Vencedora de prêmio da Copa tem visto negado seis vezes e perde viagem dos sonhos

Torcedores de dezenas de países são impedidos de assistir à Copa do Mundo por negações de visto, causando perdas financeiras significativas e exclusão de evento esportivo global.
Perdi a vontade de assistir aos jogos este ano
Raphaela, após perder viagem premiada pela negação de visto americano para a Copa do Mundo 2026.

Raphaela ganhou viagem completa para Copa após competição da Coca-Cola, mas teve visto negado seis vezes, perdendo experiência avaliada em R$ 25 mil. Onze países têm taxa de rejeição acima de 40%; nenhum país africano tem isenção de visto americano, criando assimetria estrutural no acesso.

  • Raphaela ganhou viagem completa para Copa após vencer competição da Coca-Cola, mas teve visto negado seis vezes
  • Onze dos 48 países classificados têm taxa de rejeição de visto americano acima de 40%; no Senegal, taxa supera 70%
  • Nenhum país africano tem isenção de visto americano; visto de turista custa US$ 185 e exige entrevista presencial
  • Família de Raphaela contabilizou R$ 5 mil em prejuízos; viagem foi vendida por R$ 25 mil

Torcedores de diversos países enfrentam altas taxas de rejeição de visto americano para a Copa do Mundo 2026, com 11 das 48 seleções classificadas tendo rejeição acima de 40%. Casos como o de Raphaela, que perdeu viagem premiada após seis negativas, revelam padrão estrutural de exclusão.

Raphaela Coiado abriu a mala temática da Coca-Cola e viu as camisetas amarelas da seleção brasileira. Foi ali, na porta de casa, que ela chorou — não quando o consulado negou seu visto, nem quando negou o do marido e dos quatro parentes que a acompanharam ao Rio de Janeiro. A enfermeira de 24 anos havia conquistado uma viagem para a Copa do Mundo 2026 de forma que a maioria dos torcedores só sonha. Ela e o marido Vitor, que gerencia o setor comercial de um supermercado familiar, venceram uma competição da Coca-Cola destinada a seus parceiros comerciais. O prêmio era completo: duas passagens aéreas de ida e volta, cinco noites de hospedagem, e um ingresso para o camarote da Coca-Cola no jogo entre Brasil e Haiti em 19 de junho na Filadélfia, com comida e bebida inclusos. Eles ficaram em primeiro lugar quase o tempo todo, recuperando-se de um momento crítico na última semana para garantir a vitória.

Mas nenhum dos seis membros da família que poderiam usar o prêmio tinha visto americano. Raphaela, que vive em Hortolândia no interior de São Paulo, nem passaporte possuía. Recém-casada, ainda não havia atualizado seu nome nos documentos. Ela correu contra o tempo: atualizou CPF e RG, tirou o passaporte em tempo recorde, e entrou no processo de solicitação de visto com o marido, duas cunhadas e seus companheiros. A família contratou uma assessoria especializada para preencher formulários e organizar documentos. Raphaela passou semanas pesquisando na internet, assistindo vídeos e simulando respostas com o ChatGPT. "Não sei quantas simulações fiz pelo ChatGPT. E, pelo visto, não ajudou muito", ela diria depois.

Como as vagas no consulado de São Paulo só estavam disponíveis para setembro, e a viagem era em junho, todos viajaram para o Rio de Janeiro em uma jornada de dois dias. No consulado, foram questionados sobre grau de parentesco, destino, profissão e renda familiar. Todos foram negados. Nenhum passou. O consulado americano não informa motivos para recusas. Raphaela tem suspeitas: talvez as interrupções do marido durante a entrevista, talvez o fato de ele trabalhar como Microempreendedor Individual, talvez nenhum deles nunca ter viajado ao exterior. Mas nenhuma certeza. Além da viagem perdida, a família contabilizou aproximadamente R$ 5 mil em prejuízos: as taxas do visto (cerca de R$ 900 por pessoa), a assessoria, as passagens para o Rio, hospedagem e alimentação. O casal considerou estender a estadia e tentar novamente antes da Copa. Decidiram que o risco financeiro e emocional não valia. Venderam a viagem por R$ 25 mil em menos de um dia.

O caso de Raphaela não é isolado. Uma análise do BBC World Service com dados do Departamento de Estado americano revelou que torcedores de mais de um quarto dos países classificados para o torneio enfrentam proibições de viagem, restrições rígidas ou altas taxas de rejeição de visto. Diferentemente das quatro últimas Copas do Mundo — na África do Sul, Brasil, Rússia e Catar — que implementaram regimes especiais de visto para torcedores, os Estados Unidos não criaram nenhum processo específico. A FIFA desenvolveu o FIFA Pass, um sistema que direciona portadores de ingressos para agendamentos prioritários nas entrevistas consulares, mas acelera o processo sem aumentar chances de aprovação. "O sistema de vistos é o porteiro invisível da Copa do Mundo", disse à BBC a advogada especializada em imigração Céline Atallah. "A FIFA pode vender um ingresso, mas o governo americano decide quem recebe o visto."

