Não posso ficar cega, sou artista. Tudo o que eu sei fazer é na internet.
Uma influenciadora digital de 29 anos foi ao trabalho com um penteado e voltou sem enxergar. O que parecia ser apenas um produto capilar comum revelou-se capaz de causar queimaduras químicas na córnea — um risco que a Anvisa já havia sinalizado meses antes, sem que o alerta chegasse a tempo às mãos de Bielle Elizabeth. O episódio coloca em evidência a distância que ainda existe entre a regulação sanitária e a proteção concreta de quem usa produtos do cotidiano.
- Bielle Elizabeth perdeu 100% da visão após usar uma pomada capilar para finalizar um penteado afro puff, sofrendo queimaduras químicas na córnea — uma ceratite química que a deixou completamente cega no dia seguinte ao evento.
- A médica que a atendeu revelou ter tratado cerca de 150 pessoas com o mesmo problema nos dias anteriores, todas usando o mesmo produto, sinalizando um padrão alarmante de dano coletivo.
- A empresa fabricante, Feirão dos Cabelos, respondeu apontando que o rótulo contém avisos contra contato com os olhos — uma resposta que Bielle considerou irresponsável, argumentando que queimaduras que causam cegueira total não se comparam a uma irritação comum.
- A Anvisa havia emitido alerta em dezembro sobre riscos similares em produtos para trançar cabelos, incluindo casos de cegueira temporária com recuperação de até 15 dias, e chegou a proibir outra pomada capilar por efeitos indesejáveis nos olhos.
- Dias após o ocorrido, Bielle ainda enxergava de forma parcial e duplicada, com o olho direito mais comprometido e risco real de sequelas permanentes de baixa visão — uma ameaça direta à sua vida profissional como criadora de conteúdo.
Bielle Elizabeth tinha 29 anos e um evento de trabalho pela frente quando usou uma pomada capilar para fixar o baby hair do seu penteado afro puff. Era uma rotina comum. Mas durante o evento, sob chuva, seus olhos começaram a arder e inchar. Tentou lavar o rosto, procurou atendimento no local e foi encaminhada a um hospital. Lá, a médica confirmou: queimaduras químicas na córnea. E acrescentou algo perturbador — nos últimos dias, havia atendido cerca de 150 pessoas com o mesmo problema, todas usando o mesmo produto.
O sábado foi o pior. Bielle acordou completamente cega. Voltou à emergência e ouviu que poderia ficar assim por dias, talvez uma semana. Para uma criadora de conteúdo, cujo trabalho depende inteiramente da visão, a notícia era existencialmente aterradora. No domingo, ainda não conseguia abrir os olhos. A sensação era de uma unha arranhando constantemente seus globos oculares. Só na segunda-feira voltou a enxergar — parcialmente. Dias depois, ainda usava óculos o tempo todo, o olho direito embaçado, com visão duplicada.
A marca Feirão dos Cabelos, quando procurada, afirmou que o produto tem registro na Anvisa e que o rótulo alerta contra contato com olhos e mucosas. Bielle considerou a resposta irresponsável: todo xampu traz avisos similares, argumentou. Irritação passa. Cegueira química não é irritação.
A Anvisa já havia emitido alerta em dezembro sobre riscos de produtos para trançar cabelos, com relatos de cegueira temporária e recuperação de até 15 dias. Outra pomada capilar, a Cassu Braids, havia sido proibida recentemente por efeitos indesejáveis nos olhos. Segundo a oftalmologista Ione Alexim, o que Bielle sofreu foi ceratite química — lesões na córnea que, dependendo da gravidade, podem deixar sequelas permanentes de baixa visão. O tratamento imediato com água ou soro fisiológico é essencial: quanto mais rápido, maior a chance de recuperação completa.
Bielle Elizabeth, uma influenciadora digital de 29 anos, acordou na sexta-feira com planos simples: usar uma pomada capilar para finalizar um penteado afro puff antes de um evento de trabalho. O produto era para fixar o que se chama baby hair — fios soltos na pele — uma técnica comum entre mulheres negras. Ela terminou a maquiagem, saiu de casa e chegou ao evento sob chuva. Dançou, trabalhou, fez a publicidade. Então, sem aviso, seus olhos começaram a arder e inchar.
No banheiro do evento, ela tentou lavar o rosto com uma amiga. O desconforto não cedeu. A maquiagem não fazia sentido como culpada — ela usava os mesmos produtos sempre, todos à prova d'água. Procurou o pronto-atendimento do local. Uma enfermeira e um médico a examinaram e a encaminharam para um hospital. Lá, uma médica fez um exame de vista e disse o que Bielle ouviria repetido nos dias seguintes: seus olhos estavam feridos, com queimaduras na córnea. Era uma reação química da pomada. A médica mencionou algo que deixaria a influenciadora ainda mais assustada: nos últimos dias, havia atendido cerca de 150 pessoas com o mesmo problema, todas usando o mesmo produto para cabelo.
