Fake news sobre vacinação afastam pessoas das unidades de saúde

Redução nas coberturas vacinais expõe crianças, idosos e pessoas com comorbidades a doenças evitáveis, aumentando casos graves e mortes que poderiam ser prevenidas.
O medo gerado pela desinformação leva à hesitação vacinal
Subsecretária de Vigilância em Saúde explica como fake news afastam pessoas das unidades de saúde.

Desinformação gera medo que afasta pessoas das vacinas, comprometendo a imunidade de rebanho e deixando crianças, idosos e pessoas com comorbidades mais expostos. Fake news antigas como a ligação entre Tríplice Viral e autismo, e mais recentes sobre mRNA reprogramar DNA, exploram desconhecimento científico para viralizar.

  • Fake news sobre Tríplice Viral e autismo circula há mais de 20 anos, originária de fraude científica de 1998
  • Desinformação sobre mRNA afirma que vacinas reprogramam DNA, mas mRNA não entra no núcleo celular e é degradado em horas
  • Redução nas coberturas vacinais elimina a imunidade de rebanho, deixando crianças, idosos e pessoas com comorbidades expostos
  • Gráficos manipulados durante pandemia omitiam contexto de que países vacinados tinham grupos de risco vacinados primeiro

Fake news sobre vacinação propagam medo e hesitação vacinal, reduzindo coberturas imunológicas e expondo populações vulneráveis. Especialistas explicam como desmontar mentiras comuns sobre vacinas.

Quando a desinformação encontra o medo, basta uma dúvida para desmantelar anos de trabalho em saúde pública. As notícias falsas sobre vacinação estão afastando pessoas das unidades de saúde, reduzindo as taxas de imunização e deixando populações inteiras vulneráveis a doenças que poderiam ser controladas ou eliminadas.

Para Luzia Márcia Romanholi Passos, subsecretária de Vigilância em Saúde da Prefeitura de Ribeirão Preto, o resultado é devastador. O medo gerado pela desinformação leva à hesitação vacinal — as pessoas simplesmente deixam de procurar pelas vacinas. Quando as coberturas vacinais caem, desaparece a chamada imunidade de rebanho, aquela proteção coletiva que guarda os mais vulneráveis mesmo sem que sejam diretamente vacinados. Crianças, idosos e pessoas com comorbidades ficam expostos. O sistema de saúde se sobrecarrega com casos evitáveis de doenças que não precisariam acontecer.

Uma das mentiras mais persistentes circula há mais de vinte anos: a alegação de que a vacina Tríplice Viral — que protege contra sarampo, caxumba e rubéola — causa autismo. Nasceu de uma fraude científica publicada em 1998 na revista The Lancet. A fraude foi desmascarada, retratada, e o autor perdeu seu registro profissional por conduta antiética. Mesmo assim, a mentira sobreviveu. Atravessou décadas, ganhou novas formas nas redes sociais, e hoje encontra terreno fértil em conversas de família, grupos de WhatsApp e nas dúvidas sussurradas antes de vacinar um filho.

Mais sofisticada e assustadora para quem não tem familiaridade com biologia molecular foi a onda de desinformação sobre as vacinas de mRNA contra a Covid-19. A alegação de que essas vacinas reprogramariam o DNA humano viralizou em 2021 com força proporcional ao desconhecimento científico que explorou. Passos é direta ao desmontar essa teoria: o mRNA não entra no núcleo da célula, não interage com o DNA e é degradado pelo organismo em questão de horas. O que o mRNA faz na prática é fornecer uma instrução temporária para que o corpo produza a proteína spike, estimulando a produção de anticorpos. Depois disso, é destruído. A alteração genética que tanto se teme nunca esteve no cardápio.

Algumas fake news são ainda mais difíceis de combater porque usam dados reais manipulados para contar histórias falsas. Durante a campanha de vacinação contra a Covid, circularam amplamente gráficos mostrando países com altas taxas de vacinação — Israel, Reino Unido — registrando picos de casos e mortes. A conclusão sugeria que a vacina matava. O que os gráficos omitiam era o contexto que muda tudo: esses países vacinaram primeiro os grupos de risco, compostos por idosos que, por razões naturais, concentram maior mortalidade. E fundamental: os não vacinados morriam em proporção muito maior. Após a introdução da vacina contra Covid no Brasil, agravamentos e mortes pela doença diminuíram drasticamente.

Houve também a teoria da infertilidade, nascida de uma petição enviada à agência reguladora europeia por um médico alemão. A alegação era de que uma proteína produzida pela vacina seria similar a uma proteína essencial para a formação da placenta. O boato se espalhou em grupos de gestantes com velocidade que assustou profissionais de saúde do mundo inteiro. A ciência respondeu rápido: as estruturas das duas proteínas são completamente diferentes, e a realidade respondeu com dados mostrando que gestações e nascimentos seguiram seu curso normal ao redor do mundo após a implementação das vacinas.

