Fundo ligado ao Banco Master declara participação de R$ 113,7 mi na Forbes Brasil

Ninguém na Forbes Brasil sabe nada sobre isso
O fundo Eagle Eye declarou à CVM possuir R$ 113,7 milhões em ações da empresa, mas os controladores negam integralmente a participação.

Entre o que se declara e o que se registra, abre-se por vezes um abismo que revela muito sobre a natureza do poder financeiro. Um fundo ligado ao ex-banqueiro Daniel Vorcaro e ao Banco Master afirmou à CVM deter a totalidade das ações da Forbes Brasil, avaliadas em R$ 113,7 milhões — mas os controladores da empresa negam qualquer vínculo, e os registros públicos não sustentam a declaração. O episódio se insere numa teia mais ampla de investigações sobre fraudes financeiras e possíveis tentativas de influência sobre veículos de comunicação, lembrando que a opacidade nas estruturas de poder raramente é acidental.

  • Um fundo associado ao Banco Master declarou à CVM possuir 100% das ações da Forbes Brasil, movimentando R$ 113,7 milhões em papéis que, segundo os próprios donos da empresa, jamais foram negociados.
  • A diretora-executiva Katarina Camarotti desmentiu categoricamente qualquer alteração societária, e os registros da Junta Comercial de São Paulo confirmam que apenas ela e Antonio Camarotti figuram como acionistas.
  • Os documentos enviados pela administradora Reag Investimentos à CVM contêm um CNPJ inexistente, um contrato sem identificação de contraparte e uma contradição interna sobre a própria titularidade das ações.
  • A Reag Investimentos foi submetida à liquidação extrajudicial pelo Banco Central e é alvo da Polícia Federal, que investiga se fundos por ela administrados serviram a operações fraudulentas ligadas ao Banco Master.
  • Daniel Vorcaro aparece em mensagens obtidas pela PF demonstrando preocupação com cobertura jornalística e mantendo vínculos societários ou comerciais com múltiplos veículos de comunicação, ampliando o escopo das investigações.

Entre outubro e novembro de 2024, o fundo Eagle Eye — vinculado ao Banco Master e ao ex-banqueiro Daniel Vorcaro — declarou à Comissão de Valores Mobiliários ser detentor de 100% das ações da FRBS Participações, empresa responsável pelo licenciamento da marca Forbes no Brasil, em valor total de R$ 113,7 milhões. A operação teria ocorrido por meio de um contrato de mútuo conversível, mecanismo que transforma um empréstimo em participação acionária. O problema é que a Forbes Brasil desconhece inteiramente essa transação.

A diretora-executiva Katarina Camarotti foi enfática ao negar qualquer alteração na estrutura societária da empresa, afirmando que ela e Antonio Camarotti são os únicos acionistas desde sempre. Os registros da Junta Comercial de São Paulo corroboram essa versão, sem qualquer modificação documentada. Em dezembro de 2025, uma assembleia aprovou a distribuição de R$ 16 milhões em dividendos, com ata que lista apenas os dois Camarotti nos cargos diretivos.

Os documentos enviados pela administradora do fundo, a Reag Investimentos, acumulam inconsistências: um contrato de R$ 100 milhões sem identificação da contraparte, um CNPJ que não existe na Receita Federal e uma menção a um acordo de compra de ações que contradiz a própria afirmação de que o fundo já detinha a totalidade do capital. O Eagle Eye integra a carteira do fundo Astralo 95, envolvido nas investigações sobre o Banco Master, e a Reag foi submetida à liquidação extrajudicial pelo Banco Central no início de 2026, tornando-se alvo da Polícia Federal.

O alcance das investigações se estende ao campo da comunicação. Mensagens obtidas pela PF mostram Vorcaro orientando respostas a jornalistas, reclamando de reportagens e, em ao menos um caso, conseguindo a retirada de uma matéria do ar. Seu entorno manteve relações com veículos como PlatôBR, Brazil Journal, Isto É, Metrópoles e Portal Leo Dias. A discrepância entre o declarado à CVM e o que os registros públicos revelam permanece sem explicação, compondo um padrão de opacidade que atravessa toda a estrutura ligada ao Banco Master.

Entre outubro e novembro de 2024, um fundo de investimentos chamado Eagle Eye declarou à Comissão de Valores Mobiliários que possuía a totalidade das ações da Forbes Brasil, avaliadas em R$ 113,7 milhões. O problema é que ninguém na Forbes Brasil sabe nada sobre isso.

O Eagle Eye está vinculado ao Banco Master e ao ex-banqueiro Daniel Vorcaro, figura central em investigações sobre fraudes financeiras que abalaram a instituição. Segundo os documentos enviados à CVM, o fundo teria adquirido as 225.349 ações da FRBS Participações — a empresa responsável pelo licenciamento da marca Forbes no Brasil — através de um contrato de mútuo conversível, um mecanismo onde um empréstimo é transformado em participação acionária. Mas quando questionada sobre essa operação, a diretora-executiva da Forbes Brasil, Katarina Camarotti, foi categórica: nada disso aconteceu.

