Guerra em Israel vira munição política; governo Lula articula defesa no Congresso

O Brasil tem uma posição histórica que faz com que seja conhecido como protagonista
Ministro Paulo Pimenta explica por que o governo não muda sua classificação do Hamas apesar da pressão política.

No intervalo entre a tragédia e a política, a guerra entre Israel e o Hamas atravessou o Atlântico e pousou nos corredores do Congresso brasileiro. A oposição bolsonarista, enxergando na crise internacional uma oportunidade doméstica, mobilizou requerimentos e moções para questionar a postura do governo Lula diante do conflito — acusando-o de complacência com o Hamas. O Planalto, por sua vez, buscou equilibrar a defesa de uma tradição diplomática histórica com o peso das contradições internas de seus próprios aliados.

  • A oposição transformou a guerra Israel-Hamas em arma parlamentar, preparando convocações de ministros para expor o que chamava de omissão moral do governo Lula.
  • Eduardo Bolsonaro liderou a ofensiva com requerimentos contra o chanceler Mauro Vieira e o assessor Celso Amorim, enquanto fake news sobre acordos Brasil-OLP circulavam nas redes para ampliar o desgaste.
  • O ponto mais explosivo era interno: parlamentares petistas, incluindo ministros em exercício, haviam assinado nota de apoio ao Hamas em 2021, fornecendo munição real à narrativa da oposição.
  • Um assessor parlamentar que zombou de vítimas do Hamas nas redes sociais precisou ser exonerado, tornando o episódio ainda mais difícil de conter para o governo.
  • O Planalto reagiu tentando converter convocações em convites, invocando a posição histórica da ONU e anunciando gestos de diálogo com a comunidade judaica brasileira.
  • Com mais de 3.500 mortos somados nos dois lados do conflito, o Brasil debatia o tema em moções e requerimentos — revelando como guerras distantes redefinem batalhas políticas próximas.

No Palácio do Planalto, os assessores de Lula se preparavam para uma batalha travada não nas ruas, mas nos corredores do Congresso. A guerra entre Israel e o Hamas havia se convertido em munição política, e o PL de Bolsonaro afiava suas armas parlamentares.

A estratégia da oposição era direta: convocar ministros para explicar o que consideravam uma postura complacente com o Hamas. Mauro Vieira e Celso Amorim estavam na mira. Eduardo Bolsonaro assinou requerimentos pedindo explicações sobre as medidas adotadas após os ataques e a posição oficial do Brasil sobre o grupo. Também circulavam fake news associando acordos brasileiros com a OLP a supostos repasses ao Hamas — acusação sem fundamento, mas com tração nas redes.

O flanco mais vulnerável do governo era interno. Em 2021, parlamentares do PT — incluindo os então futuros ministros Alexandre Padilha e Paulo Pimenta — haviam assinado nota em apoio ao Hamas quando o Reino Unido o classificou como organização terrorista. Padilha ainda enfrentava críticas por ter mantido em seu gabinete um assessor que, no dia dos ataques, zombou de uma das vítimas nas redes sociais. O assessor foi exonerado, mas o episódio já havia se espalhado.

O governo se defendia lembrando que Lula condenou os ataques e defendeu um cessar-fogo, e que o Brasil seguia a classificação da ONU — que não inclui o Hamas na lista de organizações terroristas. Pimenta argumentou que definir grupos terroristas cabia ao Conselho de Segurança, não a países individualmente. Celso Amorim, porém, gerou nova polêmica ao atribuir o ataque a "anos de tratamento discriminatório" de Israel contra palestinos, rendendo-lhe uma moção de repúdio de três deputados do PL.

Com 1.300 israelenses e 2.215 palestinos mortos até então, a guerra era devastadora em seu epicentro. No Brasil, ela se desdobrava em requerimentos e declarações. Padilha minimizava as críticas, mas a oposição havia encontrado terreno fértil para questionar a credibilidade do governo em política externa — e não pretendia recuar.

No Palácio do Planalto, os assessores do governo Lula se preparavam para uma batalha que não seria travada nas ruas, mas nos corredores do Congresso Nacional. A guerra entre Israel e o Hamas havia se transformado em munição política, e a oposição — especialmente o PL de Bolsonaro — estava afiando suas armas.

Os parlamentares bolsonaristas começaram a preparar requerimentos de convocação para ministros do governo. O alvo principal era explicar o que viam como uma postura complacente com o Hamas. Mauro Vieira, ministro das Relações Exteriores, e Celso Amorim, assessor especial para assuntos internacionais, estavam na mira. A estratégia da oposição era clara: usar a guerra para desgastar Lula. O governo, por sua vez, tentava transformar essas convocações em convites — uma forma menos agressiva que permitisse maior margem de negociação sobre o comparecimento dos ministros.

