A neutralidade desaparece quando o dono é um concorrente
Em um movimento que desafia o ceticismo de Wall Street, a Fox de Lachlan Murdoch anunciou a compra da Roku por US$ 22 bilhões, apostando que a fusão entre conteúdo e distribuição pode reescrever as regras da publicidade digital no streaming. O mercado respondeu com uma queda de 22% nas ações da Fox, sinalizando que a visão estratégica de Murdoch ainda não encontrou eco entre os investidores. A operação levanta questões antigas sobre o preço da ambição: quanto vale uma aposta no futuro quando o presente já exige tantos recursos?
- A Fox anunciou a compra da Roku por US$ 22 bilhões, mas as ações da empresa despencaram 22% em poucos dias — o mercado puniu antes de compreender.
- O nó central é o conflito de interesses: a Roku sobrevive como plataforma neutra, mas passará a ser controlada por um concorrente direto de Netflix e Prime Video.
- Lachlan Murdoch tomou US$ 12 bilhões emprestados do Morgan Stanley para fechar o negócio, enquanto simultaneamente negocia a renovação dos caros direitos de mídia da NFL.
- Se a queda das ações da Fox persistir até o fechamento do acordo, o componente acionário do pagamento à Roku valerá bem menos do que foi negociado — criando uma incerteza adicional para ambos os lados.
- A Fox tenta convencer o mercado de que a combinação entre a Tubi, com 100 milhões de usuários, e a Roku criará escala publicitária suficiente para rivalizar com a Netflix.
Lachlan Murdoch enxergou uma oportunidade que Wall Street ainda não consegue precificar. A Fox anunciou a compra da Roku por US$ 22 bilhões, com o objetivo de ganhar escala para competir com a Netflix no mercado de publicidade digital. A resposta dos investidores foi imediata: as ações da Fox caíram 22%, fechando em US$ 51,90.
A trajetória da Fox no streaming foi tardia, mas não sem lógica. Enquanto rivais cresciam, os Murdoch mantiveram o foco na TV por assinatura. Só sob o comando de Lachlan a empresa acelerou — lançando a Fox Nation, a Fox One e comprando a Tubi por US$ 440 milhões. A aposta se mostrou acertada: a Tubi chegou a 100 milhões de usuários, surfando a onda de consumidores que buscam streaming gratuito com anúncios. Metade das assinaturas de streaming nos EUA já seguem esse modelo, ante 39% dois anos atrás.
Mesmo assim, a Fox carecia de escala publicitária. A Roku preenche essa lacuna. Fundada em 2002, a empresa evoluiu de fabricante de aparelhos para um império de distribuição: quase 90% de sua receita vem de publicidade, vendida desde a tela inicial do app até os botões do controle remoto. Para fechar o negócio, Lachlan tomou US$ 12 bilhões emprestados do Morgan Stanley e aceitou pagar um prêmio superior a 30% sobre o preço anterior das ações da Roku.
O mercado tem duas preocupações centrais. A primeira é estrutural: a Roku funciona como plataforma neutra de distribuição, e essa neutralidade é o que garante parcerias com Netflix e Prime Video. Sob controle da Fox, concorrente direta, essas empresas podem simplesmente migrar seus investimentos publicitários para outros canais. A segunda é financeira: a Fox negocia simultaneamente a renovação dos direitos de mídia da NFL, e assumir US$ 12 bilhões em nova dívida nesse contexto levanta dúvidas sobre sua capacidade de financiamento. Como resumiu Jonathan Miller, ex-executivo da Fox, à Bloomberg: a equação entre a compra da Roku e a renovação com a NFL ainda não fecha. Por ora, o mercado cobra caro pela incerteza de uma visão que só Lachlan parece conseguir enxergar.
Lachlan Murdoch viu uma oportunidade que Wall Street não conseguiu enxergar. A Fox anunciou na semana passada que desembolsará US$ 22 bilhões para adquirir a Roku, a plataforma de streaming que começou conectando televisores antigos à internet e evoluiu para um império de publicidade digital. O objetivo é claro: ganhar escala para competir com a Netflix no mercado de anúncios. Os investidores, porém, responderam com punição imediata. As ações da Fox caíram 22% desde o anúncio, fechando em US$ 51,90, enquanto as da Roku recuaram 4%.
A Fox chegou tarde ao streaming. Enquanto Netflix e concorrentes cresciam, a empresa dos Murdoch mantinha o foco em TV por assinatura. Só quando Lachlan assumiu o comando, após Rupert passar o bastão, a companhia começou a se mover. Lançou a Fox Nation, focada em conteúdo patriótico, e a Fox One, que centraliza seus canais. Depois comprou a Tubi por US$ 440 milhões — uma plataforma de streaming gratuita financiada por publicidade. Esse movimento se mostrou acertado. A Tubi cresceu para 100 milhões de usuários, surfando a onda de consumidores que buscam alternativas mais baratas conforme as assinaturas premium ficam caras. Metade de todas as assinaturas de streaming nos EUA agora seguem esse modelo de anúncios, segundo a firma de pesquisa Antenna. Dois anos atrás eram apenas 39%.
