Precisamos aprender a construir sistemas a laser como construímos carros
Pela primeira vez na história, o capital privado global flui para a fusão nuclear com força e urgência sem precedentes — US$ 13 bilhões concentrados sobretudo nos Estados Unidos e na China, dois países que juntos controlam 85% desse futuro energético. A promessa é antiga: energia limpa, abundante e segura extraída da mesma força que alimenta as estrelas. O que é novo é a escala da aposta e a consciência de que, num planeta aquecendo e movido por inteligência artificial, talvez não haja mais tempo para esperar.
- O investimento privado em fusão nuclear cresceu 30% em apenas seis meses, atingindo US$ 13 bilhões — um ritmo que sinaliza não apenas otimismo, mas uma corrida geopolítica por liderança energética.
- EUA e China concentram 85% desse financiamento, enquanto Europa e demais regiões disputam migalhas de pouco mais de 700 milhões de euros, aprofundando uma assimetria que pode definir décadas de poder energético.
- Gigantes como Google e Microsoft já assinaram contratos para comprar eletricidade de reatores que ainda não existem, apostando que startups como Commonwealth Fusion Systems e Helion Energy cumprirão o que prometem.
- A Alemanha responde com €2 bilhões em investimento público e um ecossistema de pesquisa robusto, mas startups como a Focused Energy alertam que transformar ciência em manufatura em escala industrial é um obstáculo ainda sem solução clara.
- O projeto ITER, símbolo da ambição coletiva da humanidade, acumula atrasos e custos explosivos — com operação prevista para entre 2034 e 2036 — levantando a questão mais incômoda: a fusão chegará a tempo de salvar o clima que a motivou?
Os bilhões estão fluindo para a fusão nuclear como nunca antes. No segundo semestre de 2025, o investimento privado global cresceu 30%, atingindo US$ 13 bilhões — uma aposta sem precedentes de governos, empresas e capitalistas de risco em uma tecnologia que promete energia abundante, limpa e segura. Mas o dinheiro não se distribui igualmente: 85% desse financiamento concentra-se nos Estados Unidos e na China, deixando o restante do mundo perseguindo uma corrida já iniciada com desvantagem.
O princípio da fusão é elegante — núcleos atômicos leves se fundem e liberam energia sem emissões de carbono, com riscos menores de acidentes e resíduos menos perigosos do que a fissão convencional. Com a demanda por eletricidade acelerada pela eletrificação global e pela explosão dos centros de dados de inteligência artificial, a Agência Internacional de Energia estima que o setor poderia valer mais de US$ 350 bilhões até 2050. Setenta e sete empresas no mundo trabalham para levar a fusão ao mercado — 42 delas nos EUA, apenas quatro na Alemanha.
Nos Estados Unidos, o motor é privado: o Google investe há mais de uma década na TAE Technologies e na Commonwealth Fusion Systems, com quem já assinou contrato para comprar eletricidade futura. A Microsoft fez acordo semelhante com a Helion Energy, apoiada por Sam Altman. Na China, é o Estado que lidera. Juntos, os dois países já produziram unicórnios — startups avaliadas acima de um bilhão de dólares.
A Alemanha não desistiu. O governo comprometeu mais de €2 bilhões nesta legislatura e definiu a fusão como tecnologia-chave para o futuro do país. Markus Roth, professor da TU Darmstadt e fundador da Focused Energy, acredita no ecossistema alemão — mas aponta o obstáculo central: aprender a fabricar sistemas a laser com a precisão de um laboratório e a escala de uma linha de montagem automotiva. As startups europeias alertam que ainda faltam recursos para o longo prazo — e a fusão exige exatamente isso.
O projeto ITER, financiado por 35 países e em construção desde 2007 no sul da França, ilustra os riscos dessa paciência forçada: custos explosivos, atrasos repetidos e operação agora prevista para entre 2034 e 2036. O mundo aposta bilhões em uma tecnologia que pode não chegar a tempo de resolver a crise que a motivou.
Os bilhões estão fluindo para a fusão nuclear como nunca antes. No segundo semestre de 2025, o investimento privado global no setor cresceu 30%, atingindo US$ 13 bilhões — um salto sem precedentes que reflete uma aposta cada vez maior de governos, empresas e capitalistas de risco em uma tecnologia que promete energia abundante, limpa e segura. Mas o dinheiro não se distribui igualmente pelo planeta. Oitenta e cinco por cento desse financiamento concentra-se em apenas dois países: Estados Unidos e China, deixando o resto do mundo — inclusive a Europa — perseguindo uma corrida que já começou com desvantagem.
O princípio é elegante em sua simplicidade. Núcleos atômicos leves se chocam, fundem-se, e liberam energia em forma de calor. Esse calor gera eletricidade sem depender do clima, sem combustíveis fósseis, sem emissões de carbono. Diferentemente da fissão nuclear convencional, que divide átomos pesados, a fusão carrega riscos menores de acidentes catastróficos e produz resíduos radioativos menos perigosos para a saúde humana e o meio ambiente. Para um planeta aquecendo e sedento por energia, a promessa é tentadora — talvez até urgente.
