Guerra no Oriente Médio dispara dólar e juros; Bolsa desaba 2,25%

O mercado exige mais juros de algo que tem um risco pior
Analista descreve como investidores reagem à combinação de guerra externa e gastos governamentais domésticos.

Em 20 de março de 2026, a guerra no Oriente Médio — já em sua terceira semana — atravessou oceanos e aterrisou nos mercados brasileiros com força total. O dólar subiu para R$ 5,30, o Ibovespa perdeu 2,25% e os juros futuros dispararam em todas as faixas, revelando que o Brasil, como sempre, paga um preço duplo pelas tempestades que não criou. O petróleo acima de US$ 110 o barril reescreveu as expectativas sobre inflação e política monetária — não apenas em Brasília, mas em Washington e no mundo inteiro.

  • O petróleo ultrapassou US$ 110 por barril com a escalada do conflito, ameaçando transformar uma guerra distante em inflação sentida no bolso de cada brasileiro.
  • O Ibovespa despencou 2,25% e o dólar fechou em R$ 5,30, enquanto o índice do medo de Wall Street, o VIX, disparava e as bolsas americanas também caíam.
  • Os contratos de juros futuros subiram em todas as pontas até 2038, invertendo completamente a expectativa de cortes da Selic — e fazendo analistas questionarem se o BC errou ao reduzir a taxa dias antes.
  • O Tesouro Nacional realizou cinco intervenções extraordinárias, recomprando R$ 47 bilhões em títulos públicos para tentar conter o estresse e devolver liquidez ao mercado.
  • Nos EUA, as chances de o Fed elevar juros em abril saltaram de quase zero para 12,4%, sinalizando que a guerra está reescrevendo a política monetária global.

Na sexta-feira 20 de março, os mercados brasileiros acordaram para uma realidade mais dura. O dólar saltou 1,79%, fechando em R$ 5,30, enquanto o Ibovespa desabou 2,25%, chegando a 176,2 mil pontos. Os juros futuros subiram em todas as faixas de vencimento. A guerra no Oriente Médio, então em sua terceira semana, começava a apresentar sua conta ao Brasil.

O culpado principal era o petróleo, que ultrapassou US$ 110 por barril, criando uma pressão inflacionária impossível de ignorar. Uma semana antes, havia esperança de que o Banco Central pudesse continuar cortando a Selic. A guerra mudou esse cálculo. O BC havia reduzido a taxa na quarta-feira anterior — uma decisão que, para o especialista Felipe Sant'Anna, do Grupo Axia Investing, o banco central talvez viesse a lamentar.

Os contratos de DI na B3 mostravam uma inversão completa nas expectativas: as curvas de juros para 2027, 2028 e além subiram em todas as pontas, com os contratos para dezembro de 2027 chegando a avançar quase 3%. A lógica era implacável — se o petróleo caro traria inflação, o mercado parava de esperar cortes e começava a precificar uma Selic mais alta no futuro.

Enrico Cozzolino, da Zermatt Partners, apontava uma complicação adicional: além da guerra, havia o peso das escolhas domésticas, com um governo planejando gastar mais em ano eleitoral. A combinação de inflação global e expansão fiscal criava um risco duplo para o país.

O Tesouro Nacional reagiu com cinco intervenções extraordinárias, recomprando R$ 47 bilhões em títulos públicos para tentar conter a disparada dos juros e restaurar a confiança. Enquanto isso, o dólar subia refletindo um movimento global de fuga para a segurança, amplificado por notícias sobre uma possível incursão terrestre americana no Irã. Nos EUA, as chances de o Fed elevar juros em abril saltaram de quase zero para 12,4% — a guerra estava reescrevendo as expectativas monetárias em todo o mundo.

A questão que pairava sobre analistas e investidores era simples e sem resposta fácil: quanto tempo duraria o conflito, e o Banco Central brasileiro teria qualquer margem de manobra — ou restava apenas esperar que a tempestade passasse?

Na sexta-feira 20 de março, os mercados financeiros brasileiros acordaram para uma realidade mais dura. O dólar saltou 1,79%, fechando em R$ 5,30. O Ibovespa, o termômetro mais visível da saúde econômica do país, desabou 2,25%, caindo para 176,2 mil pontos. Os juros futuros, aqueles contratos que revelam o que os investidores esperam que aconteça nos próximos anos, subiram em todas as faixas de vencimento. Tudo isso acontecia enquanto a guerra no Oriente Médio completava três semanas, e o mercado começava a fazer contas sobre o que isso significaria para o Brasil.

O culpado principal era óbvio: o petróleo. Conforme o conflito se intensificava, os preços da energia disparavam — ultrapassando os US$ 110 por barril — e isso criava uma pressão inflacionária que nenhum banco central consegue ignorar. Para os agentes econômicos, a equação era simples e desconfortável. Uma semana antes, havia esperança de que o Banco Central brasileiro pudesse continuar reduzindo a taxa básica de juros, a Selic. O cenário parecia favorável. Mas a guerra mudou tudo. Na quarta-feira anterior, o BC havia cortado a Selic, uma decisão que, em retrospecto, começava a parecer prematura. Felipe Sant'Anna, especialista em investimentos do Grupo Axia Investing, não hesitou em sua avaliação: o banco central talvez viesse a se arrepender daquele corte.

