O reajuste chegaria direto ao bolso de quem abastecia o carro
Diante da turbulência nos mercados internacionais de petróleo — agravada pelo conflito entre Estados Unidos e Irã no Estreito de Hormuz — o governo Lula recorre a uma medida provisória para reduzir tributos federais sobre combustíveis e conter o impacto imediato nos preços ao consumidor. A Petrobras já havia anunciado reajuste iminente nas refinarias, e o caminho legislativo convencional mostrava-se lento demais para a urgência do momento. A decisão revela como pressões externas e cálculos eleitorais internos se entrelaçam na gestão econômica de um governo que busca, a poucos pontos percentuais de diferença nas pesquisas, reconquistar a confiança popular.
- O conflito entre EUA e Irã fechou rotas no Estreito de Hormuz e disparou o preço do petróleo globalmente, levando a Petrobras a anunciar reajuste iminente nas refinarias brasileiras.
- O projeto de lei complementar enviado à Câmara em abril tramitava em regime de urgência, mas o Congresso não avançava rápido o suficiente para conter a alta antes que ela chegasse às bombas.
- O Planalto optou pela medida provisória — instrumento que entra em vigor imediatamente, sem votação prévia — para reduzir tributos federais sobre gasolina e diesel de forma ágil.
- A manobra faz parte de um conjunto de ações anti-inflacionárias lançadas na mesma semana, incluindo o fim da taxa sobre compras internacionais e uma nova fase do Desenrola.
- Com Lula e Flávio Bolsonaro empatados tecnicamente nas pesquisas, cada centavo a menos no litro de gasolina é tratado no Planalto como um ativo político de valor imediato.
O Palácio do Planalto se preparava para anunciar, na quarta-feira 13 de maio, uma medida provisória destinada a frear a alta dos preços da gasolina. A pressão vinha de fora: o conflito entre Estados Unidos e Irã havia desorganizado o tráfego no Estreito de Hormuz, uma das rotas mais críticas do comércio petrolífero mundial, elevando os preços em cascata até as bombas brasileiras.
A Petrobras já havia dado o sinal. Na terça-feira anterior, a presidente Magda Chambriard confirmou a analistas que um reajuste nas refinarias era iminente. A empresa havia registrado lucro de 32,6 bilhões de reais no primeiro trimestre, mas aguardava aprovação do Congresso para um mecanismo que permitisse usar receitas extraordinárias das exportações como subsídio aos combustíveis. Sem essa aprovação, o reajuste chegaria direto ao consumidor.
O governo havia tentado o caminho convencional: em 23 de abril, enviou à Câmara um projeto de lei complementar que autorizaria a redução de tributos federais sobre gasolina e diesel, compensada por receitas do setor petrolífero. O projeto tramitava em urgência, mas o ritmo legislativo não acompanhava a urgência econômica. A conclusão no Planalto foi direta: a medida provisória, que entra em vigor no momento da publicação e tem validade de até 120 dias sujeita à aprovação do Congresso, era o instrumento necessário.
A movimentação não era apenas técnica. Na mesma semana, o governo anunciou o fim do imposto sobre pequenas compras internacionais e lançou nova etapa do programa Desenrola. Uma pesquisa Quaest divulgada no mesmo dia mostrava Lula com 42% das intenções de voto num eventual segundo turno contra Flávio Bolsonaro, que marcava 41% — margem dentro do erro estatístico. A avaliação negativa do governo havia recuado de 42% para 39%, e a positiva subido de 31% para 34%. Movimentos modestos, mas na direção certa. No cálculo do Planalto, cada real economizado no tanque era também um voto em potencial.
O governo federal está se movimentando para frear a escalada dos preços da gasolina, e a estratégia passa por um instrumento legal que pode entrar em vigor imediatamente: uma medida provisória que o Palácio do Planalto esperava anunciar na quarta-feira, 13 de maio. A pressão vem de fora — do mercado internacional de petróleo, onde a guerra entre Estados Unidos e Irã desorganizou o tráfego no Estreito de Hormuz, uma das artérias mais críticas do comércio petrolífero mundial. Quando essa rota se fecha, os preços sobem em toda parte, e o Brasil sente o impacto direto nas bombas.
