Esse editor humano fui eu, e eu errei
Em junho de 2026, uma agência de conteúdo brasileira publicou em grandes portais um artigo de saúde repleto de especialistas inteiramente fictícios, gerados por inteligência artificial e apresentados como reais. O episódio, que envolveu a Giro 10, o Terra e o Estado de Minas, não é apenas uma falha técnica isolada — é um espelho das pressões estruturais que empurram o jornalismo contemporâneo em direção à automação acelerada, onde a velocidade e o volume podem corroer silenciosamente a confiança que sustenta o ofício. A crise que se seguiu reacendeu uma pergunta que a profissão ainda não soube responder: como se governa uma ferramenta que imita a autoridade sem possuí-la?
- Nutricionistas e gastroenterologistas que nunca existiram foram apresentados como fontes legítimas em um artigo de saúde lido por milhares de pessoas em dois grandes portais brasileiros.
- A reação nas redes sociais escalou rapidamente, forçando o Terra a publicar um comunicado de retratação e a rescindir imediatamente o contrato com a agência responsável.
- O editor Carlos Vieira assumiu pessoalmente a falha, revelando que supervisionava quarenta textos por dia e que quatro dos seis materiais problemáticos passaram por suas próprias mãos.
- O Estado de Minas manteve o conteúdo no ar por dias e publicou uma nota de retratação com informações incorretas, aprofundando a crise de credibilidade.
- A Federação Nacional dos Jornalistas entrou no debate pedindo regulamentação urgente, enquanto o setor segue sem respostas claras sobre os limites éticos do uso de IA na produção noticiosa.
No dia 26 de junho, um artigo sobre 'fibermaxxing' — a tendência de aumentar drasticamente o consumo de fibras — foi publicado simultaneamente no Terra e no Estado de Minas pela agência Giro 10. O texto trazia entrevistas com cinco especialistas em nutrição e saúde pública. Todos eram fictícios, criados por inteligência artificial.
A Giro 10 operava desde setembro de 2025 fornecendo conteúdo para grandes portais, com um modelo baseado em múltiplas IAs e revisão humana. Seu editor, Carlos Vieira, também comanda o Jogada 10, site esportivo com seis anos de reputação sólida. A expansão para saúde e lifestyle, porém, revelou os limites do modelo.
Quando jornalistas e leitores reagiram nas redes, a crise se instalou. O Terra publicou um comunicado de retratação assinado pelo próprio Vieira, removeu o texto e encerrou o contrato com a agência. A gerente sênior de conteúdo do portal afirmou que a falta de rigor jornalístico tornava o encerramento inevitável. Vieira não se esquivou: dos seis textos problemáticos identificados entre 6.600 produzidos, quatro passaram por suas mãos. 'Esse editor humano fui eu, e eu errei', disse ele.
O Estado de Minas complicou ainda mais o quadro ao manter o artigo no ar por dias e publicar uma nota afirmando que o conteúdo havia sido veiculado 'exclusivamente no portal Terra' — o que era falso. O editor-executivo digital do veículo reafirmou que a decisão final de publicação sempre cabe às equipes editoriais.
O episódio iluminou uma tensão que o jornalismo ainda não resolveu: a pressão por volume e velocidade, a sedução da automação como corte de custos, e o risco de que erros pequenos em escala — menos de 0,1% dos materiais — possam causar danos desproporcionais à credibilidade. A Federação Nacional dos Jornalistas pediu regulamentação urgente. O debate sobre os limites éticos da IA no jornalismo segue aberto.
No dia 26 de junho, um texto sobre uma tendência de redes sociais chamada "fibermaxxing" — basicamente, aumentar drasticamente o consumo de fibras na dieta — foi publicado simultaneamente no portal Terra e no site do Estado de Minas. O artigo tinha quase dez mil caracteres e trazia o que parecia ser entrevistas com especialistas: um nutricionista clínico, dois gastroenterologistas, um nutricionista esportivo e uma pesquisadora em saúde pública. Havia um pequeno detalhe no rodapé: o texto era assinado por "Jonasmoura com uso de inteligência artificial/Giro 10". O detalhe maior era que todos aqueles especialistas eram fictícios, criados pela máquina.
A agência Giro 10, responsável pelo conteúdo, começou suas operações em setembro de 2025 fornecendo artigos para Terra, Estado de Minas, R7 e o Grupo Perfil. Seu editor, Carlos Vieira, explicaria depois que a agência funcionava com um pacote de várias inteligências artificiais trabalhando simultaneamente, mas com checagem humana. Vieira também é editor do Jogada 10, um site de conteúdo esportivo que, segundo ele, nunca usou IA e mantém uma reputação sólida há seis anos. A incursão no jornalismo de saúde e lifestyle, porém, deu errado desde o começo.
