Ver um homem simples chegar a conselheiro do Tribunal de Contas
Em uma tarde de outubro no Acre, a Assembleia Legislativa ratificou o que o governador Gladson Cameli havia proposto: que José Ribamar Trindade, secretário da Casa Civil, ocupasse a cadeira vaga no Tribunal de Contas deixada pela morte do conselheiro José Augusto de Faria. A trajetória de Trindade — do trabalho braçal nos seringais e canteiros de obras à formação em Direito e à gestão pública — tornou-se, na sabatina, um espelho das possibilidades e das tensões que cercam as instituições de controle no estado.
- A vaga no TCE carregava o peso simbólico da morte de um conselheiro respeitado, e a escolha do governador precisava sobreviver ao escrutínio público da Assembleia.
- Deputados de campos opostos elogiaram o indicado, mas Edvaldo Magalhães rompeu o consenso ao lembrar que as indicações ao TCE raramente escapam de polêmicas — e desta vez não seria diferente.
- A discussão sobre a vaga da auditora Maria de Jesus acendeu um bate-boca entre Magalhães e Roberto Duarte, expondo a fronteira tênue entre debate legítimo e interferência em matéria judicial.
- Trindade navegou as perguntas técnicas sobre caronas em compras públicas e questões de idade nos tribunais superiores com cautela, ancorando suas respostas na legalidade e na fé.
- Ao final, o relator Gerlen Diniz leu o parecer favorável e a sabatina se encerrou com a aprovação confirmada, levando um homem que já dependeu de muletas a uma das cadeiras mais influentes do controle público acreano.
José Ribamar Trindade, secretário da Casa Civil do Acre, teve sua indicação ao Tribunal de Contas do Estado aprovada pela Assembleia Legislativa em uma sexta-feira de outubro. Indicado pelo governador Gladson Cameli, ele foi chamado a preencher a vaga deixada pelo falecimento do conselheiro José Augusto de Faria — figura a quem Trindade prestou homenagem ao relembrar o apoio recebido após um acidente em 2002 que o deixou dependente de muletas por cinco anos.
Na sabatina realizada em comissão especial, Trindade apresentou uma trajetória que começou no trabalho braçal — quebrando concreto em Rio Branco e atuando na Prefeitura da capital — até a formação em Direito e a chegada à gestão estadual. Citou também o conselheiro Antônio Malheiro como quem o aproximou da família Cameli e sustentou sua caminhada institucional.
A aprovação reuniu vozes de diferentes espectros políticos. Líderes governistas como Gerlen Diniz e Cadmiel Bonfim celebraram a escolha, enquanto Jonas Lima, da oposição, disse ser motivo de alegria ver um homem simples alcançar tal posto. O momento mais tenso veio com Edvaldo Magalhães, que questionou se a indicação poderia gerar disputas judiciais futuras, especialmente em relação à vaga da auditora Maria de Jesus. A pergunta provocou reação de Roberto Duarte, que a considerou inadequada por envolver matéria em tramitação na justiça — e Magalhães se sentiu censurado.
Sobre questões técnicas, Trindade defendeu a observância rigorosa dos requisitos legais nas chamadas caronas em compras públicas e destacou a Escola de Contas como instrumento pedagógico essencial para a formação de gestores municipais e estaduais. Ao encerrar sua fala, atribuiu a Deus a oportunidade de ocupar a cadeira de conselheiro.
José Ribamar Trindade, secretário da Casa Civil do Estado do Acre, recebeu aprovação da Assembleia Legislativa na sexta-feira para integrar o conselho do Tribunal de Contas do Estado. A sabatina ocorreu em comissão especial, e sua indicação foi feita pelo governador Gladson Cameli para preencher a vaga deixada pelo conselheiro José Augusto de Faria, que faleceu.
Trindade apresentou um relato de trajetória marcada pelo trabalho desde a infância. Começou quebrando concreto em Rio Branco, depois trabalhou na Prefeitura da capital, estudou e formou-se em Direito, exercendo a profissão inicialmente em empresa privada. Ao falar sobre sua história, mencionou um acidente sofrido em 2002 que o deixou dependente de muletas por cinco anos, período em que recebeu apoio do conselheiro José Augusto, por quem disse ter respeito e admiração. Também citou o conselheiro Antônio Malheiro como responsável por aproximá-lo da família Cameli e por seu apoio durante sua trajetória no TCE.