O sábado foi o pior dia. Bielle acordou completamente cega. Voltou à emergência e ouviu que ficaria assim por uns três dias — talvez uma semana até melhorar. Ela chorou, entrou em pânico. Sua vida profissional depende inteiramente de seus olhos. Ela é criadora de conteúdo, artista da internet. Não tem outro instrumento de trabalho, nenhuma outra forma de ganhar a vida. A ideia de ficar cega não era apenas assustadora — era existencialmente aterradora.
No domingo, ainda não conseguia abrir os olhos. A sensação, descreveu, era como se alguém passasse a unha e arranhasse constantemente seus globos oculares. Apenas na segunda-feira começou a enxergar novamente, mas apenas parcialmente. Dias depois, ainda usava óculos o tempo todo. Sua visão continuava sensível demais para luz direta. O olho direito, o mais afetado, permanecia embaçado e ela via as coisas duplicadas. O esquerdo oferecia um pouco mais de nitidez. A pomada era da marca Feirão dos Cabelos.
Quando procurada, a empresa respondeu que todas as medidas internas estavam sendo tomadas para garantir a segurança dos clientes. Afirmou que as pomadas têm responsável técnico e registro na Anvisa. O rótulo, disseram, contém a composição do produto e avisos para evitar contato com olhos, boca e mucosas. A empresa havia passado por uma revista sanitária no dia 5 de janeiro, confirmando conformidade com as exigências da agência. Só souberam do caso de Bielle por suas publicações nas redes sociais.
Bielle não havia tentado contato com a marca, mas recebeu uma nota deles apontando que o rótulo alertava contra contato com os olhos. Ela considerou a resposta irresponsável. Todo xampu, todo creme traz avisos similares, argumentou. Se isso acontecesse com todo produto, o mundo seria cego. É normal um produto irritar, causar vermelhidão e ardência — isso passa. Queimaduras químicas na córnea que causam cegueira total não é irritação comum.
A Anvisa já havia emitido um alerta em dezembro sobre riscos de produtos para trançar cabelos, sem nomear marcas específicas. A agência havia recebido relatos de efeitos indesejados, incluindo cegueira temporária — classificada como grave. Alguns consumidores levaram mais de uma semana, até 15 dias, para recuperar a visão. Recentemente, a agência havia proibido a venda de Cassu Braids, outra pomada capilar para modelar e fixar penteados, por efeitos indesejáveis nos olhos e irregularidades da fabricante.
Segundo a oftalmologista Ione Alexim, da Beneficência Portuguesa de São Paulo, o que aconteceu com Bielle foi ceratite química — queimaduras e lesões na córnea causadas por uma substância. Os sintomas incluem dor, lacrimejo, desconforto, inchaço e visão comprometida. O tratamento imediato é lavar o olho com água mineral ou soro fisiológico. Se persistir, é necessário pronto-atendimento oftalmológico. Dependendo da gravidade, podem ficar sequelas permanentes de baixa visão. Quanto mais rápido o tratamento, maior a chance de recuperação completa.
Notable Quotes
A médica informou que havia atendido cerca de 150 pessoas que usaram o produto para cabelo e tiveram problemas nos últimos dias— Bielle Elizabeth, influenciadora
Achei irresponsável. Quando você pega um produto, como xampu ou creme, sempre está escrito para evitar contato. Se acontece, é para lavar em abundância. Imagina se todo produto cegasse uma pessoa?— Bielle Elizabeth, sobre a resposta da marca
The Hearth Conversation Another angle on the story
Por que uma pomada para cabelo causaria queimaduras na córnea? Não deveria ser um produto seguro?
A pomada é feita para fixar cabelos, não para estar perto dos olhos. Mas quando você está em um evento, suando, dançando, chovendo — a pomada migra. Suas mãos tocam o cabelo, depois tocam o rosto. É inevitável.
A marca disse que o rótulo avisa para evitar contato com os olhos. Isso não é suficiente?
Bielle tem razão em questionar isso. Todo produto de higiene pessoal tem esse aviso. Mas a diferença é que uma irritação normal passa em minutos. Isso a deixou completamente cega por dias. Não é a mesma coisa.
Como ela descobriu que eram 150 pessoas com o mesmo problema?
A médica que a atendeu mencionou isso durante o exame. Não foi um número que a marca divulgou — foi o que a própria equipe médica estava vendo chegar ao hospital nos últimos dias.
E se tivesse ficado cega permanentemente?
Ela teria perdido sua carreira. Ela trabalha criando conteúdo na internet. Seus olhos são seu instrumento de trabalho. Não é como um trabalho onde você pode se adaptar. Para ela, cegueira é o fim.
A Anvisa já sabia que isso era um risco?
Sim. Eles emitiram um alerta em dezembro sobre produtos para trançar cabelos. Já tinham relatos de cegueira temporária. Mas não nomearam marcas específicas, então muita gente não soube.
O que deveria ter acontecido diferente?
Talvez um alerta mais específico sobre quais produtos. Ou a marca deveria ter retirado o produto de circulação quando começaram a chegar relatos. Ou Bielle deveria ter sabido que esse risco existia antes de usar.