A cada minuto de guerra, a sociedade se desintegra
Cartum registrou novos combates nesta quinta-feira, com explosões e tiroteios desde a madrugada, mantendo o conflito entre o general Burhan e seu rival Mohamed Hamdan Daglo. A crise humanitária é severa: 550 mortos, 4.926 feridos, e a ONU estima necessidade de US$ 445 milhões para assistência. Darfur sofre violência adicional com pelo menos 191 mortos em El Geneina.
- Combates iniciados em 15 de abril entre o exército de Burhan e forças paramilitares de Daglo
- Pelo menos 550 mortos, 4.926 feridos, e mais de 90 mil deslocados para países vizinhos
- ONU estima necessidade de US$ 445 milhões para assistência humanitária
- Em El Geneina, Darfur, pelo menos 191 mortos e dezenas de assentamentos destruídos
Confrontos entre o exército e forças paramilitares no Sudão persistem há 20 dias, desmentindo anúncios de trégua. A violência já causou pelo menos 550 mortes e deslocou mais de 90 mil pessoas para países vizinhos.
Cartum acordou novamente com explosões e tiroteios na madrugada de quinta-feira. Vinte dias de combates entre dois generais rivais pelo poder no Sudão tinham produzido anúncios de trégua que se mostraram vazios. A violência continuava nas ruas, desmentindo cada promessa de pausa.
Os confrontos começaram em 15 de abril, quando o exército sob comando do general Abdel Fatah al Burhan — o líder de fato do país — entrou em choque direto com as forças paramilitares de Mohamed Hamdan Daglo, seu ex-aliado transformado em rival. O que deveria ter sido uma reunião de mediadores internacionais para discutir a integração dessas forças paramilitares ao exército oficial virou, em vez disso, uma guerra aberta pelas ruas da capital.
O custo humano crescia a cada hora. O ministério da Saúde registrava pelo menos 550 mortos e 4.926 feridos — números que especialistas suspeitavam serem conservadores, deixando de fora as vítimas em áreas de difícil acesso. O presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, assinou uma ordem executiva ampliando as possibilidades de impor sanções aos responsáveis pela violência, descrevendo a situação como uma tragédia que precisava terminar. Mas as sanções eram promessas futuras; o sofrimento era presente.
A população fugia. Mais de 50 mil pessoas cruzaram a fronteira com o Egito em um único dia — 3 de maio. Outras 11 mil entraram na Etiópia. Trinta mil atravessaram para o Chade. A ONU estimava que precisaria de 445 milhões de dólares apenas para assistir aqueles que conseguiam escapar. O secretário-geral Antonio Guterres alertava que era absolutamente essencial evitar que a crise ultrapassasse as fronteiras regionais — um aviso que soava cada vez mais urgente conforme os números de deslocados cresciam.
Darfur, a região oeste do Sudão que já havia sofrido uma guerra devastadora começada em 2003, enfrentava agora uma nova onda de violência. Na capital regional El Geneina, pelo menos 191 pessoas morreram. Dezenas de assentamentos foram incendiados ou destruídos. Milhares de pessoas foram deslocadas de suas casas. O Conselho Norueguês de Refugiados documentava a destruição sistemática enquanto o Alto Comissário das Nações Unidas para os Direitos Humanos, Volker Turk, descrevia a situação como desoladora e catastrófica. Ele acusava o exército de bombardear proximidades de hospitais e as forças paramilitares de usar prédios civis como bases militares.
Os mediadores internacionais se movimentavam com urgência. Martin Griffiths, secretário de Assuntos Humanitários da ONU, fez uma visita relâmpago ao Sudão para negociar a entrada segura de ajuda humanitária — esforço que se tornava mais desesperado depois que seis caminhões do Programa Mundial de Alimentos foram saqueados a caminho de Darfur. Volker Perthes, enviado especial da ONU, conversava por telefone com ambos os generais sobre a necessidade de permitir assistência à população.
Mas o exército sinalizava que preferia soluções africanas para os problemas do continente, priorizando iniciativas do bloco regional do leste da África. Também examinava uma proposta conjunta dos Estados Unidos e Arábia Saudita para interromper os combates. A Liga Árabe se reuniria no domingo seguinte para discutir a crise. O enviado de Burhan viajava para Adis Abeba. O chefe da diplomacia egípcia anunciava que havia conversado com os dois rivais.
Mas enquanto diplomatas viajavam e blocos regionais se preparavam para reuniões, Khalid Omar Youssef, ministro civil do governo deposto em 2021, resumia o custo real da espera: a cada minuto de guerra, mais pessoas morriam ou saíam às ruas, a sociedade se desintegrava e o Estado enfraquecia um pouco mais. Desde a queda do ditador Omar al Bashir em 2019, mediadores internacionais tentavam levar civis e militares para a mesa de negociações. Mas analistas observavam que o processo havia dado protagonismo excessivo aos dois generais — os mesmos que, em outubro de 2021, se aliaram em um golpe que destruiu a transição para um governo civil. Agora, aquela aliança havia se transformado em guerra.
Citas Notables
A violência no Sudão é uma tragédia e tem que terminar— Presidente Joe Biden
A cada minuto de guerra, mais pessoas morrem ou saem às ruas, a sociedade se desintegra e o Estado enfraquece— Khalid Omar Youssef, ministro civil do governo deposto
La Conversación del Hearth Otra perspectiva de la historia
Por que esses dois generais, que eram aliados há pouco tempo, estão agora em guerra aberta?
Eles se uniram em 2021 para derrubar o governo civil que estava em transição. Mas agora disputam o poder total. O exército de Burhan e as forças paramilitares de Daglo nunca foram realmente integrados — e quando tentaram negociar essa integração, a tensão explodiu em combate.
A ONU está pedindo 445 milhões de dólares. Isso é realista?
É o que eles estimam precisar para ajudar quem consegue escapar. Mas a ajuda nem chega — seis caminhões de alimentos foram saqueados a caminho de Darfur. O dinheiro importa menos que a segurança para entregar.
Você mencionou que os números de mortos podem ser conservadores. Por quê?
Porque muitas áreas estão inacessíveis. Hospitais foram bombardeados. Comunicações caíram. O ministério da Saúde só consegue contar o que consegue alcançar. A realidade é provavelmente pior.
Por que o exército quer soluções africanas em vez de aceitar mediação internacional?
É política. Burhan quer evitar pressão externa que o force a ceder poder. Soluções africanas significam menos interferência de potências estrangeiras — mais controle local sobre o resultado.
Isso vai terminar em breve?
Ninguém sabe. Os mediadores estão desesperados. Mas enquanto os dois generais acreditarem que podem vencer, não há incentivo real para parar. A trégua de 20 dias atrás provou isso.