O país tem um encontro marcado com o ajuste fiscal
Em Vitória, a economista-chefe do Santander Ana Paula Vescovi entregou um diagnóstico sem eufemismos: o Brasil tem um encontro marcado com o ajuste fiscal, e esse encontro acontecerá até 2027, independentemente de quem esteja no poder. Numa economia em marcha forçada, com pleno emprego e demanda superando a capacidade produtiva, a pressão inflacionária não é acidente — é consequência. A janela de alívio aberta pela valorização do real é real, mas passageira; o que está em jogo é se o país escolherá pagar a conta com planejamento ou com urgência.
- O mercado já testou os limites da paciência fiscal brasileira no fim de 2024 e início de 2025, sinalizando que a crise de confiança não é hipótese — é memória recente.
- A economia em 'marcha forçada' cria um desequilíbrio perigoso: a demanda cresce tão rápido que o país importa mais, deteriora as contas externas e alimenta a inflação.
- A valorização do real abriu uma janela temporária de respiro, mas Vescovi avisa que essa trégua não elimina o ajuste — apenas adia o momento de enfrentá-lo.
- Não há bala de prata: conter gastos públicos e revisar incentivos tributários são as ferramentas disponíveis, mas ambas exigem uma vontade política que ainda não se materializou.
- O caminho menos dramático — crescer os gastos no ritmo do PIB, sem cortes abruptos — ainda depende de decisão política, e cada mês de adiamento aumenta o custo final para a sociedade.
Ana Paula Vescovi, economista-chefe do Santander e ex-secretária do Tesouro Nacional, esteve em Vitória na terça-feira para entregar um recado direto ao empresariado: o Brasil não vai escapar de um ajuste fiscal. Na sua avaliação, o país tem um 'encontro marcado' com essa realidade até 2027 — não como possibilidade, mas como certeza, qualquer que seja o cenário político.
O diagnóstico parte de uma crise de confiança que já se manifestou concretamente. No fim de 2024 e início de 2025, o mercado reagiu com nervosismo à situação fiscal brasileira. Hoje, a valorização do real oferece um respiro, mas Vescovi é enfática: essa janela é temporária. Quanto mais o ajuste for adiado, mais caro será o preço a pagar.
O combustível do problema está no superaquecimento da economia. Com desemprego em mínimos históricos, a demanda cresce muito além do que a oferta consegue acompanhar. O resultado é previsível — mais importações, contas externas deterioradas e pressão inflacionária crescente. 'É uma economia que não está dando conta de ofertar todos os bens que estão sendo demandados', resumiu a economista.
As soluções existem, mas nenhuma é simples. Conter o crescimento dos gastos públicos e revisar incentivos tributários são caminhos viáveis — porém politicamente árduos. Vescovi propõe uma abordagem menos radical: não cortar, mas fazer os gastos crescerem no ritmo do PIB. Menos dramático, mas ainda assim dependente de vontade política.
O recado final é de urgência sem alarmismo: reformas estruturais são necessárias agora, e adiar apenas transfere — e amplifica — o custo para a sociedade. A conta chegará de qualquer forma. A única escolha real é se o Brasil a pagará com planejamento ou sob pressão.
Ana Paula Vescovi chegou a Vitória na terça-feira para falar com empresários e profissionais do mercado sobre o que ela vê à frente: um Brasil que não consegue escapar de um ajuste fiscal inevitável. Ela não é uma voz qualquer. Vescovi é economista-chefe do Santander no Brasil e já passou pela Secretaria da Fazenda do Espírito Santo e pela Secretaria do Tesouro Nacional. O que ela tem a dizer importa.
O diagnóstico é direto. O país enfrenta uma crise de confiança que ficou evidente no final de 2024 e no início de 2025 — momentos em que o mercado se moveu com nervosismo, testando os limites da paciência com a situação fiscal. Vescovi é clara: "o país tem um encontro marcado com o ajuste fiscal". Não é uma possibilidade. É inevitável. E ela acredita que isso vai acontecer até 2027, seja qual for a circunstância política do momento.
