Fábio Faria prevê disputa entre teles para ser primeira com 5G na América Latina

Vai ter uma briga das teles para ver quem é a primeira
O ministro prevê competição acirrada entre operadoras para implementar o 5G primeiro na América Latina.

Em novembro de 2021, o Brasil concluiu seu leilão de 5G com uma arquitetura deliberadamente voltada ao investimento em infraestrutura, não à arrecadação — uma escolha que o ministro Fábio Faria defendia como a verdadeira aposta do país no futuro digital. Com quatro novas operadoras no mercado e um cronograma que prometia cobertura nas 27 capitais até julho de 2022, o governo via no leilão não apenas um evento regulatório, mas o primeiro passo para posicionar o Brasil como protagonista tecnológico na América Latina. A ausência de gigantes estrangeiras era minimizada; a próxima batalha já tinha nome: trazer a Samsung para produzir semicondutores em solo brasileiro.

  • O governo celebrava o leilão como vitória estratégica, mas a cobertura prometida escondia uma ressalva: bairros periféricos e regiões remotas receberiam apenas o mínimo exigido pelo edital.
  • O Norte e o Nordeste, com o maior déficit digital do país, ganharam obrigações reforçadas — mas um bloco inteiro destinado ao Norte ficou sem interessados, revelando a fragilidade do entusiasmo.
  • A tensão geopolítica entre China e Estados Unidos pairava sobre o leilão, e o ministro navegava entre as duas potências com pragmatismo: o leilão foi feito para o Brasil, não para nenhum lado da disputa.
  • Legislações municipais restritivas sobre antenas ameaçavam o cronograma, e Faria apostava na pressão política e no custo reputacional para forçar a cooperação das prefeituras.
  • A visão final do ministro era quase esportiva: as operadoras brigariam entre si para ser a primeira a lançar 5G na América Latina, e ao governo caberia apenas comemorar — sinal de que, na sua leitura, o trabalho estrutural já estava feito.

Em novembro de 2021, o ministro das Comunicações Fábio Faria concedeu entrevista ao GLOBO com uma mensagem central: o leilão do 5G brasileiro havia funcionado. Quatro novas operadoras haviam entrado no mercado, resultado de uma estratégia que incluiu viagens a nove países e conversas com chefes de Estado e executivos. A estrutura do leilão — deliberadamente não arrecadatória — foi desenhada para forçar investimento em infraestrutura, não apenas no pagamento de licenças.

A ausência de grandes empresas estrangeiras na licitação era minimizada pelo ministro. Nem a Anatel esperava esse movimento. O foco agora era outro: convencer a Samsung a instalar uma planta de semicondutores no Brasil, algo que a empresa só fazia nos Estados Unidos, Taiwan e Coreia do Sul.

O cronograma era ambicioso: todas as 27 capitais com 5G até julho de 2022. Mas Faria reconhecia os limites — a cobertura não seria integral. Bairros mais distantes receberiam apenas o mínimo exigido. No Rio, os morros de alta densidade seriam os últimos a chegar. As operadoras tinham liberdade para escolher onde instalar primeiro, mas a obrigação de chegar em todo lugar — da Zona Sul carioca a Macapá.

O Norte e o Nordeste, regiões com maior déficit digital, receberam obrigações reforçadas no edital, embora um bloco destinado ao Norte não tenha atraído interessados. Faria garantia que a internet chegaria mesmo assim. Já as leis municipais restritivas sobre antenas eram vistas como obstáculo superável pela pressão política — prefeitos e câmaras que atrasassem a implantação pagariam um preço eleitoral.

Sobre a geopolítica, o ministro era direto: o leilão havia desagradado tanto a Pequim quanto a Washington, mas havia sido feito para o Brasil. O país não podia escolher lado numa guerra que não era sua. E sua previsão final tinha tom de largada: as operadoras brigariam para ser a primeira a lançar 5G na América Latina. O governo, dizia ele, só precisaria festejar.

Fábio Faria, ministro das Comunicações, sentou-se para conversar com O GLOBO em novembro de 2021 com uma mensagem clara: o leilão do 5G brasileiro estava funcionando. Não era apenas um sucesso administrativo, dizia ele. Era a prova de que o Brasil poderia ser o primeiro país da América Latina a implementar a tecnologia em larga escala, transformando-se num polo de inovação que chamaria a atenção do mundo.

O leilão havia atraído quatro novas operadoras para o mercado brasileiro. Faria havia viajado por nove países, conversando com chefes de Estado e presidentes de empresas, vendendo a ideia de que o Brasil era um destino seguro para investimento em 5G. A estrutura do leilão, deliberadamente não arrecadatória, havia garantido que as empresas canalizassem recursos para infraestrutura em vez de apenas pagar pela licença. Isso era, na visão do ministro, a grande vantagem.