A Petrobras já havia sinalizado o que vinha por aí. Na terça-feira anterior, a presidente da companhia, Magda Chambriard, foi direto ao ponto durante uma conferência com analistas: um aumento de preço da gasolina nas refinarias estava para acontecer em breve. A empresa havia registrado lucro de 32,6 bilhões de reais no primeiro trimestre de 2026, mas isso não significava que os consumidores ficariam protegidos da volatilidade internacional. Chambriard explicou que a Petrobras aguardava aprovação do Congresso para um mecanismo que permitisse usar as receitas extraordinárias da exportação de petróleo como subsídio aos combustíveis durante o período de crise. Sem isso, o reajuste chegaria direto ao bolso de quem abastecia o carro.
O governo havia começado por um caminho mais convencional. Em 23 de abril, apresentou à Câmara dos Deputados um projeto de lei complementar que autorizaria o Executivo a reduzir tributos federais sobre gasolina e diesel, compensando a perda de arrecadação com receitas extraordinárias do setor petrolífero. A deputada Marussa Boldrin, do Republicanos de Goiás, assumiu a relatoria. O projeto tramitava em regime de urgência, mas o Congresso não se movia rápido o suficiente. Diante disso, a avaliação no Planalto era clara: a medida provisória era o caminho mais direto.
Medidas provisórias funcionam diferente de projetos de lei. Entram em vigor no instante em que a Presidência as publica — sem esperar votação prévia. Têm validade de até 120 dias, período em que precisam ser aprovadas pelo Congresso para continuarem existindo. A lógica é simples: em situações que exigem resposta rápida, o Executivo não pode ficar refém do calendário legislativo. Para o Planalto, essa era exatamente a situação: a inflação pressionava, e cada dia de atraso era um dia a mais com preços altos nas ruas.
Por trás dessa movimentação havia uma preocupação política clara. Aliados de Lula avaliavam que o controle dos preços era estratégico para recuperar a popularidade do presidente. Na mesma semana, o governo também anunciou o fim do imposto sobre pequenas compras internacionais — a chamada taxa das blusinhas — e lançou uma nova etapa do programa Desenrola, voltado à renegociação de dívidas. Eram sinais de que o Planalto estava em modo ofensivo contra a inflação e seus efeitos políticos.
Uma pesquisa Quaest divulgada naquele mesmo dia mostrava Lula com 42% das intenções de voto em um eventual segundo turno contra o senador Flávio Bolsonaro, que aparecia com 41%. A margem era apertada. A avaliação negativa do governo havia caído de 42% para 39%, enquanto a positiva subiu de 31% para 34% — movimentos modestos, dentro da margem de erro, mas na direção certa. Cada ponto percentual importava. E cada real economizado no tanque de gasolina era um voto em potencial.
Citações Notáveis
Vai acontecer já, já um aumento de preço da gasolina— Magda Chambriard, presidente da Petrobras
A Conversa do Hearth Outra perspectiva sobre a história
Por que o governo não conseguiu simplesmente aprovar o projeto de lei que já estava no Congresso?
Porque o Congresso se move em seu próprio ritmo, e a crise do petróleo não espera votação. Um projeto de lei complementar passa por várias etapas — comissões, discussões, emendas. A medida provisória entra em vigor na hora, e depois o Congresso tem 120 dias para decidir se mantém ou não.
Então é um risco? O que acontece se o Congresso rejeitar a medida?
Sim, é um risco calculado. Se o Congresso não aprovar em 120 dias, a medida cai e tudo volta ao que era antes. Mas o governo apostou que a urgência da situação — e o fato de que ninguém quer ser visto votando contra redução de impostos sobre gasolina — tornaria a aprovação provável.
A Petrobras sabia que isso vinha?
Sabia e avisou. Magda Chambriard foi bem clara: o reajuste estava para acontecer. A empresa estava apenas esperando que o governo encontrasse uma forma de amortecer o impacto no consumidor final.
E por que a guerra entre EUA e Irã afeta tanto o preço aqui no Brasil?
Porque o Estreito de Hormuz é por onde passa uma fração enorme do petróleo que abastece o mundo. Quando há tensão geopolítica ali, os mercados internacionais ficam nervosos, os preços sobem por antecipação, e todo país que importa petróleo sente o baque.
Isso é sobre economia ou sobre política?
É os dois. Economicamente, é uma resposta legítima a uma crise de preços. Politicamente, é uma tentativa de mostrar que o governo está agindo — e de proteger a popularidade do presidente em um momento em que as pesquisas mostram uma disputa apertada.