O vírus está ali, destruindo o fígado aos poucos, mas a pessoa segue a vida normalmente
Silenciosas por natureza, as hepatites virais destroem fígados e encerram vidas antes mesmo de serem percebidas — um paradoxo cruel em que a ausência de sintomas se torna o maior vetor de transmissão. Com 304 milhões de pessoas infectadas globalmente e mais de um milhão de mortes anuais, os cinco tipos de hepatite representam um desafio de saúde pública que a ciência já sabe como enfrentar, mas que a invisibilidade da doença insiste em dificultar. O Brasil avança com vacinas e tratamentos gratuitos, enquanto a OMS mira 2030 como horizonte para eliminar essas doenças do mapa — uma corrida contra um inimigo que prefere o silêncio à visibilidade.
- Mais de 304 milhões de pessoas carregam hepatite B ou C sem necessariamente saber, transmitindo o vírus silenciosamente por anos enquanto o fígado sofre danos irreversíveis.
- No Brasil, 45 mil mortes entre 2000 e 2024 revelam o peso real de doenças que muitos ainda associam apenas a sintomas passageiros — e a hepatite C responde por três quartos desses óbitos.
- O diagnóstico tardio é o principal obstáculo: especialistas alertam que um simples exame de sangue anual poderia interromper cadeias inteiras de transmissão antes que complicações graves se instalem.
- Enquanto hepatites A e B já contam com vacinas eficazes e a C tornou-se curável com antivirais de mais de 95% de eficácia, a falta de informação mantém milhões fora do alcance do tratamento.
- O Brasil registra avanços concretos — cobertura vacinal de 98% em recém-nascidos e queda de 50 a 60% na mortalidade — mas a meta da OMS para 2030 exige diagnóstico de 90% dos infectados, um desafio ainda distante.
A hepatite viral tem uma característica que a torna especialmente perigosa: ela pode destruir o fígado por anos sem que a pessoa infectada sinta qualquer coisa. Fadiga, icterícia, febre — esses sinais clássicos simplesmente não aparecem em muitos casos. Sem diagnóstico, o vírus segue circulando de forma invisível, e o dano hepático avança em silêncio.
Os números traduzem a dimensão do problema. Cerca de 304 milhões de pessoas vivem com hepatite B ou C no mundo, e juntos esses dois tipos matam mais de um milhão de pessoas por ano. No Brasil, mais de 800 mil casos foram confirmados entre 2000 e 2024, com aproximadamente 45 mil mortes associadas — sendo a hepatite C responsável por mais de três quartos dos óbitos nacionais por hepatites virais.
Os cinco tipos diferem profundamente entre si. A hepatite A se transmite por água e alimentos contaminados, raramente se cronifica e tem vacina disponível no calendário público. A hepatite B, transmitida por sangue e fluidos corporais — inclusive da mãe para o filho no parto —, pode se tornar crônica em até 95% das crianças infectadas no primeiro ano de vida, evoluindo décadas depois para cirrose ou câncer. A hepatite C não tem vacina, mas tornou-se curável: antivirais de ação direta alcançam taxas de cura superiores a 95%, com tratamento gratuito pelo SUS. Já a hepatite D só infecta quem já tem hepatite B, agravando o quadro de forma significativa, enquanto a hepatite E, transmitida pela via fecal-oral, preocupa especialmente gestantes no terceiro trimestre.
O Brasil tem avançado em frentes concretas. A cobertura vacinal contra hepatite B em recém-nascidos saltou de 77% em 2023 para 98% em 2025, e a mortalidade caiu 50% para o tipo B e 60% para o tipo C na última década. Ainda assim, o diagnóstico tardio permanece o maior entrave. A OMS estabeleceu como meta eliminar as hepatites como problema de saúde pública até 2030 — o que exigirá diagnosticar 90% dos infectados e tratar 80% dos que precisam de acompanhamento. Um exame de sangue anual, simples e acessível, poderia ser o primeiro passo para fechar essa lacuna.
A hepatite viral é uma doença que pode passar anos destruindo o fígado sem que a pessoa infectada perceba. Fadiga, febre, enjoo, pele amarelada — esses sinais clássicos nunca chegam a aparecer em muitos dos que carregam o vírus. Sem diagnóstico, o dano avança silenciosamente, e enquanto isso, o vírus segue sendo transmitido de pessoa para pessoa, invisível.
Os números revelam a escala do problema. Cerca de 304 milhões de pessoas no mundo vivem com hepatite B ou C, dois tipos que frequentemente se transformam em infecções crônicas e complicações graves. Juntos, esses dois vírus matam mais de um milhão de pessoas por ano globalmente. No Brasil, entre 2000 e 2024, foram confirmados mais de 800 mil casos de hepatites virais e aproximadamente 45 mil mortes associadas aos tipos A, B, C e D. A hepatite C sozinha é responsável por mais de três quartos de todos os óbitos por hepatite no país.
O grande obstáculo para controlar essas doenças é justamente esse silêncio. Muitas pessoas não fazem ideia de que convivem com o vírus e, sem saber, o transmitem para outros. Eolo Morandi, gestor médico de Desenvolvimento Clínico do Instituto Butantan, alerta que a baixa taxa de diagnóstico é um dos principais entraves para o controle das hepatites. Pelo menos uma coleta de sangue anual poderia revelar se alguém tem ou não a doença, interrompendo a cadeia de transmissão antes que complicações graves se instalem.
