Daqui a 50 anos, estarão rindo disso
Jeremy Grantham, cofundador da GMO e reconhecido cético dos mercados, olha para o IPO da SpaceX e enxerga não uma oportunidade, mas um espelho do tempo: um documento que promete estender 'a luz da consciência às estrelas' e que, segundo ele, será lido com gargalhadas por gerações futuras de investidores. A empresa de Elon Musk, recém-incluída no Nasdaq 100, navega entre ambições cósmicas e uma realidade terrena de ações em queda, enquanto Wall Street mantém alvos otimistas e o mercado é empurrado por uma demanda estrutural que pouco tem a ver com fundamentos. O episódio, seja qual for seu desfecho, já ocupa seu lugar na longa história das apostas humanas no impossível.
- Grantham classifica o IPO da SpaceX como 'o mais maluco da história da humanidade', alertando que o prospecto da empresa — com metas de tornar a vida multiplanetária e estender a consciência às estrelas — é uma receita para o ridículo histórico.
- A inclusão acelerada da SpaceX no Nasdaq 100 força fundos indexados a comprarem as ações independentemente de qualquer análise fundamentalista, criando uma pressão artificial de demanda que pode inflar o preço além do que os números justificam.
- As ações acumulam queda de 7% no último mês e são negociadas perto de US$ 150, apenas ligeiramente acima do preço de lançamento de US$ 135, enquanto analistas do Morgan Stanley, Goldman Sachs e J.P. Morgan mantêm alvos entre US$ 205 e US$ 300.
- O J.P. Morgan aponta que há 'apenas um Elon': Musk controla 82% do poder de voto, e essa concentração de poder levanta sérias questões de governança e risco de transição de liderança que podem pesar sobre o futuro da empresa.
- Grantham adverte que a única justificativa para preços muito mais altos exigiria um avanço tão radical da inteligência artificial que nossas vidas seriam irreconhecíveis — e mesmo assim, diz ele, 'teríamos sorte se não fôssemos comandados por nossos amigos autômatos'.
Jeremy Grantham, cofundador da gestora GMO e investidor conhecido por seu ceticismo permanente, não esconde o que pensa sobre o IPO da SpaceX: para ele, é o mais maluco da história. Ao podcast The Long View, da Morningstar, Grantham afirmou que daqui a 50 anos investidores estarão citando trechos do prospecto da empresa — que declara como objetivo 'estender a luz da consciência às estrelas' — enquanto riem. Sua crítica central é a desconexão entre as promessas cósmicas da companhia de Elon Musk e o que qualquer empresa pode realisticamente entregar.
Ao mesmo tempo, Grantham reconhece uma complicação de mercado que torna a situação mais complexa do que uma simples bolha. A inclusão acelerada da SpaceX no Nasdaq 100, resultado de novas regras da Nasdaq, obriga fundos indexados a comprarem as ações — criando uma demanda estrutural que pode sustentar ou elevar o preço independentemente dos fundamentos. 'É difícil imaginar que o preço não vá subir', admite ele, 'e talvez suba bastante'.
No terreno concreto, as ações acumulam queda de 7% no último mês, negociadas em torno de US$ 150 — pouco acima dos US$ 135 do lançamento. Wall Street, porém, permanece otimista: Morgan Stanley projeta US$ 300, Goldman Sachs aponta US$ 205 e J.P. Morgan estabelece alvo de US$ 225, considerando possível a meta de Musk de US$ 1 trilhão em receita até 2031, desde que haja 'forte execução dentro de um cronograma ambicioso'.
Os analistas do J.P. Morgan destacam, no entanto, que há 'apenas um Elon'. Com 82% do poder de voto nas mãos de Musk, a concentração de controle levanta questões sérias de governança e expõe a empresa ao risco de uma eventual transição de liderança. Para Grantham, o desfecho será historicamente marcante de qualquer forma — como exemplo clássico de exuberância irracional, ou como prova improvável de que o impossível era possível.
Jeremy Grantham, cofundador da gestora de investimentos GMO, olha para o prospecto da SpaceX e vê algo que o futuro vai achar hilariante. A empresa de Elon Musk, agora listada no Nasdaq 100, declarou em seus documentos de oferta que seu objetivo é "construir os sistemas e tecnologias necessários para tornar a vida multiplanetária, compreender a verdadeira natureza do universo e estender a luz da consciência às estrelas". Para Grantham, um investidor conhecido por seu ceticismo permanente — ele se descreve como um "permabear" e já alertou que a inteligência artificial poderia resultar em "sangue nas ruas" — essas ambições literalmente cósmicas são exatamente o tipo de coisa que gerações futuras de investidores vão citar enquanto riem.