Eduardo Bolsonaro, filho do ex-presidente, foi um dos principais articuladores dessa ofensiva. Ele assinou dois requerimentos para convocar Vieira, pedindo explicações sobre as medidas adotadas após o ataque do Hamas e qual era a posição oficial do Brasil em relação ao grupo. Além disso, Eduardo era coautor de um projeto de decreto legislativo que buscava encerrar um acordo de cooperação entre Brasil e a Organização para a Libertação da Palestina. Circulavam também fake news nas redes sociais tentando associar os acordos brasileiros com a OLP a supostos repasses para o Hamas — uma acusação sem fundamento que ganhava tração entre apoiadores da oposição.

O ponto mais sensível para o governo era a proximidade ideológica de alguns parlamentares petistas com a causa palestina. Alguns aliados de Lula haviam defendido o Hamas no passado, o que ampliava o potencial de desgaste. Em 2021, parlamentares do PT, incluindo os atuais ministros Alexandre Padilha e Paulo Pimenta, haviam assinado uma nota em apoio ao Hamas quando o Reino Unido o classificou como organização terrorista. Padilha também enfrentava críticas por ter recebido um assessor parlamentar que, no dia dos ataques do Hamas, havia zombado de uma das vítimas nas redes sociais. Esse assessor, Sayid Tenório, foi posteriormente exonerado.

O governo tentava se defender argumentando que havia acertado em suas declarações sobre o conflito. Havia condenado os ataques terroristas, a morte de civis e defendido um cessar-fogo na região. Lula, em sua primeira declaração, disse ter ficado "chocado com os ataques terroristas", embora não tenha citado o Hamas diretamente — uma escolha que aliados consideraram equilibrada. Pimenta reforçava que o Brasil seguia a classificação da ONU, que não incluía o Hamas na categoria de organização terrorista. "O Brasil tem uma posição histórica", afirmou o ministro, explicando que a competência para definir organizações terroristas cabia ao Conselho de Segurança da ONU, não a países individuais.

A questão de Celso Amorim também gerava controvérsia. Em entrevista ao Painel da Folha de S.Paulo, ele havia afirmado que o ataque do Hamas tinha origem em "anos de tratamento discriminatório" de Israel contra palestinos. Três deputados do PL solicitaram aprovação de uma moção de repúdio contra ele por essa declaração. Padilha, tentando conter os danos, anunciou que se encontraria em novembro com o presidente da Confederação Israelita do Brasil, Claudio Lottenberg — um gesto de aproximação que sinalizava disposição de diálogo.

Os números do conflito eram brutais. O ataque do Hamas a Israel, realizado por terra, ar e mar, havia matado 1.300 pessoas. A retaliação israelense havia deixado 2.215 palestinos mortos até o sábado 14 de outubro. Enquanto isso, no Brasil, a guerra se desenrolava em requerimentos, moções e declarações públicas. Padilha minimizava o episódio da nota de 2021 em apoio ao Hamas, dizendo que estava "sendo utilizado de forma absolutamente equivocada, por pessoas que tentam transformar qualquer coisa em disputa política". Mas a verdade era que a oposição havia encontrado um terreno fértil para questionar a credibilidade do governo em política externa — e não pretendia deixá-lo em paz tão cedo.

O Brasil tem uma posição histórica, existe uma delegação, uma competência para informar esse conceito de organização terrorista para o mundo inteiro
— Paulo Pimenta, ministro da Secretaria de Comunicação Social
Ficou chocado com os ataques terroristas
— Lula, em sua primeira declaração sobre a guerra
A Conversa do Hearth Outra perspectiva sobre a história
Inventor

Por que a oposição vê uma abertura tão clara para atacar o governo neste momento?

Model

Porque há um histórico real. Parlamentares petistas defenderam o Hamas no passado, e isso fica documentado. A oposição não está inventando do nada — está apontando para contradições que existem.

Inventor

Mas o governo diz que apenas segue a posição da ONU. Isso não é uma defesa legítima?

Model

É legítima, mas não é suficiente politicamente. A ONU pode ter uma posição, mas a opinião pública brasileira — especialmente a comunidade judaica — tem outra. O governo está tecnicamente correto e politicamente vulnerável ao mesmo tempo.

Inventor

Como o Palácio do Planalto está tentando se defender?

Model

De várias formas. Transformando convocações em convites para ganhar tempo. Fazendo gestos de aproximação com a comunidade israelita. Reforçando que condenou os ataques terroristas. Mas o dano já está feito — a narrativa da oposição pegou.

Inventor

E as fake news sobre repasses para o Hamas? Isso é uma ameaça real?

Model

Não há fundamento nas acusações, mas em redes sociais a verdade é menos importante que a velocidade. Uma mentira bem contada viaja mais rápido que a verdade. O governo sabe disso e por isso está tentando agir rápido.

Inventor

Qual é o risco real para Lula aqui?

Model

Desgaste na base aliada e questionamento sobre sua credibilidade em política externa. Se a oposição conseguir associar o governo a uma postura pró-Hamas — mesmo que injustamente — isso afeta a governabilidade no Congresso.

Inventor

Isso vai mudar a posição do Brasil sobre o Hamas?

Model

Dificilmente. Mudar agora pareceria capitulação política. O governo provavelmente vai manter a posição histórica, mas vai trabalhar muito para explicá-la e se aproximar de Israel diplomaticamente.

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