O sênior foi júnior um dia. Ele precisa ter a trajetória.
IA automatizará tarefas operacionais de entrada, aumentando a distância salarial entre profissionais experientes e recém-formados em 0,7 ponto percentual. Menos jovens ingressando no mercado significa menos profissionais acumulando experiência para ocupar funções estratégicas no futuro, criando risco real de escassez de seniores.
- Prêmio salarial para profissionais experientes cresce 4,1 pontos percentuais; para recém-formados, 3,4 pontos
- Estudo do Banco Inter mapeou cinco cenários de impacto da IA no mercado de trabalho
- Automação de tarefas operacionais reduz demanda por profissionais em início de carreira
- Risco real de escassez de profissionais seniores se menos jovens ingressarem no mercado
Estudo do Banco Inter aponta que IA não causará desemprego em massa, mas reduzirá demanda por profissionais juniores, desestimulando jovens a ingressar no ensino superior e criando futuro apagão de profissionais experientes.
Um estudo do Banco Inter chega a uma conclusão que desafia o pânico comum: a inteligência artificial não vai desencadear uma onda massiva de desemprego no Brasil. Mas há um porém que complica tudo. A automação vai esvaziar as oportunidades para quem está começando a carreira, e isso pode criar um problema muito mais sutil e perigoso — um vazio de profissionais experientes daqui a alguns anos.
O levantamento, obtido com exclusividade pelo Estadão, mapeou cinco cenários diferentes de como a IA pode reorganizar o mercado de trabalho. Em todos eles, o padrão é o mesmo: profissionais com experiência acumulada saem ganhando, enquanto quem sai da faculdade enfrenta um mercado cada vez mais apertado. Os números revelam a dinâmica. O prêmio salarial para quem tem ensino superior e anos de experiência cresce 4,1 pontos percentuais. Para os recém-formados, o aumento é de apenas 3,4 pontos. Parece pequeno, mas a diferença é reveladora. André Valério, economista sênior do Banco Inter e um dos líderes da pesquisa, explica que o principal efeito da IA será redistribuir os ganhos dentro do mercado qualificado. Quem já acumulou experiência fica mais valioso. Quem está tentando entrar no jogo fica mais descartável.
"Não vemos uma grande queda na demanda por trabalhadores qualificados. O que muda é a rentabilidade desses trabalhadores. Pagam mais para quem tem experiência e relativamente menos para quem está entrando no mercado", diz Valério. A IA vai automatizar as tarefas repetitivas e operacionais — exatamente aquelas que os profissionais juniores fazem. Isso torna esses primeiros anos de carreira menos atraentes, menos remunerados, menos necessários. E aqui está o perigo real: se menos jovens entram no mercado, há menos pessoas acumulando experiência ao longo dos anos. Daqui a uma década, quando as empresas precisarem de seniores para funções estratégicas, pode não haver gente suficiente. "O sênior foi júnior um dia. Ele precisa ter a trajetória para chegar em um cargo acima", alerta Valério.
Essa dinâmica pode desestimular jovens a investir em educação superior. Se o retorno financeiro de uma graduação fica comprimido — porque os salários de entrada caem — por que fazer o curso? "Quando comprimimos os salários dos recém-formados, o retorno esperado da educação superior fica achatado e isso pode desestimular muita gente a buscar uma graduação", explica Valério. É um ciclo que se alimenta: menos demanda por juniores leva a menos pessoas estudando, o que resulta em menos profissionais experientes no futuro.
Mas nem tudo é pessimismo. Executivos de tecnologia e recursos humanos apontam saídas. Jerry Soares, CEO da MPJ Solutions, defende que as empresas precisam investir pesadamente em mentoria e aprendizagem prática. "A IA automatiza algumas tarefas, mas o conhecimento sobre como tomar decisões e entender o negócio continua sendo construído na convivência com quem já percorreu esse caminho", diz. Leandro Oliveira, diretor EMEA e Brasil da Humand, uma plataforma de RH, observa que empresas mais maduras já estão criando trilhas de aprendizagem e mentorias, muitas vezes aceleradas pela própria IA. "O desafio é preparar pessoas para trabalhar com IA, e não competir contra ela", conclui.
Valério compara o momento atual com a mecanização da agricultura. As empresas se adaptaram. Os trabalhadores se adaptaram. Mas o ritmo foi crucial. "A adaptação em ritmo exponencial exige de todos uma nova forma de pensar e atuar", diz. No Brasil, a mudança deve acontecer de forma mais gradual, considerando os custos de implementação de IA e o ritmo que as empresas estão adotando. Historicamente, revoluções tecnológicas não eliminaram empregos — apenas mudaram sua composição. "As profissões morrem, mas os empregos, não. O que muda é a composição do mercado de trabalho", reforça Valério.
O desafio real, porém, é manter os espaços onde os jovens aprendem errando em pequena escala. Esse era o papel tradicional do estágio. Se as empresas não redesenharem onde e como os novos profissionais vão se desenvolver, a escassez de seniores deixa de ser um risco teórico e vira realidade. No setor de tecnologia, a transformação já está acelerada: funções de coleta e organização de dados perdem espaço enquanto cresce a demanda por quem define estratégias e toma decisões baseadas nos dados. A questão agora é se o resto do mercado consegue fazer essa transição antes que o vazio de experiência se torne irreversível.
Notable Quotes
Não vemos uma grande queda na demanda por trabalhadores qualificados. O que muda é a rentabilidade desses trabalhadores. Pagam mais para quem tem experiência e relativamente menos para quem está entrando no mercado.— André Valério, economista sênior do Banco Inter
A IA automatiza algumas tarefas, mas o conhecimento sobre como tomar decisões e entender o negócio continua sendo construído na convivência com quem já percorreu esse caminho.— Jerry Soares, CEO da MPJ Solutions
The Hearth Conversation Another angle on the story
Por que a IA não vai simplesmente eliminar empregos, como muitos temem?
Porque a tecnologia não substitui demanda — ela a reorganiza. O que muda é quem faz o quê e quanto ganha por isso. A IA vai tirar tarefas repetitivas das mãos das pessoas, mas as empresas ainda precisam de gente para pensar, decidir, estrategizar.
Então por que isso é um problema para quem está começando?
Porque as tarefas repetitivas são exatamente onde os juniores aprendem. Se a IA faz isso, o júnior fica sem função clara, sem salário atraente, sem razão para estar lá. E se menos jovens entram no mercado, daqui a dez anos não há seniores suficientes.
É um problema de timing, então?
Exatamente. Historicamente, as revoluções tecnológicas sempre criaram novos empregos. Mas levaram tempo. Aqui, o ritmo é exponencial. As empresas precisam inventar novos papéis para juniores enquanto a IA faz o trabalho antigo.
Como as empresas podem evitar esse vazio?
Investindo em mentoria real, em aprendizagem prática, em espaços onde os jovens erram em pequena escala e aprendem. Alguns já fazem isso. Mas muitos ainda não redesenharam onde o júnior vai aprender.
E se não fizerem?
Aí temos um problema real. Não porque os jovens desistam de se formar, mas porque as empresas não prepararam o caminho. A escassez de profissionais experientes deixa de ser um risco teórico.
Qual é a lição histórica aqui?
Que as profissões morrem, mas os empregos não. O que muda é a composição. A questão é se conseguimos fazer essa mudança rápido o suficiente para não deixar ninguém para trás.