Os cinco tipos de hepatite viral diferem em aspectos fundamentais. A hepatite A se transmite principalmente pela água e alimentos contaminados, além de contato pessoal próximo — comum em creches e instituições. Diferentemente dos outros tipos, ela raramente se torna crônica e geralmente desaparece sozinha, embora pessoas acima dos 50 anos corram maior risco de evoluir para formas mais graves. A vacinação é a principal proteção, oferecida pelo Programa Nacional de Imunizações em dose única aos 15 meses de vida.
A hepatite B é transmitida pelo contato com sangue ou fluidos corporais infectados. Uma das formas mais comuns em áreas onde a doença é frequente é a transmissão de mãe para filho durante o parto. O grande desafio está em sua capacidade de se tornar crônica: cerca de 90 a 95 por cento das crianças infectadas no primeiro ano de vida desenvolvem a forma crônica, enquanto esse risco cai para menos de 5 por cento em adultos. A infecção crônica pode permanecer silenciosa por décadas antes de evoluir para cirrose ou câncer de fígado. A primeira dose da vacina deve ser aplicada nas primeiras 24 horas de vida, seguida por mais três doses aos 2, 4 e 6 meses. Para adultos, o esquema completo requer três doses.
A hepatite C é transmitida principalmente pelo compartilhamento de agulhas e seringas — pessoas que usam drogas injetáveis representam 44 por cento das novas infecções. Também pode ser contraída em procedimentos médicos e estéticos sem esterilização adequada. Diferentemente dos tipos A e B, não existe vacina contra a hepatite C. Mas há uma diferença crucial: a doença se tornou potencialmente curável. Os antivirais de ação direta, usados por algumas semanas, alcançam taxas de cura superiores a 95 por cento, mesmo em casos crônicos avançados. No Brasil, o tratamento é fornecido gratuitamente pelo Sistema Único de Saúde.
As hepatites D e E são menos comuns, mas igualmente importantes. A hepatite D possui uma característica única: só consegue infectar quem também tem hepatite B. Quando ambas estão presentes, a doença progride mais rapidamente e o risco de cirrose e câncer aumenta significativamente. A hepatite E se comporta como a hepatite A, transmitida pela via fecal-oral, e geralmente desaparece sozinha em poucas semanas. A principal preocupação é com gestantes, especialmente no terceiro trimestre, quando o risco de complicações graves é muito maior.
O Brasil tem avançado em frentes importantes. A cobertura vacinal contra hepatite B em recém-nascidos saltou de 77 por cento em 2023 para 98 por cento em 2025. Entre 2014 e 2024, a taxa de mortes por hepatite B caiu 50 por cento, enquanto as mortes por hepatite C registraram redução de 60 por cento. Apesar desses progressos, o diagnóstico tardio continua sendo o principal obstáculo. A Organização Mundial da Saúde estabeleceu como meta eliminar as hepatites como um problema global de saúde pública até 2030, o que exigirá reduzir em 90 por cento o número de novas infecções, diminuir em 65 por cento as mortes, diagnosticar 90 por cento dos infectados e garantir tratamento para 80 por cento daqueles que precisam de acompanhamento clínico.
Citações Notáveis
Um dos principais obstáculos para o controle das hepatites é a baixa taxa de diagnóstico. Como muitas pessoas não têm ideia de que convivem com a doença, elas acabam transmitindo o vírus sem saber.— Eolo Morandi, gestor médico de Desenvolvimento Clínico do Instituto Butantan
O diagnóstico precoce é fundamental para interromper a cadeia de transmissão e evitar que a doença evolua para formas mais graves. Pelo menos uma coleta de sangue anual já contribui para uma pessoa saber se tem ou não a doença.— Eolo Morandi, Instituto Butantan
A Conversa do Hearth Outra perspectiva sobre a história
Por que tantas pessoas não sabem que têm hepatite?
Porque a doença é silenciosa. Muitos infectados nunca apresentam sintomas — nenhuma febre, nenhum amarelado na pele. O vírus está ali, destruindo o fígado aos poucos, mas a pessoa segue a vida normalmente.
E enquanto isso, transmitem para outras pessoas?
Exatamente. Sem saber que têm a doença, acabam passando o vírus adiante. É por isso que o diagnóstico precoce é tão importante — uma simples coleta de sangue anual pode interromper essa cadeia.
Qual é a diferença entre hepatite A e hepatite B?
A hepatite A vem da água e comida contaminadas, e geralmente desaparece sozinha. A hepatite B é transmitida pelo sangue e fluidos corporais, e tem muito mais chance de virar crônica — especialmente em crianças. Uma criança infectada no primeiro ano de vida tem 90 a 95 por cento de chance de desenvolver a forma crônica.
E a hepatite C? Ouço falar que é a mais perigosa.
É a que mais mata no Brasil — responsável por mais de três quartos das mortes por hepatite. Mas aqui está a boa notícia: ela é curável. Os medicamentos antivirais conseguem eliminar o vírus em mais de 95 por cento dos casos, mesmo quando a doença já está crônica.
Não existe vacina para hepatite C?
Não. Por isso a prevenção passa por evitar contato com sangue contaminado e fazer testes regularmente. Mas o fato de ser curável muda tudo — é uma doença que pode ser eliminada do corpo.
O Brasil está conseguindo controlar essas doenças?
Sim, há progressos reais. A vacinação de recém-nascidos contra hepatite B subiu para 98 por cento, e as mortes caíram 50 a 60 por cento nos últimos dez anos. Mas ainda há muito a fazer — muita gente não sabe que tem a doença.