Fábio Faria prevê disputa entre operadoras para ser primeira com 5G na América Latina

Vai ser uma briga das teles para ver quem é primeira
Faria prevê disputa entre operadoras para implementar 5G rapidamente na América Latina.

O leilão não arrecadatório garantiu investimentos e atraiu quatro novas operadoras, posicionando o Brasil como primeiro país da América Latina a implementar 5G. Todas as 27 capitais terão 5G até julho de 2022, mas cobertura integral não será garantida em todos os bairros, especialmente em áreas com muitas antenas parabólicas.

  • Quatro novas operadoras entraram no mercado brasileiro via leilão não arrecadatório
  • Todas as 27 capitais terão 5G até julho de 2022, mas sem cobertura integral em todos os bairros
  • Brasil será o primeiro país da América Latina a implementar 5G em larga escala

O ministro das Comunicações Fábio Faria afirma que o leilão do 5G é um sucesso, com quatro novas operadoras no mercado, e prevê forte competição para implementar a tecnologia rapidamente nas capitais até julho de 2022.

Brasília, novembro de 2021. O ministro das Comunicações Fábio Faria senta-se para conversa com O GLOBO convencido de que o leilão do 5G brasileiro é um sucesso — e que o governo pode agora apenas observar enquanto as operadoras disputam entre si quem será a primeira a oferecer a tecnologia em toda a América Latina. A avaliação é otimista, mas vem acompanhada de admissões sobre os limites reais do que será entregue e quando.

O leilão, estruturado para não ser arrecadatório — ou seja, priorizar investimentos em vez de receita estatal — já atraiu quatro novas operadoras ao mercado brasileiro. Faria havia viajado por nove países, conversando com chefes de Estado e presidentes de empresas, para posicionar o Brasil como o primeiro país latino-americano a implementar a tecnologia. A ausência de grandes empresas estrangeiras novas na licitação não o preocupa. Ele afirma que nunca houve expectativa real, nem dentro da Anatel nem do próprio ministério, de que uma gigante internacional viesse participar. O foco agora está em convencer a Samsung a abrir uma fábrica de semicondutores no país — algo que hoje existe apenas nos Estados Unidos, Taiwan e Coreia do Sul.

Quanto ao cronograma, Faria é claro: todas as 27 capitais terão 5G até julho de 2022. Mas há uma ressalva importante. Não será cobertura integral das cidades. Em capitais mais distantes, apenas o mínimo exigido pelo contrato será cumprido. Nas grandes metrópoles como Rio de Janeiro e São Paulo, a história é mais complexa. Bairros em morros densamente povoados, onde há muitas antenas parabólicas, enfrentarão dificuldades maiores. As operadoras têm liberdade para escolher onde instalar primeiro — pode ser Zona Sul ou Zona Norte do Rio, mas terão que cumprir obrigações em todas as regiões. E a tecnologia chegará também a cidades como Natal, Porto Velho, Rio Branco e Macapá.

O ministro prevê que alguns lugares terão 5G ainda em 2021. Dali em diante, acredita que haverá uma disputa feroz entre as operadoras para serem as primeiras da região. "Vai ser uma briga das teles para ver quem vai ser a primeira da América Latina. Eles vão brigar, e vamos só festejar", resume. Mas há obstáculos. Legislações municipais restritivas sobre antenas em várias cidades podem atrasar a implantação. Faria avisa que o governo e as operadoras exercerão pressão significativa. Prefeitos e câmaras municipais que não facilitarem a expansão rápida da rede serão responsabilizados pelo atraso.

Sobre a geopolítica do leilão — a tensão entre Estados Unidos e China sobre qual tecnologia o Brasil deveria adotar — Faria mantém posição equilibrada. O leilão foi feito para o Brasil, não para Washington ou Pequim. O governo americano pode oferecer financiamento às operadoras, assim como a China. Mas o Brasil não poderia escolher um lado nessa guerra que não é sua. A decisão, segundo ele, agradou ao Brasil e não desagradou completamente nem aos EUA nem à China.

A entrevista também toca em outros temas da agenda econômica do governo. Faria menciona a privatização dos Correios, que precisa ser votada no Senado até o final de novembro para que o leilão ocorra em seis meses. Fala também sobre o Auxílio Brasil de R$ 400 — uma decisão já tomada pelo presidente, independentemente de como será financiada. Se a PEC dos Precatórios não for aprovada, o governo recorrerá a um plano B: uma medida provisória de crédito extraordinário ou a declaração de calamidade pública. O mercado já precificou os R$ 400, e qualquer mudança para cima geraria instabilidade. Com a questão fiscal resolvida, Faria acredita que virá estabilidade, confiança, queda do dólar e melhora nos preços de combustível.

O leilão está sendo um sucesso. Fizemos um giro por nove países, conversando com chefes de Estado, presidentes de empresas e bancos.
— Fábio Faria, ministro das Comunicações
Vai ter uma briga das teles para ver quem vai ser a primeira da América Latina. Eles vão brigar, e vamos só festejar.
— Fábio Faria
The Hearth Conversation Another angle on the story
Inventor

O ministro diz que vai ser uma "briga" entre as operadoras. Isso significa que a competição é boa para o consumidor?

Model

A competição em si é sempre bem-vinda, mas o que importa aqui é a velocidade. Faria está apostando que a disputa por ser primeira vai acelerar a implantação. Quanto mais rápido cada operadora quer chegar, mais rápido o Brasil inteiro ganha a tecnologia.

Inventor

Mas ele admite que nem todas as capitais terão cobertura integral até julho de 2022. Isso não contradiz a ideia de sucesso?

Model

Não, porque o sucesso dele é medido diferente. Para o governo, ter 5G em 27 capitais, mesmo que parcialmente, é um marco político. A cobertura integral viria depois, conforme as operadoras expandem. É realista, não é promessa vazia.

Inventor

E quanto àqueles bairros em morros com muitas antenas parabólicas? Eles ficam para trás?

Model

Tecnicamente, sim, no curto prazo. As operadoras vão priorizar áreas sem obstáculos. Mas o edital obriga que elas cumpram obrigações em todo lugar. É uma questão de sequência, não de abandono.

Inventor

Faria pressiona municípios a remover barreiras regulatórias. Isso é justo com prefeitos que têm preocupações legítimas sobre antenas?

Model

É uma tensão real. Prefeitos têm razões para regular — saúde, paisagem urbana. Mas Faria está dizendo que o custo de não fazer é maior: ficar para trás tecnologicamente. É uma escolha entre dois riscos.

Inventor

A ausência de grandes empresas estrangeiras novas — isso realmente não importa?

Model

Para Faria, não. Ele diz que nunca esperaram isso. Mas há quem questione se o leilão poderia ter atraído mais inovação de fora. É uma aposta de que operadoras brasileiras conseguem fazer o trabalho sozinhas.

Inventor

E a Samsung? Ele está tentando trazer uma fábrica de semicondutores. Isso é realista?

Model

É uma conversa em andamento com a Coreia do Sul. Realista? Talvez não no curto prazo. Mas mostra que o governo está pensando além do 5G — em toda a cadeia de tecnologia.

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