Mas mesmo com o sucesso da Tubi, a Fox ainda não tinha escala suficiente para competir de igual para igual pelos dólares publicitários. É aí que entra a Roku. Fundada em 2002 por Anthony Wood, a empresa ganhou relevância ao desenvolver, a pedido da Netflix, um aparelho que conectava TVs antigas às plataformas de streaming. Hoje tem mais de 100 milhões de usuários no mundo. Conforme as smart TVs se democratizaram, a Roku evoluiu seu negócio. Ainda vende aparelhos e software, mas quase 90% de sua receita vem de publicidade. A empresa distribui plataformas de streaming em troca de uma fatia de suas verbas publicitárias. Vende anúncios na tela inicial do app, até nos botões do controle remoto. Também opera o Roku Channel, um serviço gratuito com comerciais não pulávéis, a plataforma paga Howdy, e vende dados de consumo de sua base — a vertical com maior potencial de crescimento nos próximos anos.
A Fox já havia sido acionista da Roku, detendo 7% da empresa até 2020, quando vendeu sua participação para financiar a compra da Tubi. Agora quer voltar — mas em escala muito maior. Lachlan tomou emprestado US$ 12 bilhões com o Morgan Stanley para completar a operação e aceitou pagar um prêmio de mais de 30% sobre o preço anterior das ações. A Roku receberá US$ 160 por ação: US$ 96 em dinheiro e 0,9693 ação Class A da Fox. Se a queda recente das ações da Fox persistir até o fechamento do acordo, previsto para o primeiro semestre do próximo ano, o componente acionário valerá significativamente menos do que as partes negociaram.
O mercado tem duas preocupações principais. A primeira é sobre conflito de interesses. Anthony Wood, fundador da Roku, permanecerá na operação e entrará no conselho da Fox. Mas investidores questionam como a Roku manterá seu posicionamento como plataforma neutra de distribuição — essencial para seus negócios com outras streamings — quando estiver sob controle de um concorrente direto. Netflix e Prime Video podem simplesmente decidir não investir mais em publicidade em uma plataforma controlada pela Fox. Wood disse que operar nas duas pontas não é novidade para a Roku, mas o mercado permanece cético.
A segunda preocupação é financeira e mais urgente. A Fox está negociando neste exato momento a renovação de seus direitos de mídia sobre a NFL, um dos principais produtos de sua divisão esportiva. Assumir US$ 12 bilhões em dívida nova enquanto tenta renovar um contrato de direitos esportivos de alto custo levanta questões sobre a capacidade de financiamento. Jonathan Miller, ex-executivo da Fox e hoje CEO da empresa de investimentos digitais Integrated Media, disse à Bloomberg: "Uma dúvida que tenho é como eles conseguirão financiar a compra e a renovação com a NFL, já que estão assumindo dívidas adicionais." A Fox vale US$ 23 bilhões na Bolsa. A Roku vale US$ 20 bilhões. Quando o negócio se fechar, os acionistas da Fox deverão deter 73% da empresa combinada. Por enquanto, o mercado está apostando que Lachlan viu algo que o resto de Wall Street ainda não consegue enxergar — e está cobrando caro por essa incerteza.
Citas Notables
Uma dúvida que tenho é como eles conseguirão financiar a compra e a renovação com a NFL, já que estão assumindo dívidas adicionais— Jonathan Miller, ex-executivo da Fox e CEO da Integrated Media
La Conversación del Hearth Otra perspectiva de la historia
Por que os investidores reagiram tão mal se a estratégia parece lógica — a Fox precisa de escala em publicidade digital?
Porque lógica estratégica e lógica financeira nem sempre andam juntas. A Fox está tomando US$ 12 bilhões emprestados, pagando 30% acima do preço de mercado, e fazendo isso no meio de uma negociação de direitos da NFL que pode custar bilhões adicionais. É muita dívida de uma vez.
Mas a Roku é um negócio de publicidade sólido, certo? Quase 90% da receita vem de anúncios.
Sim, mas aqui está o problema: a Roku só funciona bem porque é vista como neutra. Netflix, Prime Video, Disney — todos confiam nela porque ela não compete com eles. Quando a Fox tomar controle, essa neutralidade desaparece. Por que Netflix continuaria pagando para distribuir seus anúncios em uma plataforma controlada por um concorrente?
Anthony Wood disse que isso não é novidade para a Roku. Ele não tem um ponto?
Tecnicamente sim, mas o contexto mudou. Antes, a Fox era um acionista minoritário. Agora será o dono. É a diferença entre ter um sócio na mesa e ter um sócio que controla a mesa de negociação.
E se a Fox conseguir manter a Roku operando de forma independente?
Esse é o grande "se". Os investidores não acreditam que isso seja possível ou sustentável. Por que a Fox não priorizaria seus próprios interesses? E por que os concorrentes confiariam nisso?
Então é basicamente um negócio que faz sentido estratégico mas não faz sentido financeiro no curto prazo?
Exatamente. A Fox está apostando em uma visão de longo prazo — consolidar publicidade digital, competir com Netflix — mas está fazendo isso com dívida cara, timing ruim e um modelo de negócio que pode desmoronar se perder a confiança de seus parceiros.
Quando saberemos se Lachlan tinha razão?
Quando o negócio fechar, no primeiro semestre do próximo ano, e quando vermos como Netflix e Prime reagem. Se continuarem investindo em publicidade na Roku, talvez ele tenha visto algo real. Se não, foi um erro caro.