A demanda por eletricidade cresce continuamente, acelerada pela eletrificação de economias inteiras e, mais recentemente, pela explosão dos centros de dados de inteligência artificial. A Agência Internacional de Energia estima que o setor de fusão poderia valer mais de US$ 350 bilhões até 2050. Ninguém quer ficar para trás. Setenta e sete empresas em todo o mundo trabalham para levar a fusão do laboratório para o mercado. Quarenta e duas delas estão nos Estados Unidos. Oito na China. Seis no Reino Unido. Apenas quatro na Alemanha.
Nos EUA, o motor é principalmente privado. Google investe há mais de uma década na TAE Technologies, fornecendo não apenas centenas de milhões de dólares, mas engenheiros próprios trabalhando no desenvolvimento. A mesma empresa também apostou na Commonwealth Fusion Systems, a maior empresa de fusão americana, e assinou contrato para comprar sua eletricidade quando ela existir. A Microsoft fez acordo semelhante com a Helion Energy, que recebe apoio de Sam Altman, chefe da OpenAI. Na China, o Estado lidera o investimento direto, construindo capacidade estatal em fusão. Juntos, esses dois países já criaram alguns "unicórnios" — startups avaliadas acima de um bilhão de dólares. O restante do mundo, incluindo oito empresas europeias, divide pouco mais de 700 milhões de euros.
A Alemanha não desistiu. O governo a definiu como uma das seis tecnologias-chave para o futuro do país e prometeu mais de dois bilhões de euros em investimento público nesta legislatura. Markus Roth, professor da TU Darmstadt que fundou a startup Focused Energy em 2021, argumenta que a Alemanha possui um ecossistema competitivo — instituições de pesquisa robustas, startups emergentes, empresas industriais estabelecidas. Sua empresa aposta em tecnologia a laser para a fusão, um método cuja viabilidade foi demonstrada em 2022, quando pesquisadores americanos conseguiram, pela primeira vez em escala de laboratório, extrair mais energia de uma reação de fusão do que foi necessário para iniciá-la.
Mas Roth identifica um obstáculo monumental: o desenvolvimento rápido de cadeias de fornecimento. "Precisamos aprender, na Alemanha, a construir sistemas a laser como construímos carros — em linha de produção, mas com alta precisão." Não é apenas uma questão de engenharia. É uma questão de escala, de manufatura, de transformar descobertas científicas em produtos que possam ser fabricados em massa. As startups alertam que ainda estão longe de ter os recursos necessários para o longo prazo — e o longo prazo é exatamente o que a fusão exige.
O projeto ITER, financiado por 35 países e em construção desde 2007 no sul da França, exemplifica os desafios. Os custos explodiram. A conclusão foi adiada repetidamente. A entrada em operação agora está prevista para entre 2034 e 2036 — quase três décadas após o início das obras. Alguns especialistas argumentam que mesmo um desenvolvimento bem-sucedido da fusão não será rápido o bastante para que a Europa alcance suas metas climáticas. O mundo está apostando bilhões em uma tecnologia que pode não chegar a tempo de resolver a crise que a motiva.
Citações Notáveis
De fato, nesses dois mercados já existem alguns 'unicórnios' com avaliações superiores a um bilhão de dólares— Fusion for Energy (F4E), da União Europeia
Precisamos aprender, na Alemanha, a construir sistemas a laser como construímos carros — em linha de produção, mas com alta precisão— Markus Roth, professor da TU Darmstadt e fundador da Focused Energy
A Conversa do Hearth Outra perspectiva sobre a história
Por que agora? Por que esse salto de 30% em investimentos acontece justamente neste momento?
Porque a demanda por energia explodiu. Inteligência artificial, eletrificação de tudo — os centros de dados sozinhos consomem quantidades absurdas de eletricidade. E a fusão promete ser limpa, segura, praticamente ilimitada. É o tipo de promessa que faz bilionários e governos abrirem os cofres.
Mas a fusão é uma tecnologia antiga. Cientistas trabalham nisso há décadas. O que mudou?
O que mudou é que agora há startups privadas competindo, não apenas laboratórios estatais. E há dinheiro de verdade — Google, Microsoft, OpenAI — apostando em empresas específicas, não em pesquisa abstrata. Quando o Vale do Silício acredita em algo, as coisas se movem rápido.
Então por que a China e os EUA dominam tanto? Oitenta e cinco por cento?
Porque têm escala. Os EUA têm o ecossistema de venture capital mais sofisticado do mundo. A China tem o Estado investindo diretamente, sem hesitar. A Europa tem pesquisa excelente, mas não tem nem a velocidade do capital privado americano nem a profundidade dos bolsos estatais chineses.
A Alemanha parece estar tentando. Dois bilhões de euros é muito dinheiro.
É, mas é tarde. Quando você começa atrás em uma corrida de tecnologia, dinheiro sozinho não compensa. Você precisa de talento, de ecossistema, de empresas que já estão crescendo. A Alemanha tem startups boas, mas nenhuma no nível dos unicórnios americanos.
E se a fusão realmente funcionar? Se conseguirem fazer reatores comerciais?
Muda tudo. Energia abundante, limpa, segura. Mas o "se" é enorme. Pode levar décadas. E alguns dizem que mesmo que funcione, pode ser tarde demais para o clima.
Então é uma aposta que pode não compensar?
É uma aposta que pode não compensar no prazo que importa. Mas ninguém quer ser o país que não apostou quando a fusão finalmente funcionou.