O motor trabalha em temperaturas mais elevadas e apresenta falhas frequentes
Veículos mais antigos enfrentam risco de corrosão, desgaste de componentes e aumento de consumo com a nova mistura de etanol. Indústria automóvel pede testes rigorosos antes da implementação; setor de etanol afirma que medida é tecnicamente viável.
- Teor de etanol na gasolina sobe de 30% para 32% nesta terça-feira
- Bico injetor para BMW 320 custa a partir de R$ 1.256; bomba de Range Rover Evoque custa mais de R$ 1.900
- Veículos fabricados há 20 ou 30 anos com carburador ou injeção simples são os mais vulneráveis
- Etanol hidratado fornece 6.300 kcal/kg; gasolina pura fornece 10.400 kcal/kg
O CNPE deve anunciar aumento da mistura de etanol anidro na gasolina de 30% para 32%, medida que especialistas alertam poder danificar motores antigos e importados sem calibração específica.
O Conselho Nacional de Política Energética se reúne nesta terça-feira para anunciar uma mudança que promete beneficiar a economia brasileira mas preocupa proprietários de carros antigos e importados: aumentar o teor de etanol anidro na gasolina de 30% para 32%. A medida vem sendo discutida há meses dentro do governo, mas engenheiros alertam que motores não calibrados para essa proporção podem sofrer corrosão, desgaste acelerado de componentes e consumo aumentado de combustível.
O desafio central é a compatibilidade dos materiais. Veículos mais antigos ou importados foram projetados para funcionar com gasolinas contendo teores menores de etanol. O etanol anidro, embora passe por desidratação na usina, tem a capacidade de absorver água do ambiente e carregá-la para dentro do motor. Quando água e etanol se combinam, aumentam a condutividade elétrica, favorecendo a corrosão eletroquímica em componentes metálicos que não foram preparados para essa condição. Tanques, bombas de combustível, linhas metálicas ou plásticas, bicos injetores, câmaras de combustão, pistões e vedações precisam todos estar preparados para a nova concentração. Segundo Rogério Gonçalves, engenheiro e diretor de combustíveis da Associação Brasileira de Engenharia Automotiva, as avarias principais ocorrem no sistema de injeção, podendo provocar falhas de funcionamento, aumento de emissões, consumo elevado e até dano total, especialmente em bombas e injetores.
O consumo tende a aumentar porque o etanol tem menor poder calorífico que a gasolina. Um quilograma de etanol hidratado fornece cerca de 6.300 quilocalorias, enquanto um quilograma de gasolina pura fornece cerca de 10.400 quilocalorias. Embora seja possível estimar essa diferença com base na energia fornecida por cada combustível, a variação pode ser imperceptível para o motorista no uso cotidiano, dependendo de diversos fatores que influenciam o rendimento do veículo.
Os problemas aparecem primeiro em carros fabricados há 20 ou 30 anos, equipados com carburador ou sistemas de injeção eletrônica simples. Esses veículos não conseguem ajustar automaticamente a mistura para a proporção maior de etanol porque sua Unidade de Controle Eletrônico, o "cérebro" do motor, não foi calibrada para isso. A ECU recebe informações de sensores e calcula centenas de vezes por segundo a quantidade ideal de combustível a ser injetada e o momento exato da ignição. Nos carros antigos, quando a ECU não consegue se ajustar à nova mistura, o motor trabalha em temperaturas mais elevadas, apresenta falhas frequentes, oscilação da marcha lenta, perda de potência e pequenos engasgos durante acelerações. Fábio Rhoden, sócio proprietário da oficina Flacht Motorsport & Classic Center, afirma que o motorista pode perceber os efeitos logo nas primeiras horas do dia, quando o motor demora mais tempo para dar a partida de manhã.
O etanol também pode acelerar o entupimento do filtro de combustível porque desprende a sujeira acumulada no fundo do tanque. Além disso, pode antecipar a troca das velas de ignição devido ao maior calor gerado na combustão. Quando o motor não foi projetado ou calibrado para funcionar com concentração maior de etanol, a ECU pode não conseguir compensar corretamente a mudança na proporção da mistura ar-combustível, fazendo com que as velas trabalhem sob maior esforço elétrico e térmico, acelerando o desgaste.