"A FRBS/Forbes BR não tem nem nunca teve qualquer sócio/acionista para além de Antonio Camarotti e Katarina Camarotti", declarou Katarina em nota. Ela afirmou desconhecer completamente a origem das informações registradas pelo fundo perante a CVM e negou que qualquer operação dessa magnitude tenha sido contabilizada. Os registros da Junta Comercial do Estado de São Paulo confirmam que apenas Antonio e Katarina Camarotti figuram como acionistas da empresa nos últimos anos, sem qualquer alteração societária documentada.

Os documentos enviados pela administradora do Eagle Eye, a Reag Investimentos, contêm várias inconsistências que reforçam as dúvidas. Um contrato de mútuo conversível avaliado em R$ 100 milhões aparece na carteira do fundo, mas o documento não identifica qual empresa está envolvida na operação. Pior: o CNPJ registrado para essa transação não existe, conforme verificação realizada junto à Receita Federal. Há também uma menção a um acordo para que Antonio Camarotti vendesse parte de suas ações diretamente ao Eagle Eye — informação que contradiz a própria afirmação do fundo de que já possuía 100% das ações da companhia.

Em dezembro de 2025, a Forbes Brasil aprovou a distribuição de R$ 16 milhões em dividendos aos acionistas, com a ata da assembleia registrando Antonio Camarotti como presidente e Katarina Camarotti como secretária, sem detalhar quem receberia os valores. Katarina argumenta que a ausência de qualquer referência em registros públicos, atas de assembleias ou alterações societárias confirma que não há acionistas além dos dois Camarotti.

O Eagle Eye não é um fundo isolado. Ele integra a carteira do fundo Astralo 95, que está envolvido em investigações sobre o Banco Master. A administradora do Eagle Eye, a Reag Investimentos, foi submetida à liquidação extrajudicial pelo Banco Central no início de 2026 e é alvo de investigação da Polícia Federal, que apura se fundos administrados por ela foram utilizados em operações fraudulentas relacionadas à instituição financeira.

As conexões entre Daniel Vorcaro e empresas de comunicação também estão sob escrutínio. Mensagens obtidas pela Polícia Federal mostram que o ex-banqueiro demonstrava preocupação com a cobertura jornalística sobre sua atuação e a do Banco Master. Ele teria orientado respostas da Rioprevidência a questionamentos de jornalistas, reclamado de reportagens e, em um caso, uma matéria sobre o filme Dark Horse — financiado por ele e focado na trajetória do ex-presidente Jair Bolsonaro — foi retirada do ar após sua reclamação. Vorcaro e pessoas de seu entorno mantiveram relações societárias, financeiras ou comerciais com veículos como PlatôBR, Brazil Journal, revista Isto É, Metrópoles e Portal Leo Dias.

A Polícia Federal continua investigando suspeitas de pagamentos relacionados a veículos de comunicação e empresas ligadas ao caso Master. Os envolvidos negam irregularidades ou afirmam que as operações tinham natureza comercial legítima. Enquanto isso, a discrepância entre o que o Eagle Eye declarou à CVM e o que os registros públicos mostram permanece sem explicação clara, apontando para um padrão de inconsistências que atravessa toda a teia de operações ligadas ao Banco Master e a Daniel Vorcaro.

A FRBS/Forbes BR não tem nem nunca teve qualquer sócio/acionista para além de Antonio Camarotti e Katarina Camarotti. Tampouco há qualquer pessoa ou entidade com direito a deter participação na nossa empresa
— Katarina Camarotti, diretora-executiva da Forbes Brasil
Não temos conhecimento do porquê isso aconteceu. O que posso afirmar novamente é que isso que foi reportado está errado
— Katarina Camarotti, sobre os registros na CVM
A Conversa do Hearth Outra perspectiva sobre a história
Inventor

Por que um fundo ligado ao Banco Master estaria interessado em declarar participação em uma revista?

Model

Essa é a pergunta central. Se a participação fosse real, seria um ativo valioso. Mas se não é real, por que registrá-la na CVM? Talvez para criar aparência de legitimidade ou para movimentar dinheiro de forma que parecesse legal.

Inventor

Os Camarotti negam tudo. Isso significa que o fundo está mentindo para a CVM?

Model

Ou alguém está mentindo. Os registros públicos apoiam os Camarotti — não há qualquer alteração societária documentada. O fundo declarou possuir 100% das ações, mas também mencionou um acordo para comprar ações. Essas duas coisas não podem ser verdadeiras simultaneamente.

Inventor

E o CNPJ inexistente? Como isso passa despercebido?

Model

Não passa despercebido agora. Mas sugere que os documentos foram preenchidos com pressa ou sem cuidado, ou talvez intencionalmente com informações falsas. A Reag Investimentos, que administra o fundo, está em liquidação extrajudicial. Há pouca supervisão quando uma administradora entra em colapso.

Inventor

Qual é a conexão com as empresas de comunicação?

Model

Vorcaro parecia preocupado em controlar a narrativa sobre si mesmo e sobre o Banco Master. Ter participação em veículos de imprensa — ou ter pessoas que o devem favores neles — seria uma forma de fazer isso. As investigações sugerem que ele tentava influenciar coberturas jornalísticas.

Inventor

Isso é apenas ganância ou há algo mais sistemático aqui?

Model

Parece sistemático. Há um padrão: fundos com documentação inconsistente, empresas de comunicação com conexões financeiras obscuras, investigações sobre fraude. Não é um erro isolado. É uma rede.

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