Outra fake news associou o nome de Bill Gates a um suposto plano de inserção de nanotecnologia nas vacinas para rastrear e controlar a população. Vídeos adulterados mostravam pessoas atraindo imãs após a vacinação. A explicação é simples: uma agulha de vacina não comporta um dispositivo eletrônico. A tecnologia miniaturizada que permitiria algo assim não existe.

No consultório, o professor Pérsio Roxo Junior, chefe da Divisão de Imunologia e Alergia Pediátrica da Faculdade de Medicina da USP em Ribeirão Preto, ouve com frequência dúvidas que atrapalham o calendário vacinal. "Doutor, é importante eu vacinar? Eu nunca fico doente"; "no ano passado eu tomei essa vacina e fiquei gripado". A resposta para a segunda pergunta é impossível, já que a vacina da gripe é inativada — o vírus contido dentro dessas vacinas é inativado ou morto. Portanto, a vacina da gripe não tem a capacidade de provocar a gripe. O que pode acontecer é uma leve reação imunológica ao estímulo da vacina, que dura no máximo um ou dois dias. Nada que se compare à semana de cama que a gripe real provoca, com suas complicações potencialmente graves, especialmente em crianças pequenas e adultos com comorbidades.

Quando a dúvida aparece, a orientação é simples: buscar fontes de informação seguras e oficiais. As unidades básicas de saúde têm profissionais capacitados para esclarecer qualquer questão sobre o calendário vacinal, tanto de adultos como de crianças. É ali, e não nas redes sociais, que a verdade encontra espaço para respirar.

A desinformação gera medo e consequente hesitação vacinal. Com isso, as pessoas deixam de procurar pelas vacinas, levando à queda nas coberturas vacinais e ao aumento da circulação de doenças que podem ser controladas e até mesmo eliminadas
— Luzia Márcia Romanholi Passos, subsecretária de Vigilância em Saúde da Prefeitura de Ribeirão Preto
A gente toma vacina justamente para não ficar doente, ou seja, ela tem caráter de proteção, de evitar que se adquira determinada doença ou, se a adquirir, que seja uma forma leve, sem complicações
— Pérsio Roxo Junior, professor e chefe da Divisão de Imunologia e Alergia Pediátrica da FMRP-USP
A Conversa do Hearth Outra perspectiva sobre a história
Inventor

Por que essas mentiras sobre vacinação conseguem se espalhar tão rápido, especialmente quando já foram desmentidas há anos?

Model

Porque exploram o medo do desconhecido e da perda de controle. Uma mentira que toca em algo que assusta — como a ideia de que uma vacina pode prejudicar seu filho — é mais pegajosa que qualquer fato. E quando circula em grupos de família ou WhatsApp, ganha uma autoridade falsa que a internet não consegue desmontar.

Inventor

A história da Tríplice Viral e autismo tem mais de vinte anos. Como ela ainda consegue convencer pessoas?

Model

Porque a mentira original foi publicada em uma revista respeitada. Mesmo depois que foi desmascarada, o dano já estava feito. As pessoas lembram do título, não da retratação. E cada geração de pais novos descobre a mentira como se fosse nova.

Inventor

Você mencionou que algumas fake news usam dados reais manipulados. Por que isso é mais perigoso?

Model

Porque não é fácil desmentir. Se alguém mostra um gráfico real de um país vacinado com muitos casos de Covid, você não pode simplesmente dizer que está mentindo. Você precisa explicar contexto — que vacinaram idosos primeiro, que os não vacinados morriam mais. Mas contexto é chato. Mentira é rápida.

Inventor

O que você acha que faz uma pessoa acreditar que uma vacina pode reprogramar seu DNA?

Model

Falta de familiaridade com como as coisas funcionam biologicamente. O mRNA soa futurista, soa como ficção científica. E quando você não entende algo, é fácil acreditar que pode fazer qualquer coisa — inclusive coisas que a tecnologia atual não consegue fazer.

Inventor

Se as pessoas soubessem mais de biologia, isso resolveria o problema?

Model

Ajudaria, mas não resolveria. O problema não é só ignorância. É que as pessoas confiam mais em outras pessoas como elas do que em especialistas. Se sua mãe diz que a vacina a deixou gripada, você acredita. Se um médico diz que foi coincidência, você duvida.

Inventor

Então como você combate isso?

Model

Você não combate mentira com mais informação. Você combate com confiança. As unidades de saúde precisam ser lugares onde as pessoas se sintam seguras para fazer perguntas, sem serem julgadas. Quando alguém pergunta "essa vacina vai me deixar gripado?", a resposta não é um artigo científico. É uma conversa.

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