A IA não inventa a desinformação; amplifica-a com confiança
Numa era em que a inteligência artificial se torna conselheira de saúde para milhões, um estudo da KFF revela que os utilizadores destas ferramentas acreditam em mitos sobre vacinas a uma taxa significativamente superior à dos não-utilizadores — 35% versus 20% no caso da falsa ligação entre a vacina MMR e o autismo. Não é que a IA invente a desinformação, mas que a apresenta com uma autoridade estruturada que a torna mais persuasiva do que nunca. O paradoxo é profundo: a tecnologia criada para democratizar o conhecimento pode estar, silenciosamente, a minar décadas de saúde pública.
- Adultos que usam IA para conselhos médicos têm quase o dobro da probabilidade de acreditar que a vacina MMR causa autismo — um mito científico desacreditado há décadas.
- Cerca de 29% dos utilizadores de IA creem que mais pessoas morreram da vacina COVID-19 do que da infeção, e outros 29% acreditam que vacinas de ARNm alteram o ADN humano.
- O estudo não identificou quais os chatbots utilizados, tornando impossível saber se o problema é generalizado ou concentrado em plataformas específicas com menos rigor factual.
- A disseminação destes mitos ameaça a imunidade coletiva, abrindo caminho ao regresso de doenças como o sarampo, a papeira e a rubéola — com consequências potencialmente fatais.
- A questão urgente que fica sem resposta é como regular ferramentas de IA para que deixem de reembalar desinformação numa linguagem que soa credível e científica.
Um estudo da organização norte-americana KFF, envolvendo 2.480 adultos representativos da população, revelou um padrão perturbador: quem recorre a ferramentas de inteligência artificial para orientação médica acredita em mitos sobre vacinas com uma frequência significativamente maior do que quem não o faz.
Entre os utilizadores regulares de IA — cerca de 20% de todos os adultos — 35% consideram provável ou certo que a vacina MMR cause autismo em crianças, um mito completamente desacreditado pela ciência. Outros 29% estão convencidos de que mais pessoas morreram da vacina COVID-19 do que da própria doença, e igual percentagem acredita que as vacinas de ARNm alteram o ADN humano. Entre quem nunca usa chatbots para saúde, estes números descem para 20%, 25% e 20%, respetivamente.
O que torna o estudo ainda mais frustrante é o que omite: os investigadores não identificaram quais as plataformas utilizadas pelos participantes. Sem saber se o problema vem do ChatGPT, do Gemini ou de outras ferramentas, torna-se impossível responsabilizar sistemas específicos ou comparar o seu rigor na verificação de factos sobre saúde.
O mecanismo subjacente é insidioso: a IA não fabrica necessariamente desinformação, mas amplifica-a, apresentando argumentos falsos com uma estrutura confiante que os torna mais persuasivos. Uma resposta tecnicamente equilibrada pode, ainda assim, dar voz a afirmações anti-vacina que soam plausíveis quando surgem de uma máquina.
As consequências são concretas. Menos vacinação significa menor imunidade coletiva e o risco real de regresso de doenças como o sarampo — altamente contagioso e potencialmente fatal —, a papeira, que pode causar surdez permanente, e a rubéola, perigosa durante a gravidez. O estudo não oferece soluções, mas deixa uma questão incontornável: à medida que a IA se torna o médico de consulta de muitos, quem garante que o que ela diz é verdade?
Uma investigação conduzida pela organização norte-americana de políticas de saúde KFF descobriu algo perturbador: as pessoas que recorrem a ferramentas de inteligência artificial para orientação médica têm significativamente mais probabilidade de acreditar em mitos sobre vacinas do que aquelas que não o fazem. O estudo envolveu 2.480 adultos representativos da população, e os números revelam um padrão preocupante que merece atenção.
Entre os utilizadores regulares de IA para conselhos de saúde — um grupo que representa cerca de 20% de todos os adultos — as crenças em desinformação sobre vacinas são notavelmente mais altas. Trinta e cinco por cento destes utilizadores acreditam que é "definitivamente ou provavelmente verdadeiro" que a vacina MMR, que protege contra o sarampo, papeira e rubéola, causa autismo em crianças. Este é um mito científico completamente desacreditado há décadas, mas persiste. Outros 29% estão convencidos de que mais pessoas morreram da vacina contra a COVID-19 do que da própria infeção. Igualmente preocupante é o facto de 29% acreditarem que as vacinas de ARNm podem alterar o ADN humano — outra afirmação sem fundamento científico. Vinte e dois por cento consideram que o sarampo é menos perigoso do que a sua vacina.
Quando se comparam estes números com os de pessoas que nunca usam chatbots ou ferramentas de IA para aconselhamento médico, a diferença torna-se evidente. Entre este grupo, apenas 20% acreditam nos mitos relacionados com a vacina MMR e ARNm. Vinte e cinco por cento creem na desinformação sobre a vacina COVID-19, e apenas 15% pensam que o sarampo é menos perigoso do que a sua vacina. Os números são consistentemente mais baixos — não porque estas pessoas sejam imunes a mitos, mas porque não estão a ser expostas ao mesmo nível de desinformação através de ferramentas de IA.