As consequências financeiras podem ser pesadas, especialmente para proprietários de carros importados premium. Segundo Vinicius Giungi, proprietário de Benimports e especializado na importação de componentes para carros, as peças mais procuradas são velas, bicos injetores, bombas de combustível de baixa e alta pressão, sensores, corpo de borboleta, mangueiras e componentes de vedação. As marcas que mais buscam esses componentes são Audi, BMW, Mercedes, Porsche, Land Rover e Volkswagen importados como o Golf GTI. Os defeitos mais comuns incluem entupimento dos bicos injetores, desgaste prematuro das bombas, ressecamento de mangueiras e vedações, oxidação de conectores elétricos e travamento de injetores. Substituir um bico injetor para BMW 320 fabricada entre 2012 e 2019 sai a partir de R$ 1.256 cada, sem contar a mão de obra. A bomba de combustível de um Range Rover Evoque feito entre 2011 e 2019 custa mais de R$ 1.900.
A Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores defende a realização de testes rigorosos antes da implementação. Igor Calvet, presidente da entidade, afirma que a preocupação da indústria automobilística se restringe à necessidade de que qualquer aumento na mistura seja precedido por um cronograma rigoroso de testes, com margem de segurança para garantir que os motores suportem a abrasividade do combustível e que os sensores estejam calibrados conforme a legislação. A indústria já produz veículos compatíveis com biocombustíveis, mas defende rigor técnico antes da adoção de novas políticas.
Por outro lado, a União da Indústria de Cana-de-Açúcar e Bioenergia afirma que a proposta foi construída com participação de órgãos do governo, instituições de pesquisa e representantes dos setores automotivo, energético e regulatório. Segundo a entidade, os resultados indicaram que a ampliação para 32% é tecnicamente viável e os ensaios não identificaram impactos em desempenho, dirigibilidade, partida ou funcionamento geral dos veículos analisados. A associação também afirma que os sistemas eletrônicos conseguiram ajustar automaticamente a mistura entre ar e combustível. O setor de etanol argumenta que a medida pode reduzir a importação de aproximadamente 800 milhões de litros de gasolina por ano e ampliar a participação de um combustível renovável produzido no Brasil.
Citas Notables
As avarias principais que podem ocorrer seriam de corrosão ou desgaste nos componentes do sistema de injeção, pois podem provocar falhas de funcionamento, aumento das emissões e consumo e até dano total, principalmente na bomba e injetores— Rogério Gonçalves, engenheiro e diretor de combustíveis da Associação Brasileira de Engenharia Automotiva
O aumento da mistura deve ser precedido de testes. Esse é o único ponto da Anfavea— Igor Calvet, presidente da Anfavea
La Conversación del Hearth Otra perspectiva de la historia
Por que exatamente o etanol causa corrosão se ele é um combustível renovável e mais limpo?
O etanol em si não é o vilão. O problema é que ele absorve água do ambiente, mesmo sendo anidro quando sai da usina. Quando água e etanol se combinam dentro do motor, aumentam a condutividade elétrica, e isso favorece a corrosão eletroquímica em metais que não foram preparados para essa condição. É como colocar um material em um ambiente para o qual ele não foi desenhado.
Então carros novos não têm esse problema?
Depende. Carros novos com sistemas eletrônicos sofisticados conseguem se ajustar automaticamente à nova mistura porque sua ECU foi calibrada para isso. Mas carros importados modernos sem tecnologia flex chegam ao limite de compensação e registram aumento expressivo no consumo. Os mais vulneráveis são mesmo os antigos, de 20 ou 30 anos, com carburador ou injeção simples.
A indústria automóvel está pedindo para não fazer isso?
Não exatamente. Eles não se opõem ao etanol. O que pedem é rigor técnico: testes detalhados com margem de segurança antes de implementar a mudança. Querem garantir que os motores suportem a abrasividade do combustível e que os sensores estejam calibrados conforme a legislação.
E o setor de etanol? Eles têm dados que contradizem essas preocupações?
Sim. Eles afirmam que os testes indicam que 32% é tecnicamente viável e que não encontraram impactos em desempenho ou danos aos motores nas condições avaliadas. Mas há uma diferença importante: os testes da indústria de etanol foram feitos em laboratório, em condições controladas. A vida real é mais complexa.
Qual é o custo real para um proprietário de um carro importado?
Pode ser bastante alto. Um bico injetor para BMW 320 sai a partir de R$ 1.256 cada. Uma bomba de combustível para Range Rover Evoque custa mais de R$ 1.900. E esses são preços de importadores independentes, não de concessionárias. Se o motor começar a apresentar falhas frequentes, os custos se acumulam rapidamente.
O que um proprietário de carro antigo deveria fazer agora?
Ficar atento. Os primeiros sinais aparecem logo: dificuldade para dar a partida de manhã, oscilação da marcha lenta, pequenos engasgos durante aceleração. Se o carro começar a apresentar esses sintomas após a mudança, é hora de procurar um mecânico especializado e considerar se vale a pena manter o veículo ou se é hora de pensar em algo mais novo.