"Todo mundo está fazendo fila para dizer que você deve comprar o IPO mais maluco da história da humanidade", disse Grantham ao podcast The Long View, da Morningstar, em episódio divulgado no dia da publicação. "Daqui a 50 anos, estarão contando e escrevendo histórias sobre a SpaceX, citando trechos do prospecto, e você vai rir disso." Sua crítica não é apenas sobre as ambições grandiosas — é sobre a desconexão entre o que a empresa promete e o que realista pode entregar.
Mas há uma complicação que Grantham reconhece: a inclusão acelerada da SpaceX no Nasdaq 100 criou uma dinâmica de mercado que pode sustentar o preço das ações independentemente dos fundamentos. Quando a Nasdaq anunciou novas regras para acelerar a inclusão de empresas antigas que abrem capital, a intenção era representar melhor o mercado. O resultado prático, porém, é que fundos de investimento ligados ao índice são obrigados a comprar ações da SpaceX. "O que isso significa é que haverá muita gente obrigada a comprar a ação para qualquer índice com perfil Nasdaq", observa Grantham. "Então haverá muito mais demanda do que vendedores. E, sendo a relação entre oferta e demanda o que é, é difícil imaginar que o preço não vá subir — e talvez suba bastante."
No momento em que o artigo foi escrito, a ação acumulava queda de 7% no último mês, negociada em torno de US$ 150 por papel — apenas um pouco acima dos US$ 135 previstos no lançamento. Wall Street, porém, permanece amplamente otimista. O Morgan Stanley fixou preço-alvo de US$ 300, enquanto o Goldman Sachs vê a ação mais perto de US$ 205. O J.P. Morgan estabeleceu alvo de US$ 225 e afirmou que considera possível a meta de Elon Musk de alcançar US$ 1 trilhão em receita até 2031, embora isso exija "forte execução dentro de um cronograma ambicioso".
Os analistas do J.P. Morgan, porém, destacaram uma preocupação central: há "apenas um Elon". Musk controla 82% do poder de voto da SpaceX, e sua influência é descrita como "desproporcional" e central para a cultura, visão e estratégia operacional da empresa. Embora os analistas reconheçam que essa liderança foi decisiva para o sucesso, a concentração de controle levanta questões de governança e expõe a empresa ao risco de transição de liderança.
Grantham expressa perplexidade com as recomendações de Wall Street. "No fim, a realidade vai aparecer, e isso vai acabar se tornando um daqueles marcos históricos que eu tanto valorizo ao olhar para a história", afirmou. Ele sugere que seria "impressionante se isso não entrasse em colapso", porque a justificativa para um preço mais alto exigiria um avanço tão grande da inteligência artificial que nossas vidas inteiras teriam de ser completamente diferentes. Mesmo que isso acontecesse, o mundo seria um lugar "estranho", e "teríamos sorte se não fôssemos comandados por nossos amigos autômatos".
Essa perspectiva "bastante horrível", segundo Grantham, é menos provável do que um tombo das ações. Mas de qualquer forma, o episódio será historicamente marcante — seja como um exemplo de exuberância irracional ou como prova de que o impossível era possível. A SpaceX foi procurada para comentar, mas não respondeu.
Citações Notáveis
Todo mundo está fazendo fila para dizer que você deve comprar o IPO mais maluco da história da humanidade— Jeremy Grantham, cofundador da GMO
Haverá muita gente obrigada a comprar a ação para qualquer índice com perfil Nasdaq. Então haverá muito mais demanda do que vendedores— Jeremy Grantham, sobre o impacto da inclusão no Nasdaq 100
A Conversa do Hearth Outra perspectiva sobre a história
Por que Grantham chama especificamente de "mais maluco da história"? Não há outras empresas com ambições grandiosas?
Há diferença entre ambição e ficção científica. A maioria das empresas promete crescimento, eficiência, novos mercados. A SpaceX promete tornar a vida multiplanetária. É uma coisa diferente.
Mas a empresa realmente está construindo foguetes que funcionam. Não é só promessa vazia.
Verdade. Mas há uma lacuna entre "construir foguetes" e "estender a luz da consciência às estrelas". Uma coisa é tecnicamente possível; a outra é retórica de ficção científica em um prospecto de investimento.
Então o problema é o prospecto, não a empresa?
Não exatamente. O problema é que Wall Street está dispostos a pagar preços altíssimos baseado em promessas que talvez nunca se concretizem. E Grantham vê isso como historicamente absurdo.
Mas ele admite que o preço pode subir bastante por causa do Nasdaq 100.
Sim. Ele separa duas coisas: o que é racional (demanda forçada por inclusão em índices) e o que é insano (pagar US$ 300 por ação porque a empresa promete colonizar Marte). Uma coisa sustenta o preço; a outra o justifica.
E se Musk realmente conseguir?
Então Grantham estaria errado, e o mundo seria tão diferente que nossas vidas inteiras seriam irreconhecíveis. Ele não acha que isso é improvável — acha que é menos provável que o colapso.