O dinheiro não resolve o medo de ter filhos, apenas o adia
O governo húngaro ofereceu empréstimos livres de juros e subsídios habitacionais para casais que prometessem ter filhos, elevando a taxa de natalidade de 1,25 em 2010 para 1,59 em 2020. A natalidade começou a cair após 2020, atingindo 1,31 em 2025, sugerindo que as políticas apenas anteciparam nascimentos planejados, sem reverter a tendência estrutural de declínio.
- Taxa de natalidade subiu de 1,25 em 2010 para 1,59 em 2020, depois caiu para 1,31 em 2025
- Empréstimos de até R$ 170 mil oferecidos a casais que prometessem ter filhos
- Um em cada cinco casais que tomaram empréstimos cinco anos atrás não tiveram filhos
- Governo Orbán gastou cerca de 5% do PIB em iniciativas de apoio às famílias
A Hungria criou ambiciosas políticas de incentivo financeiro para aumentar a natalidade em 2010, com empréstimos e subsídios de até R$ 170 mil. Após aumento inicial de nascimentos, a taxa caiu novamente, revelando limitações do apoio puramente financeiro.
Barbara Elek está sentada num banco de parque em Debrecen, no leste da Hungria, nervosa enquanto verifica seus e-mails. Ela e o marido Levi aguardam o resultado de sua terceira tentativa de fertilização in vitro. Se não conseguirem provar que terão um filho até 1º de novembro, podem ser obrigados a devolver um empréstimo de 10 milhões de florins húngaros — aproximadamente R$ 170 mil — com juros punitivos que chegam a R$ 59,5 mil. Eles não têm esse dinheiro. A história de Barbara e Levi é a história de uma aposta nacional que começou com esperança e terminou em armadilha.
Em 2010, quando Viktor Orbán retornou ao poder, a Hungria enfrentava uma das menores taxas de natalidade da Europa. O país precisava de 2,1 filhos por mulher apenas para manter sua população estável; tinha 1,25. Orbán e seu partido Fidesz ofereceram uma solução ambiciosa: dinheiro. Empréstimos sem juros para casais que prometessem ter filhos. Subsídios habitacionais. Isenções fiscais. Auxílios para comprar carros maiores ou reformar casas. A mensagem era clara e foi estampada nos aeroportos: Hungria Amiga das Famílias. O governo gastaria cerca de 5% do PIB do país nesta iniciativa.
Por um tempo, funcionou. A taxa de natalidade subiu de 1,25 em 2010 para 1,59 em 2020. Conservadores norte-americanos elogiavam a Hungria como um sucesso. Maté e Agi Gorondy, que vivem nos subúrbios de Budapeste, tiveram cinco filhos em menos de dez anos, aproveitando os empréstimos e subsídios. Eles renovaram a casa, compraram um carro maior. Maté notou que em seu bairro, famílias com quatro ou cinco filhos deixaram de ser raridade. As estatísticas confirmavam: famílias com três ou mais filhos atingiram um pico de 146 mil em 2020.
Mas depois a curva caiu. Em 2025, a taxa de natalidade havia despencado para 1,31 — praticamente onde estava quando Orbán começou. Tomas Sobotka, do Instituto de Demografia de Viena, foi direto: "Do ponto de vista dos objetivos destas políticas, este é claramente um fracasso." O que havia acontecido? Os pesquisadores ofereceram respostas diferentes. Eva Fodor, da Universidade Centro-Europeia, sugeriu que as políticas simplesmente anteciparam nascimentos que aconteceriam de qualquer forma, apenas alguns meses ou anos mais cedo. O dinheiro funcionou como um empurrão temporal, não como uma mudança estrutural. A inflação também corroeu o valor real dos empréstimos ao longo dos anos.
Mas havia algo mais profundo. Antonia Miskolczi, mãe de 29 anos em Budapeste, explicou que o dinheiro não era seu problema real. Ela tinha medo do sistema de saúde húngaro. Assistiu a vídeos no TikTok de mulheres grávidas sendo aconselhadas a levar seu próprio papel higiênico e desinfetante para o hospital. Seus parentes tiveram experiências terríveis. Ela pagou por um hospital privado. Os incentivos financeiros não mudaram sua decisão de ter apenas mais um filho. "Não acho que sejam necessárias grandes promessas," disse ela. "Apenas acerte os pontos básicos."