Quanto à ausência de grandes empresas estrangeiras na licitação, Faria minimizava a questão. Ninguém, nem mesmo a Anatel, havia nutrido a expectativa de que uma gigante internacional viesse participar. O que o governo buscava agora era trazer a Samsung para abrir uma planta de semicondutores no Brasil — algo que a empresa só fazia nos Estados Unidos, Taiwan e Coreia do Sul. Essa era a próxima batalha.

O cronograma era ambicioso mas realista, segundo o ministro. Todas as 27 capitais brasileiras teriam 5G até julho de 2022. Mas havia uma ressalva importante: isso não significava cobertura integral. Nos bairros mais distantes, apenas o mínimo exigido pelo edital seria cumprido. No Rio de Janeiro, por exemplo, os morros com densidade populacional alta enfrentariam dificuldades maiores de acesso. As operadoras tinham liberdade para escolher onde instalar primeiro, mas tinham obrigação de chegar em todo lugar — na Zona Sul e na Zona Norte, em São Paulo e no Rio, mas também em Natal, Porto Velho, Rio Branco e Macapá.

O Norte e o Nordeste, regiões com o maior gap digital do Brasil, receberam obrigações reforçadas no edital. Um bloco importante para o Norte não havia atraído interessados, mas Faria garantia que a internet chegaria em todas as localidades. A falta de estrutura de antenas parabólicas em algumas áreas seria um entrave menor; as operadoras simplesmente colocariam o 5G onde não havia esse obstáculo primeiro.

A legislação municipal restritiva sobre antenas era um problema real, mas Faria acreditava que a pressão das operadoras e do governo seria suficiente para convencer as cidades a cooperarem. Quem não implantasse rapidamente seria responsabilizado pelo atraso. O prefeito e a Câmara Municipal pagariam um preço político.

Sobre a questão geopolítica — o leilão havia desagradado tanto à China quanto aos Estados Unidos — Faria era pragmático. O leilão havia sido feito para o Brasil, não para nenhuma potência externa. O governo americano e o chinês poderiam oferecer financiamento às operadoras, mas o Brasil não podia escolher um lado numa guerra que não era sua. Acreditava ter agradado ao Brasil sem desagradar completamente ninguém.

E então veio a previsão que capturava a visão do ministro: haveria uma briga entre as operadoras para ver quem seria a primeira a implementar 5G na América Latina. Elas brigariam, e o governo apenas festejaria. Era uma forma elegante de dizer que o trabalho pesado já havia sido feito. Agora era deixar o mercado competir.

O leilão está sendo um sucesso. Mostrei que o Brasil seria o primeiro país da América Latina a implementar o 5G
— Fábio Faria, ministro das Comunicações
Vai ter uma briga das teles para ver quem vai ser a primeira da América Latina. Eles vão brigar, e vamos só festejar
— Fábio Faria
The Hearth Conversation Another angle on the story
Inventor

O senhor disse que o leilão foi estruturado como não arrecadatório. Por que essa escolha foi tão importante?

Model

Porque se você cobra muito pela licença, a empresa gasta o dinheiro em licitação e não sobra para infraestrutura. Nós queríamos que o investimento real fosse em antenas, cabos, tecnologia. O dinheiro tinha que ir para a rede, não para os cofres do governo.

Inventor

Mas então por que nenhuma grande empresa estrangeira participou? Isso não é um sinal de que o mercado não confia?

Model

Não. Ninguém esperava isso. A Anatel não esperava, o Ministério não esperava. Essas empresas gigantes já têm mercados consolidados em outros lugares. O que importa é que temos quatro operadoras novas aqui dentro.

Inventor

Você mencionou que os bairros nos morros do Rio terão dificuldade. Isso não cria uma exclusão dentro da própria capital?

Model

Sim, há um desafio real. Mas o edital obriga as operadoras a chegar em todo lugar. Elas têm liberdade de escolher por onde começar, mas não podem deixar ninguém de fora. É um equilíbrio.

Inventor

E se uma cidade disser não aos novos postes de antena? Se o prefeito bloquear?

Model

Então o prefeito fica responsável pelo atraso. A pressão política vai ser enorme. Ninguém quer ser o culpado por o 5G não chegar.

Inventor

Você realmente acredita que as operadoras vão brigar para ser a primeira na América Latina?

Model

Sim. É competição pura. Quem chegar primeiro ganha mercado, ganha reputação. E nós só temos que festejar. O trabalho duro já foi feito no desenho do leilão.

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