crises.
Uma família pode realmente evitar hospitalizações só com limpeza e cuidados em casa?
Não é só limpeza. É limpeza mais tratamento contínuo mais vacinação mais orientação sobre o que fazer quando a crise começa. Tudo junto reduz drasticamente as internações.
E se a criança não tiver acesso a especialista?
Aí está o problema real. Pizzichini diz que não há especialistas suficientes. A atenção primária deveria diagnosticar e tratar, mas muitas vezes não faz. Crianças com sintomas respiratórios nunca descobrem que têm asma.
Então a máscara funciona mesmo?
Funciona. Não é só Covid — a máscara bloqueia rinovírus, influenza, sincicial respiratório. Durante a pandemia vimos isso na prática. No inverno, para uma criança asmática, é uma proteção real.