O que torna este estudo particularmente frustrante é o que não revela. Os investigadores não especificaram quais os chatbots ou ferramentas de IA que foram utilizados pelos participantes. Isto é importante porque cada plataforma — seja ChatGPT, Gemini, Claude ou outras — produz diferentes níveis de precisão e desinformação. Alguns podem ser mais cuidadosos na verificação de factos sobre saúde, enquanto outros podem simplesmente reproduzir informações incorrectas encontradas na internet. A OpenAI lançou recentemente o ChatGPT Health, em janeiro, especificamente desenhado para consultas médicas, mas não está claro se este tipo de ferramentas especializadas reduz ou aumenta a propagação de mitos.
O padrão que emerge é preocupante para a saúde pública. Quando as pessoas procuram informações sobre saúde online — um comportamento cada vez mais comum — estão a confiar em sistemas que podem estar a reforçar crenças falsas. A IA não inventa necessariamente a desinformação; muitas vezes, simplesmente a amplifica, apresentando-a de forma confiante e bem estruturada que parece credível. Uma pessoa que pergunta a um chatbot se as vacinas são seguras pode receber uma resposta que, embora tecnicamente equilibrada, inclua argumentos anti-vacina que soam plausíveis quando apresentados por uma máquina.
As implicações são diretas. Se mais pessoas acreditam que as vacinas causam autismo ou alteram o ADN, menos pessoas vão vacinar-se e aos seus filhos. Isto reduz a imunidade coletiva, tornando possível o regresso de doenças que foram praticamente eliminadas em muitos países. O sarampo, por exemplo, é altamente contagioso e pode ser fatal, especialmente em crianças pequenas e pessoas imunodeprimidas. A papeira pode causar surdez permanente. A rubéola durante a gravidez pode resultar em defeitos congénitos graves. Estes não são riscos teóricos — são realidades médicas bem documentadas.
O estudo não oferece soluções, apenas o diagnóstico. Mas a questão que fica é clara: à medida que mais pessoas recorrem a IA para orientação médica, como garantimos que estão a receber informações precisas e não mitos reembalados numa linguagem convincente? A resposta provavelmente envolve regulação mais rigorosa das ferramentas de IA, melhor literacia digital em saúde, e uma responsabilidade mais clara das empresas que desenvolvem estes sistemas. Por enquanto, o que sabemos é que a IA está a fazer algo que a medicina pública tem lutado contra há anos: a tornar os mitos sobre vacinas mais persuasivos.
Citas Notables
Os adultos que usam ferramentas de IA ou chatbots semanalmente para aconselhamento de saúde são mais propensos a apoiar mitos sobre vacinas contra o sarampo e vacinas de ARNm— Estudo da KFF
La Conversación del Hearth Otra perspectiva de la historia
Porque é que a IA parece estar a amplificar especificamente mitos sobre vacinas e não outras desinformações de saúde?
A IA treina-se em dados da internet, e a internet tem muito conteúdo anti-vacina. Quando alguém pergunta sobre vacinas, o sistema pode estar a reproduzir argumentos que encontrou em fóruns, redes sociais ou sites de conspiradores. O problema é que o faz de forma muito confiante e estruturada.
Mas estes chatbots não têm acesso a bases de dados médicas verificadas?
Alguns têm, mas a questão é como equilibram a informação. Se um chatbot tenta ser "equilibrado" e apresenta tanto argumentos pró-vacina como anti-vacina, uma pessoa pode sair mais confusa ou até mais convencida pelos argumentos falsos, especialmente se forem apresentados de forma persuasiva.
O estudo menciona que 20% dos adultos usam IA semanalmente para conselhos de saúde. Isso parece-lhe alto?
É bastante alto, e provavelmente vai aumentar. As pessoas estão ocupadas, os médicos têm listas de espera longas, e um chatbot está disponível 24 horas. O problema é que a conveniência não garante precisão.
Se o estudo não especifica quais os chatbots, como sabemos se o problema é generalizado ou específico de certas ferramentas?
Exatamente. É possível que alguns chatbots sejam muito melhores do que outros. Mas o facto de o estudo ter encontrado este padrão em 2.480 pessoas sugere que é um problema sistémico, não uma anomalia de uma única plataforma.
Qual é o risco real se as pessoas deixarem de confiar em vacinas?
Surtos de doenças que pensávamos estar controladas. O sarampo, por exemplo, é altamente contagioso. Se a imunidade coletiva cair abaixo de um certo limiar, o vírus volta. E mata pessoas, especialmente crianças pequenas.
O que deveria ser feito?
Regulação clara das ferramentas de IA quando usadas para saúde, verificação de factos integrada, e talvez exigir que os chatbots declarem quando estão a falar sobre tópicos controversos. Mas também educação — as pessoas precisam de aprender a questionar o que uma máquina lhes diz.