Fodor entrevistou 21 mulheres húngaras de classe média, bem educadas, que trabalhavam na administração estatal. Descobriu que elas viam o apoio do governo como um pagamento único, não como investimento de longo prazo. O que realmente precisavam era de creches adequadas, sistemas de saúde pública confiáveis, flexibilidade no trabalho. A Hungria havia investido em algumas dessas áreas, mas não o suficiente. E havia outro problema: as políticas de Orbán reforçaram a ideia de que as mulheres eram as principais cuidadoras da família. Os papéis de gênero ficaram mais rígidos, não menos. Enquanto isso, países como Suécia criaram licença-paternidade compartilhada, creches acessíveis e pré-escola universal — políticas que não tinham natalidade como objetivo explícito, mas que criaram condições para que ambos os pais trabalhassem e criassem filhos. A Suécia viu sua taxa subir de 1,5 para 2,0 nos anos 2000.
A Coreia do Sul gastou mais de R$ 1,47 trilhão em incentivos de natalidade desde 2008 — bônus de até R$ 204 mil por bebê, benefícios mensais generosos, cupons para creches. Sua taxa de natalidade caiu para 0,8 em 2025. Israel é o único país da OCDE com taxa de natalidade confortavelmente acima do nível de reposição, mas não por causa de gastos governamentais particularmente altos. É por causa de uma ênfase cultural e ideológica profunda na natalidade, enraizada na história do Holocausto. O dinheiro, parecia, tinha limites.
O Banco Nacional da Hungria registrou que um em cada cinco casais que tomaram empréstimos cinco anos atrás não tiveram filhos. O novo governo do país, liderado por Péter Magyar após a derrota de Orbán em abril, declarou que está revisando a política e examinando o que acontecerá com essas pessoas. Enquanto isso, Barbara Elek finalmente recebeu seu e-mail. O embrião não sobreviveu. "É horrível, simplesmente horrível," disse Levi em apoio à esposa. Na Hungria amiga das famílias, o casal está preso num sistema que prometeu apoio mas agora os deixa sem a família que esperavam e enfrentando possível desestabilização financeira.
Citações Notáveis
Do ponto de vista dos objetivos destas políticas, este é claramente um fracasso— Tomas Sobotka, Instituto de Demografia de Viena
Não acho que sejam necessárias grandes promessas. Apenas acerte os pontos básicos e a disposição de ter filhos irá aumentar— Antonia Miskolczi, mãe em Budapeste
A Conversa do Hearth Outra perspectiva sobre a história
Por que você acha que o dinheiro funcionou no começo e depois parou de funcionar?
Porque o dinheiro não muda as razões pelas quais as pessoas têm medo de ter filhos. Barbara tinha medo do hospital. Antonia tinha medo do sistema de saúde. O dinheiro não resolve isso. Ele apenas compra tempo — literalmente, antecipa o nascimento de alguns meses. Depois, quando a realidade volta, as pessoas veem que nada mudou.
Então você está dizendo que a Hungria gastou 5% do seu PIB em algo que não funcionava?
Não exatamente. Funcionou para algumas pessoas — a classe média baixa do interior, casais que já queriam ter filhos mas estavam esperando. Mas nas cidades, onde a natalidade é mais baixa, o dinheiro não fez diferença. E para mulheres que trabalham, o problema não era financeiro. Era que o governo reforçou a ideia de que elas deveriam ser as principais cuidadoras. Isso afasta as pessoas, não as aproxima.
A Suécia fez algo diferente?
A Suécia não estava tentando aumentar a natalidade. Estava tentando permitir que ambos os pais trabalhassem. Licença-paternidade compartilhada, creches acessíveis, pré-escola universal. Isso criou espaço para as pessoas terem filhos sem sacrificar suas carreiras. E funcionou — a taxa subiu de 1,5 para 2,0. Mas depois caiu novamente. Nem mesmo a Suécia conseguiu resolver isso.
Então nada funciona?
Não é que nada funciona. É que o dinheiro sozinho não funciona. Você precisa de infraestrutura — hospitais decentes, creches, flexibilidade no trabalho. Você precisa de uma cultura que permita que os homens cuidem de crianças sem perder status. E você precisa de esperança no futuro. A Hungria ofereceu dinheiro, mas não ofereceu nenhuma dessas outras coisas.
E Barbara e Levi?
Eles estão presos. Tomaram um empréstimo com a promessa de ter filhos. Não conseguiram. Agora podem ter de devolver o dinheiro com juros punitivos que não têm. O sistema prometeu apoio mas criou uma armadilha. Um em cada cinco casais que tomaram empréstimos cinco anos atrás não tiveram filhos. Imagine quantas histórias como a deles existem.