Por enquanto, o Brasil ganhou tempo. O dólar enfraqueceu, o real se valorizou, e isso criou uma janela de oportunidade. Mas Vescovi avisa que essa janela é temporária. A percepção do mercado, segundo ela, é que em 2027 não haverá escapatória — o ajuste virá de qualquer forma. O que preocupa é que quanto mais se adia, mais caro fica o preço a pagar.
O problema imediato está no superaquecimento da economia. O desemprego está em mínimos históricos, o que seria bom em outro contexto. Mas aqui, a economia está em "marcha forçada". A demanda cresce muito mais rápido do que a oferta consegue acompanhar. As pessoas querem comprar mais do que o país consegue produzir, então importações aumentam, as contas externas se deterioram, e a inflação sobe. Como Vescovi coloca: "É uma economia que não está dando conta de ofertar todos os bens que estão sendo demandados". Esse desequilíbrio é o combustível para choques inflacionários.
O que torna tudo mais complicado é que não existem soluções fáceis. Não há, nas palavras de Vescovi, "bala de prata". As ferramentas disponíveis — conter o crescimento dos gastos públicos, revisar incentivos tributários — são todas politicamente difíceis. Derrubar gastos é impopular, especialmente quando políticas sociais estão em jogo. Mas Vescovi sugere um caminho: em vez de cortar, é possível conter o crescimento dos gastos para que fiquem compatíveis com o crescimento do PIB. Isso é menos dramático, mas ainda exige vontade política.
O recado final é que o Brasil precisa enfrentar essa realidade agora, mesmo que seja impopular. Adiar apenas acumula custos imensos para a sociedade. Reformas estruturais são urgentes. Políticas fiscais responsáveis e um reequilíbrio entre o que se demanda e o que se consegue ofertar são fundamentais para que o país tenha um futuro de crescimento sustentável e estabilidade financeira. A conta chegará de qualquer forma. A questão é se o Brasil vai pagá-la agora ou deixar o débito crescer.
Citas Notables
É uma economia que não está dando conta de ofertar todos os bens que estão sendo demandados— Ana Paula Vescovi, economista-chefe do Santander
É difícil derrubar o gasto, principalmente quando a gente coloca em jogo políticas sociais. Porém nós podemos conter o crescimento do gasto, que pode ser, pelo menos, compatível com o crescimento do PIB brasileiro— Ana Paula Vescovi
La Conversación del Hearth Otra perspectiva de la historia
Quando ela diz que o Brasil tem um "encontro marcado" com o ajuste fiscal, ela está falando de algo que já é certo, ou de algo que ainda pode ser evitado?
É certo. Ela não está dizendo que é provável ou possível — está dizendo que é inevitável até 2027. O que pode variar é como e quando exatamente isso acontece, mas o ajuste em si não tem escapatória.
E por que 2027 especificamente? Há algo mágico nesse ano?
Não é magia. É a percepção do mercado de que nenhum governo, independentemente de sua orientação política, conseguirá adiar mais do que isso. Em algum momento, a realidade fiscal bate na porta e não dá para ignorar.
Ela mencionou que o Brasil "ganhou tempo" com o dólar fraco e o real forte. Isso significa que a situação poderia ser pior?
Exatamente. Esses fatores externos criaram um colchão. Se o dólar estivesse forte ou o real fraco, a pressão já seria insuportável. Mas esse colchão é temporário — não resolve o problema de fundo.
O que é mais preocupante: a inflação ou o gasto público?
São dois lados da mesma moeda. A inflação é o sintoma visível agora — resultado da economia superaquecida. Mas a causa raiz é o desequilíbrio fiscal. Você não resolve inflação sem resolver o gasto público.
Ela ofereceu alguma solução concreta?
Não uma solução fácil. Ela sugeriu conter o crescimento dos gastos para que fiquem alinhados com o crescimento do PIB, em vez de cortá-los drasticamente. É menos traumático, mas ainda exige decisões políticas difíceis.
E se o Brasil não fizer nada?
Os custos apenas crescem. Quanto mais se adia, mais severo o ajuste precisa ser quando finalmente chegar. É como uma dívida que rende juros — quanto mais tempo passa, mais cara fica.