Quando jornalistas e leitores começaram a reagir nas redes sociais, a coisa escalou rapidamente. A Federação Nacional dos Jornalistas emitiu uma nota pedindo regulamentação urgente da inteligência artificial no jornalismo. O Terra respondeu com um comunicado intitulado "Erramos", assinado por Vieira no dia 1º de julho. Ele assumiu toda a responsabilidade pelos erros. O portal também removeu o texto do ar e rescindiu o contrato com o Giro 10, que havia começado em outubro de 2025 com valores mensais entre dois e três mil reais por cliente. Manoela Pereira, gerente sênior de conteúdo do Terra, afirmou que a gravidade do fato e a falta de rigor jornalístico justificavam o encerramento imediato e que o portal estava reforçando seus mecanismos de revisão.
Mas havia números por trás dessa história de falha. Vieira revelou que o Giro 10 havia produzido 6.600 materiais desde seu lançamento, e apenas seis deles continham erros — uma taxa de erro de menos de 0,1%. O problema era que aqueles seis erros não eram pequenos: eram especialistas fictícios apresentados como reais. A agência empregava cinco jornalistas, e as assinaturas nos textos eram de profissionais verdadeiros. A checagem era feita por humanos, mas humanos cometem erros. Vieira, com trinta anos de experiência em jornalismo esportivo, assumiu pessoalmente a responsabilidade. Ele e outro colega faziam a apuração de quarenta textos por dia. Dos seis textos problemáticos, quatro passaram por suas mãos. "Esse editor humano fui eu, e eu errei", disse ele. "Não tenho como dar desculpas em relação a isso".
O Estado de Minas, porém, manteve o texto no ar pelo menos até o sábado à noite, junto com uma nota de retratação que afirmava que o conteúdo havia sido publicado "exclusivamente no portal Terra" — o que não era verdade. João Renato Faria, editor-executivo de Digital do Estado de Minas, respondeu que a inteligência artificial era usada como ferramenta de apoio, mas que a curadoria, validação e decisão final de publicação permaneciam sob responsabilidade das equipes editoriais do veículo. O Jogada 10 continuou sendo publicado pelo Terra porque, segundo Vieira, eram propostas e contratos diferentes — e aquele sim tinha uma reputação estabelecida.
O episódio expôs uma tensão fundamental no jornalismo contemporâneo: a pressão para produzir volume rapidamente, a tentação de usar IA para reduzir custos, e o risco real de que a automação excessiva, mesmo com supervisão humana, pode danificar a credibilidade de forma irreparável. Vieira havia tentado expandir além do futebol, seu território conhecido. A primeira empreitada com IA deu errado. Mas a história também revelou algo mais amplo: a relação entre buscas, redes sociais e o ecossistema de notícias nas últimas décadas criou pressões que tornam esses erros não apenas possíveis, mas talvez inevitáveis sem mudanças estruturais. A Federação Nacional dos Jornalistas pediu regulamentação urgente. Enquanto isso, o debate sobre como usar IA responsavelmente no jornalismo continuava sem respostas claras.
Citas Notables
O Giro 10 assume toda a responsabilidade pelos erros— Carlos Vieira, editor do Giro 10
Diante da gravidade do fato e da falta de rigor jornalístico, optamos por remover todos os conteúdos do Portal Giro 10 da base de dados do Terra e encerrar imediatamente o contrato— Manoela Pereira, gerente sênior de conteúdo do Terra
La Conversación del Hearth Otra perspectiva de la historia
Por que isso importa tanto? Foram apenas seis textos com problemas em 6.600.
Porque credibilidade não é matemática. Um leitor que descobre que um especialista é fictício não pensa "bem, 99,9% dos outros textos são reais". Ele pensa que não pode confiar em nada que aquele veículo publica.
Mas o Giro 10 identificou claramente que usava IA. Não escondeu nada.
Verdade. Mas identificar que usou IA não é o mesmo que dizer "este especialista não existe". A maioria dos leitores não vai ler o rodapé. E mesmo quem lê pode não entender as implicações.
O editor assumiu responsabilidade pessoal. Isso não conta para algo?
Conta, sim. Vieira foi honesto sobre o erro. Mas honestidade depois do dano é diferente de rigor antes. Ele estava processando quarenta textos por dia com dois editores. Aquele volume era sustentável?
Então o problema é estrutural, não individual.
Exatamente. Um editor competente cometeu um erro porque o sistema o forçava a escolher entre velocidade e cuidado. A IA acelerou a produção, mas a supervisão humana não acompanhou.
E agora? Regulamentação vai resolver?
Talvez ajude. Mas regulamentação sem mudança nos modelos de negócio — menos volume, mais tempo para checagem — é só teatro.