A assimetria é estrutural. Quarenta e dois países — em geral os mais ricos — têm isenção de visto para os Estados Unidos e podem viajar mediante autorização eletrônica que custa US$ 40. Nenhum país africano está nessa lista. Para os demais, o visto de turista custa US$ 185 e exige entrevista presencial. Onze dos 48 países classificados têm taxa de rejeição acima de 40%: Senegal, Gana, República Democrática do Congo, Irã, Jordânia, Argélia, Haiti, Egito, Cabo Verde, Uzbequistão e Equador. No Senegal, a taxa supera 70%. Quatro países estão na lista de restrições de viagem do governo Trump — Haiti, Irã, Senegal e Costa do Marfim — o que impede seus cidadãos de obter o tipo de visto recomendado para torcedores. Para senegaleses e marfinenses, havia prazo adicional: precisavam garantir o visto antes de dezembro, quando as restrições entraram em vigor.

O torcedor senegalês Aliou Ngom esteve nas duas últimas Copas. Para 2026, nem tentou o visto. O presidente da associação de torcedores da Costa do Marfim, Julien Kouadio Adonis, descreveu as restrições como "uma forma de segregação que não ousa dizer seu nome". "Nenhum país europeu enfrentou esse tipo de restrição. Por que a África?", questionou. No Iraque, Abdulla Adnan comprou ingressos para os jogos de sua seleção contra Noruega e França logo após a classificação — a segunda vez na história do país. Mas os Estados Unidos suspenderam serviços consulares de rotina no Iraque por questões de segurança. Sem possibilidade de entrevista presencial, Adnan viajou até a Jordânia, onde foi informado de que a embaixada americana não poderia emitir vistos para não-cidadãos jordanianos. Gastou cerca de US$ 1.800 e desistiu. O presidente da associação de torcedores da Jordânia, Abu Kass, levou mais de 42 documentos à sua entrevista. O visto foi negado, sem explicação. Segundo ele, não conhece nenhum torcedor jordaniano que tenha conseguido aprovação.

Até torcedores de países historicamente bem-vistos foram surpreendidos. Na Escócia, dezenas de torcedores que haviam recebido a autorização eletrônica de viagem americana (ESTA) — válida por dois anos — viram o status mudar de "aprovado" para "viagem não autorizada" sem aviso prévio, poucos dias antes da estreia da seleção. Scott Braid, 43 anos, de Kirkcaldy, havia organizado uma viagem para toda a família. "Desde que fiz a ESTA, absolutamente nada mudou nas minhas circunstâncias", disse à BBC Escócia. Os irmãos Andrew e Nelson Speirs também tiveram a autorização revogada em junho, após aprovação em dezembro. O custo total da viagem planejada era de £ 10 mil. O governo americano respondeu que o sistema continua verificando automaticamente todas as autorizações em bancos de dados de segurança, e que uma ESTA aprovada não garante entrada no país.

Raphaela planeja tentar o visto novamente — mas não antes de viajar para a Europa, para construir um histórico de viagens internacionais. Ela acredita que a ausência de viagens anteriores pode ter pesado contra ela. De qualquer forma, não será para esta Copa. "Essa era uma oportunidade única. A gente sabe que isso não vai acontecer de novo. Nem tão cedo. Perdi a vontade de assistir aos jogos", disse ela.

O sistema de vistos é o porteiro invisível da Copa do Mundo. A FIFA pode vender um ingresso, mas o governo americano decide quem recebe o visto.
— Céline Atallah, advogada especializada em imigração
Uma forma de segregação que não ousa dizer seu nome. Nenhum país europeu enfrentou esse tipo de restrição. Por que a África?
— Julien Kouadio Adonis, presidente da associação de torcedores da Costa do Marfim
The Hearth Conversation Another angle on the story
Inventor

Por que você acha que o visto foi negado especificamente para você e sua família?

Model

Não há resposta oficial. Mas penso muito sobre detalhes: meu marido interrompeu durante a entrevista, ele é MEI, nenhum de nós tinha viajado antes. Qualquer um desses fatores pode ter sido decisivo.

Inventor

E se você tivesse viajado antes para outro país?

Model

Talvez fosse diferente. Por isso planejo ir à Europa primeiro, construir um histórico. Mas isso é especulação. O consulado não explica nada.

Inventor

Quanto você e sua família perderam financeiramente?

Model

Uns R$ 5 mil em taxas, assessoria, passagens para o Rio. Mas vendemos a viagem por R$ 25 mil. Devolveria cada centavo se pudesse ir agora.

Inventor

O que mais dói — o dinheiro ou a experiência perdida?

Model

O dinheiro passa. A Copa do Mundo com esses jogadores, nessa edição, não volta. Alguns deles estão se aposentando. Era minha chance de vê-los.

Inventor

Você acompanha o que está acontecendo com torcedores de outros países?

Model

Sim. Vejo histórias piores que a minha. Pessoas que gastaram muito mais, de países onde a rejeição é acima de 70%. Pelo menos eu tenho a opção de tentar de novo. Muitos não têm.

Inventor

Você ainda quer ir para uma Copa do Mundo?

Model

Quero. Mas não essa. Perdi a vontade de assistir aos jogos este ano.

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