A aprovação contou com apoio de deputados de diferentes posições políticas. Gerlen Diniz, líder do Governo na Aleac, parabenizou o indicado e expressou satisfação com a escolha. Cadmiel Bonfim também avaliou positivamente, afirmando que Trindade fará um grande trabalho. Neném Almeida se colocou à disposição do novo conselheiro, e Jonas Lima, da oposição, parabenizou o governador pela escolha, dizendo ser motivo de alegria ver um homem simples chegar a conselheiro do Tribunal de Contas.
Durante a sabatina, Fagner Calegário questionou qual seria o posicionamento de Trindade sobre a adesão de atas de compras, as chamadas caronas, que visam gerar economicidade na aquisição de bens e contratação de serviços. Trindade respondeu que o importante é observar se o processo que origina essas práticas preenche todos os requisitos legais. Calegário argumentou que não é possível utilizar preços do Distrito Federal como referência para o Acre.
Edvaldo Magalhães, porém, levantou questões mais críticas. Lembrou que as escolhas para o TCE sempre foram marcadas por polêmicas e questionou se a indicação de Trindade poderia gerar discussões futuras nos tribunais, especialmente considerando a questão sobre a vaga de auditora de contas Maria de Jesus, que ocuparia uma vaga historicamente destinada a conselheiro. Sua pergunta provocou bate-boca com Roberto Duarte, que considerou inadequado o questionamento por se tratar de matéria já em discussão na justiça. Magalhães sentiu-se censurado.
Trindade respondeu elogiando Maria de Jesus e afirmando que, embora não tenha lido o mandado de segurança da Associação de Auditores, aprofundou-se no tema e verificou que nos tribunais superiores não há flexibilização sobre questões de idade. Finalizou dizendo que foi Deus quem lhe deu a oportunidade de ser conselheiro.
Pedro Longo abordou a questão pedagógica do TCE, e Trindade citou a Escola de Contas como unidade importante que tem formado gestores em diversas áreas. Gerlen Diniz, relator da comissão, leu o relatório aprovando a indicação, encerrando o processo de sabatina.
Citações Notáveis
Tinha pelo conselheiro José Augusto respeito e admiração— José Ribamar Trindade
É muita alegria ver um homem simples chegar a conselheiro do Tribunal de Contas— Jonas Lima, deputado da oposição
A Conversa do Hearth Outra perspectiva sobre a história
Por que uma sabatina para conselheiro do TCE gera tanta discussão política?
Porque o tribunal controla as contas públicas. Quem senta naquele conselho tem poder sobre como o dinheiro do Estado é gasto. Quando o governador indica alguém, a oposição quer saber se é por competência ou por proximidade política.
Trindade parecia ter apoio amplo. Por que Edvaldo Magalhães questionou?
Ele não estava questionando Trindade especificamente. Estava levantando um problema estrutural: há uma briga nos tribunais sobre se certas vagas pertencem aos auditores ou se o governador pode indicar quem quiser. É uma questão que ainda está na justiça.
E a resposta de Trindade sobre isso foi convincente?
Ele desviou um pouco. Elogiou a auditora Maria de Jesus, disse que verificou jurisprudência, mas não respondeu diretamente se reconhecia que a vaga poderia ser contestada. Apenas afirmou que foi Deus quem lhe deu a oportunidade.
Qual é a verdadeira questão aqui?
Se o TCE vai funcionar como um tribunal independente ou como uma extensão do poder do governador. Trindade parece competente e tem apoio genuíno. Mas a estrutura do tribunal — quem escolhe, como escolhe — ainda é contestada.
O que muda agora que ele foi aprovado?
Ele entra no conselho. Mas a questão sobre as vagas dos auditores continua nos tribunais. Sua aprovação não resolve o problema de fundo que Magalhães levantou.