Fujimori e Castillo decidem neste domingo quem será novo presidente do Peru

Chega de pobres em um país rico
O mantra que Pedro Castillo repetia em sua campanha, capturando a frustração de eleitores com a desigualdade persistente.

Fujimori defende continuidade do modelo neoliberal; Castillo propõe papel econômico ativo do Estado. Ambos receberam 32% dos votos no primeiro turno e estão virtualmente empatados. Peru teve quatro presidentes desde 2018 e enfrentou sucessão de três presidentes em cinco dias em 2020. Congresso fragmentado exigirá acordos para evitar nova instabilidade.

  • Keiko Fujimori (46 anos, Força Popular) vs. Pedro Castillo (51 anos, Perú Libre)
  • Ambos receberam 32% dos votos no primeiro turno (11 de abril); virtualmente empatados com ~18% de indecisos
  • Peru teve 4 presidentes desde 2018; 3 presidentes em 5 dias em novembro de 2020
  • Mais de 25 milhões de eleitores convocados; voto obrigatório
  • Peru tinha a maior taxa de mortalidade por Covid-19 do mundo na semana da eleição

Peruanos votam neste domingo entre a direitista Keiko Fujimori e o esquerdista Pedro Castillo para presidente, em eleição marcada por polarização e temores em país com histórico de instabilidade política.

No domingo, 6 de junho de 2021, o Peru escolheria seu próximo presidente entre dois candidatos que representavam visões radicalmente opostas do país. De um lado, Keiko Fujimori, aos 46 anos, filha do ex-presidente Alberto Fujimori e defensora da continuidade do modelo neoliberal que seu pai havia implantado entre 1990 e 2000. Do outro, Pedro Castillo, aos 51 anos, professor de escola rural que pregava um Estado economicamente ativo e intervencionista. A polarização era tão intensa que muitos eleitores se viam diante de uma escolha entre o que consideravam dois males.

O Peru chegava a esse momento de decisão após anos de turbulência política que testavam a paciência de uma nação já cansada. Desde 2018, o país havia tido quatro presidentes diferentes. Em novembro de 2020, a instabilidade atingiu seu pico quando três presidentes se sucederam em apenas cinco dias. Agora, quem vencesse a eleição enfrentaria um Congresso fragmentado, o que significava que acordos políticos seriam essenciais para evitar que a instabilidade voltasse a assolar o país.

No primeiro turno, realizado em 11 de abril, Fujimori e Castillo haviam recebido juntos apenas 32% dos votos — um número surpreendentemente baixo que refletia a desconfiança generalizada dos eleitores em relação aos candidatos disponíveis. Nas pesquisas mais recentes, os dois estavam virtualmente empatados, com aproximadamente 18% dos eleitores ainda indecisos. Essa incerteza permeava as ruas das cidades peruanas, onde a propaganda política cobria muros e outdoors com mensagens que apelavam aos medos dos eleitores.

Os cartazes de campanha revelavam o tom da disputa. Apoiadores de Fujimori exibiam mensagens alarmistas: "O terrorismo existe, tire a venda dos olhos". Em Puno, à margem do lago Titicaca, simpatizantes de Castillo haviam escrito em um muro, em inglês: "Welcome Peter Castle, President". Fujimori argumentava que uma vitória de Castillo transformaria o Peru em algo semelhante à Coreia do Norte ou à Venezuela. Castillo, por sua vez, negava ser comunista ou chavista e afirmava que uma vitória de Fujimori manteria o país preso à corrupção e à desigualdade, repetindo como mantra: "Chega de pobres em um país rico".

Os eleitores que conversavam com jornalistas revelavam a angústia dessa escolha. Cecilia Yep, uma comerciante de 52 anos filha de imigrantes chineses, apoiava Fujimori pela primeira vez em sua vida, movida pelo medo. "Não queremos que o país fique nas mãos de um comunista", explicava. Bernardo Cáceres, um antropólogo de 59 anos, votaria em Castillo não por convicção ideológica, mas por rejeição: acreditava que "Keiko é a pior inimiga da democracia, porque reivindica um passado de abuso autoritário". Para muitos, essa eleição era menos uma escolha entre ideologias e mais uma seleção do "mal menor".

A campanha final havia sido intensa. Tanto Castillo quanto Fujimori encerraram suas campanhas na quinta-feira anterior à eleição em Lima, com atos que reuniram centenas de apoiadores amontoados — um detalhe particularmente preocupante considerando que o Peru estava enfrentando a maior taxa de mortalidade por Covid-19 do mundo naquela semana. A pandemia não havia diminuído o fervor político; se algo, havia intensificado a sensação de crise que permeava o país.

Mais de 25 milhões de cidadãos peruanos estavam convocados às urnas, incluindo um milhão de votantes no exterior. O voto era obrigatório. Os primeiros resultados oficiais seriam anunciados até as 23 horas do domingo — meia-noite em Brasília. O que se desenrolaria naquele dia não era apenas uma disputa entre direita e esquerda, mas também uma tensão mais profunda entre a capital e as províncias, entre aqueles que queriam manter o status quo e aqueles que exigiam mudança. A eleição refletia, em sua essência, um país dividido sobre seu próprio futuro.

Não queremos que o país fique nas mãos de um comunista
— Cecilia Yep, comerciante de 52 anos
Keiko é a pior inimiga da democracia, porque reivindica um passado de abuso autoritário
— Bernardo Cáceres, antropólogo de 59 anos
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Por que essa eleição gerou tanto medo entre os eleitores?

Model

Porque o Peru havia passado por cinco anos de caos político — quatro presidentes em três anos, três deles em cinco dias. As pessoas estavam exaustas. Qualquer promessa de estabilidade parecia melhor que a alternativa, mas nenhum dos candidatos inspirava confiança real.

Inventor

Castillo era realmente comunista, como Fujimori alegava?

Model

Ele negava isso repetidamente. Mas em um país onde a memória do autoritarismo ainda era viva, e onde a Guerra Fria havia deixado cicatrizes profundas, a palavra "comunista" funcionava como um gatilho. Fujimori sabia disso e usava.

Inventor

E por que Fujimori era vista como uma ameaça à democracia?

Model

Seu pai havia governado com mão de ferro entre 1990 e 2000 — golpe de Estado, abuso de direitos humanos, corrupção. Muitos viam nela uma continuação daquele legado, mesmo que ela negasse. Para alguns, ela representava um retorno a um passado que preferiam esquecer.

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Os eleitores realmente queriam um desses dois?

Model

Não. Juntos, eles haviam recebido apenas 32% dos votos no primeiro turno. A maioria dos peruanos queria algo diferente, mas o sistema os havia deixado com essas duas opções. Era uma eleição de rejeição, não de apoio.

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O que diferenciava suas propostas econômicas?

Model

Fujimori queria manter o modelo neoliberal — mercado livre, menos Estado. Castillo queria um Estado forte na economia, redistribuição de riqueza. Eram visões opostas de como um país rico deveria funcionar quando tantos de seus cidadãos viviam na pobreza.

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Por que a pandemia importava naquele momento?

Model

O Peru tinha a pior taxa de mortalidade por Covid-19 do mundo naquela semana. Enquanto isso, os candidatos faziam campanha com multidões aglomeradas. Mostrava como a política havia se tornado desconectada da realidade que as pessoas viviam.

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