Dois governos historicamente adversários encontram terreno comum na migração
177 venezuelanos foram deportados de Guantánamo via Honduras em voo da companhia sancionada Conviasa, marcando cooperação inédita entre EUA e Venezuela. Maduro celebrou a entrega como 'pedido direto' ao governo Trump, apesar das relações diplomáticas rompidas desde 2019 e sanções americanas contínuas.
- 177 venezuelanos deportados de Guantánamo em 20 de fevereiro de 2025
- 367 imigrantes repatriados em duas operações (177 + 190 de dez dias antes)
- 30 mil leitos disponibilizados em Guantánamo para imigrantes
- Voo operado por Conviasa, companhia aérea sancionada pelos EUA
- Relações diplomáticas EUA-Venezuela rompidas desde 2019
Os EUA deportaram 177 imigrantes venezuelanos de Guantánamo para a Venezuela em novo sinal de cooperação entre Washington e Caracas, somando-se a 190 deportações anteriores dentro da política de Trump.
Cento e setenta e sete venezuelanos saíram de Guantánamo na quinta-feira em um voo que os levaria de volta para casa — um destino que nenhum deles havia escolhido. Os Estados Unidos os transportou primeiro para Honduras, onde embarcaram em um avião da companhia aérea Conviasa, a mesma que Washington havia sancionado anos antes, rumo a Caracas. A operação marcou um momento inusitado: dois governos que romperam relações diplomáticas em 2019 agora coordenavam a devolução de seus próprios cidadãos.
Esta deportação em massa faz parte de uma política que o presidente Donald Trump prometeu ao retornar ao cargo. Apenas dez dias antes, outros 190 venezuelanos haviam sido enviados de volta para o país sob o mesmo esquema. Juntos, os dois grupos somam 367 pessoas removidas de detenção militar americana e repatriadas compulsoriamente. A base de Guantánamo, que historicamente serviu como centro de detenção para migrantes, agora abriga trinta mil leitos destinados especificamente para imigrantes que serão expulsos — um número que sinaliza a escala que Washington pretende alcançar.
O contexto dessa cooperação é complexo. Venezuela e Estados Unidos não mantêm relações diplomáticas desde 2019, quando Trump liderou uma ofensiva internacional contra o presidente Nicolás Maduro com sanções econômicas severas. Washington continua recusando-se oficialmente a reconhecer Maduro como líder legítimo. Mas nos últimos meses, Trump iniciou contatos diretos com o governo venezuelano focados em dois temas específicos: imigração e a libertação de cidadãos americanos presos na Venezuela. Essas negociações produziram resultado tangível.
Maduro celebrou a entrega dos deportados como um resultado de seu próprio pedido direto ao governo Trump, anunciando a notícia em um ato oficial. Para Caracas, a operação representava uma vitória diplomática — a recuperação de seus cidadãos e uma demonstração de que conseguia negociar com Washington apesar das sanções e da ruptura de relações. Para Trump, significava cumprir sua promessa de deportações em massa.
O mecanismo logístico revela como Washington está estruturando essas expulsões. Os deportados não viajam diretamente para seus países de origem. Em vez disso, os Estados Unidos conta com a cooperação de países da América Central, particularmente Panamá e Costa Rica, que concordaram em receber os imigrantes expulsos antes deles serem levados para suas nações. Essa estratégia permite que Washington processe um número maior de pessoas usando a infraestrutura de terceiros. Honduras, neste caso, serviu como ponto de transferência — um lugar onde os imigrantes trocavam de avião e continuavam sua jornada.
O vice-chanceler de Honduras, Tony García, foi cuidadoso ao explicar o papel de seu país. Ele ressaltou à agência de notícias AFP que a participação de Honduras não o convertia em um "terceiro país seguro" nem em uma "ponte" permanente para os imigrantes. Honduras não estava oferecendo abrigo ou proteção. Era apenas uma transferência, disse García — os imigrantes trocavam de avião e seguiam adiante. A distinção importava porque aceitarem ser um "terceiro país seguro" teria implicações legais e humanitárias muito maiores.
O que emerge dessa operação é um padrão: dois governos historicamente adversários encontrando um terreno comum na questão da migração. Trump obtém as deportações que prometeu. Maduro obtém uma negociação com Washington e a repatriação de seus cidadãos. E os imigrantes — aqueles 177 pessoas que saíram de Guantánamo naquela quinta-feira — completam uma jornada que começou com a esperança de chegar aos Estados Unidos e termina com o retorno forçado para o país que deixaram. A base de Guantánamo, com seus trinta mil leitos vazios, aguarda os próximos grupos.
Citas Notables
Maduro descreveu a entrega como um pedido direto de seu governo ao de Trump— Nicolás Maduro, presidente da Venezuela
Honduras ressaltou que sua participação não o converte em um terceiro país seguro — é apenas uma transferência, os imigrantes trocam de avião e seguem— Tony García, vice-chanceler de Honduras
La Conversación del Hearth Otra perspectiva de la historia
Por que Trump começaria a negociar com Maduro agora, depois de anos de sanções e isolamento?
Porque a imigração é uma prioridade política para ele, e Maduro controla quem sai e quem fica na Venezuela. É um acordo pragmático — Trump quer deportar, Maduro quer negociar. As sanções continuam, mas há espaço para cooperação em temas específicos.
Esses 177 venezuelanos — eles estavam em Guantánamo por quê? Eram criminosos?
A fonte não especifica. Estavam detidos na base militar, provavelmente como imigrantes que tentaram chegar aos EUA. Guantánamo funciona como centro de detenção para migrantes há décadas.
Por que usar Honduras como intermediário? Por que não voo direto?
Porque Honduras concordou em ser um ponto de transferência. Washington está usando países da América Central como infraestrutura para processar expulsões em massa. É mais eficiente logisticamente.
Maduro celebrou isso como uma vitória. Como ele vê essa cooperação?
Como prova de que consegue negociar com Washington apesar de tudo. É um sinal de que os EUA reconhecem sua autoridade, mesmo que não reconheçam sua legitimidade. Para Caracas, é ganho político.
Esses 367 deportados — eles voltam para quê? Para que tipo de situação?
A fonte não diz. Mas voltam para um país sob sanções econômicas severas, com crise humanitária documentada. O que os espera lá não está claro na reportagem.
Isso vai continuar? Trinta mil leitos em Guantánamo é muito espaço.
Sim. Trump prometeu deportações em massa. Esse número de leitos sugere que Washington está se preparando para uma operação muito maior. Isso é apenas o começo.