O que tornava a situação ainda mais tensa era a mudança radical nas expectativas do mercado. Os contratos de DI negociados na B3 — aqueles instrumentos que permitem aos investidores apostar nas taxas futuras — mostravam uma inversão completa. As curvas de juros para 2027, 2028, 2029 e além subiram em todas as pontas. Os contratos para dezembro de 2027 chegaram a subir quase 3%. Ramiro Gomes Ferreira, cofundador do Clube do Valor, explicava que esse movimento era natural em momentos de incerteza extrema, especialmente quando havia fatores como uma crise energética no horizonte. A lógica era implacável: se a inflação ia subir por causa do petróleo caro, o mercado não esperaria mais por cortes de juros. Pelo contrário, começava a precificar uma Selic mais alta no futuro, justamente para controlar aquela inflação que se aproximava.

Enrico Cozzolino, CEO da Zermatt Partners, apontava para uma complicação adicional. Não era apenas a guerra lá fora. Havia também desafios internos. Um governo que planejava gastar mais para tentar a reeleição. A combinação era explosiva: inflação global subindo, governo gastando mais, e o mercado exigindo juros mais altos como compensação pelo risco. Era como se o Brasil estivesse pagando um preço duplo — uma vez pela guerra distante, outra vez pelas escolhas políticas domésticas.

O Tesouro Nacional, vendo a situação sair do controle, entrou em ação. Nos dias anteriores, realizou cinco intervenções no mercado de títulos públicos, recomprando R$ 47 bilhões em cinco leilões extraordinários. Apenas na quarta-feira, o governo havia readquirido R$ 5,4 bilhões em títulos pré-fixados. Era uma tentativa de conter a disparada dos juros, de injetar liquidez e tranquilidade em um mercado que estava perdendo a confiança.

O dólar, por sua vez, subia não apenas contra o real, mas refletia um movimento global de aversão ao risco. Bruno Shahini, especialista em investimentos da Nomad, descrevia o cenário: a moeda americana se fortalecia porque o ambiente de risco global havia se deteriorado. As notícias de uma possível incursão terrestre dos Estados Unidos no Irã amplificavam as incertezas. O VIX, aquele índice que Wall Street chama de "índice do medo", disparava. As bolsas em Nova York caíam. Era um movimento de fuga para segurança que atravessava oceanos.

Nos Estados Unidos, o próprio Federal Reserve começava a ser reavaliado. Uma semana antes, as chances de o banco central americano elevar sua taxa básica na próxima reunião, em abril, eram praticamente nulas. Agora, segundo a ferramenta FedWatch do CME Group, aquelas chances haviam saltado para 12,4%. A guerra estava reescrevendo as expectativas sobre política monetária em todo o mundo.

O que ficava claro era que o Brasil não estava isolado nessa tempestade. Os mercados globais estavam se reposicionando, precificando um mundo mais incerto, mais caro em termos de energia, e que exigiria juros mais altos para compensar os riscos. A questão agora era quanto tempo duraria essa guerra, e se o Banco Central brasileiro teria espaço para fazer qualquer coisa além de esperar que a situação se estabilizasse.

Talvez o Banco Central brasileiro vá se arrepender de ter cortado a Selic na última quarta-feira
— Felipe Sant'Anna, especialista em investimentos do Grupo Axia Investing
O mercado passa a exigir mais juros de algo que tem um risco pior do que o projetado lá atrás
— Enrico Cozzolino, CEO da Zermatt Partners
A Conversa do Hearth Outra perspectiva sobre a história
Inventor

Por que a guerra no Oriente Médio afeta tanto o mercado brasileiro? Não estamos longe demais?

Model

Não é distância que importa aqui. É petróleo. Quando há conflito lá, o preço sobe globalmente, e isso pressiona a inflação em todo lugar, inclusive aqui. O mercado começa a desconfiar que o Banco Central vai precisar manter juros altos por mais tempo.

Inventor

Mas o Banco Central tinha acabado de cortar juros na quarta-feira. Por que fez isso se sabia que havia guerra?

Model

Porque na quarta ainda havia esperança de que o conflito seria breve e controlado. Até quinta-feira à noite, o mercado ainda acreditava em uma trajetória de juros em queda. A guerra mudou isso radicalmente em poucas horas.

Inventor

O Tesouro recomprou R$ 47 bilhões em títulos. Isso resolve o problema?

Model

Resolve temporariamente. É como colocar um curativo em uma ferida que está sangrando. Reduz a pressão imediata, mas não muda o fato de que o mercado agora espera juros mais altos. É um sinal de que o governo está preocupado, nada mais.

Inventor

E o dólar? Por que sobe quando há guerra?

Model

Porque o dólar é visto como refúgio. Quando há incerteza global, investidores vendem moedas de países emergentes como o real e compram dólar. É um movimento de medo, não de lógica econômica.

Inventor

Isso vai durar quanto tempo?

Model

Ninguém sabe. Enquanto a guerra continuar, a incerteza permanece. Se terminar amanhã, os mercados se acalmam em dias. Se durar meses, teremos que conviver com juros mais altos e inflação mais persistente.

Inventor

O governo gastando mais para reeleição piora isso?

Model

Muito. Em um momento em que o mercado já está nervoso com inflação, um governo que aumenta gastos é visto como irresponsável. O mercado exige juros ainda mais altos como compensação pelo risco adicional.

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