Com as mudanças climáticas, observamos mudança no comportamento e na distribuição desse vetor
Em meio ao avanço da dengue sobre Curitiba, a Universidade Federal do Paraná voltou o olhar para dentro de si mesma, perguntando-se se seus próprios campi poderiam ser palco silencioso de transmissão. Desde o início de 2026, pesquisadores monitoram quinze pontos estratégicos com armadilhas de ovos, buscando compreender como o Aedes aegypti circula em ambientes universitários — e, com isso, proteger a comunidade que habita esses espaços. É o gesto antigo da ciência diante da ameaça invisível: nomear o perigo para poder enfrentá-lo.
- Casos de dengue entre estudantes e funcionários em 2024 levantaram a suspeita de que o próprio campus da UFPR poderia ser um foco de transmissão.
- Mais de dois mil ovos do Aedes aegypti foram coletados em apenas seis semanas, revelando uma presença significativa do vetor nos três campi monitorados.
- A análise virômica dos mosquitos capturados permitirá saber se os insetos circulantes carregam ativamente o vírus da dengue — dado crítico para avaliar o risco real.
- A universidade prepara uma campanha educativa com cartazes e atendimento especializado na Casa 1 para estar pronta antes do verão de 2027.
- Pesquisadores alertam que as mudanças climáticas estão ampliando o alcance do vetor, tornando estudos como este urgentes para instituições de ensino em todo o país.
A Universidade Federal do Paraná decidiu investigar um problema que pode estar mais próximo do que se imagina: o Aedes aegypti circulando dentro de seus próprios campi. O gatilho foi o aumento de casos de dengue em Curitiba em 2024 e os relatos de infecções entre membros da comunidade acadêmica. A professora Magda Costa-Ribeiro, do Laboratório de Insetos Vetores e Parasitos, levantou a hipótese de que essas pessoas poderiam ter sido infectadas durante suas atividades cotidianas na universidade — e essa suspeita deu origem a um projeto formal de pesquisa.
Desde o início de 2026, armadilhas chamadas ovitrampas foram instaladas em quinze pontos dos campi Centro Politécnico, Jardim Botânico e Ciências Agrárias. Os locais foram escolhidos pela alta concentração de pessoas. Duas vezes por semana, o mestrando Lucas Neris e sua equipe visitam cada ponto, trocam a água e a madeira e contam os ovos depositados pelas fêmeas do mosquito. Entre janeiro e março, foram coletados mais de dois mil ovos. Os insetos são então desenvolvidos em laboratório para uma análise virômica que revelará se carregam o vírus da dengue.
O projeto, financiado pelo Edital de Sustentabilidade da Pró-Reitoria de Pesquisa e Inovação, tem também uma dimensão prática e comunitária. Antes do verão de 2027, a UFPR distribuirá materiais informativos sobre sintomas e prevenção em todos os seus setores, e a Casa 1 contará com equipe especializada para acolher casos suspeitos. Para a professora Magda, o estudo vai além da universidade: em tempos de mudanças climáticas que alteram o comportamento do vetor, mapear sua presença em ambientes acadêmicos é uma contribuição que pode orientar outras instituições do país.
A Universidade Federal do Paraná está em busca de respostas sobre um inimigo invisível que pode estar circulando dentro de seus campi. Desde o início de 2026, pesquisadores instalaram armadilhas especiais em quinze pontos estratégicos — no Centro Politécnico, no Jardim Botânico e no setor de Ciências Agrárias — para monitorar a presença do mosquito Aedes aegypti, transmissor da dengue. O trabalho faz parte de um estudo de vigilância entomológica que durará aproximadamente um ano, financiado pelo Edital de Sustentabilidade 18/2025 da Pró-Reitoria de Pesquisa e Inovação.
O que motivou essa investigação foi simples e preocupante: em 2024, Curitiba enfrentou um aumento significativo de casos de dengue, e membros da comunidade acadêmica começaram a relatar infecções. A professora Magda Costa-Ribeiro, pesquisadora do Laboratório de Insetos Vetores e Parasitos do Departamento de Patologia Básica, levantou uma hipótese perturbadora — essas pessoas poderiam ter sido infectadas dentro da própria universidade, durante suas atividades diárias no campus. Essa suspeita inicial transformou-se em um projeto estruturado de pesquisa, conduzido pelo mestrando Lucas Neris do Programa de Pós-Graduação em Microbiologia, com apoio da Coordenadoria de Atenção Integral à Saúde do Estudante.
O método é meticuloso. As armadilhas utilizadas, chamadas de ovitrampa, funcionam capturando os ovos que as fêmeas do Aedes aegypti depositam sobre pedaços de madeira. Duas vezes por semana, os pesquisadores visitam cada ponto para trocar a água e a madeira, contabilizando os ovos encontrados. Entre o final de janeiro e o início de março de 2026, foram coletados mais de dois mil ovos. Esses ovos são então colocados em água para que os mosquitos se desenvolvam, permitindo uma análise virômica posterior — ou seja, os pesquisadores conseguem identificar se os insetos carregam o vírus da dengue.
Lucas Neris explica o processo com precisão: observam-se os ovos, quantificam-se por armadilha e por campus, desenvolvem-se os mosquitos e realiza-se a análise virômica. Os dados começam a revelar um padrão de circulação do vetor dentro do ambiente universitário, informação que até agora era pouco conhecida. A escolha dos quinze pontos não foi aleatória — foram selecionados pela alta concentração de estudantes e funcionários, os locais onde o risco de transmissão seria teoricamente maior.
Além de coletar dados, o projeto tem um componente educativo que será implementado antes do verão de 2027. A universidade planeja distribuir cartazes em todos os campi, murais, setores e departamentos com informações sobre os sintomas da dengue, formas de prevenção e procedimentos para buscar atendimento. A Casa 1, um espaço dentro da universidade, será equipada com uma equipe preparada especificamente para acolher pessoas com suspeita de dengue. Essa integração entre pesquisa e ação comunitária reflete uma compreensão de que o problema não é apenas científico, mas também de saúde pública.
Para a professora Magda Costa-Ribeiro, o monitoramento representa algo mais amplo: uma oportunidade de ampliar o conhecimento sobre como o Aedes aegypti circula em ambientes universitários, informação que pode orientar medidas preventivas não apenas dentro da UFPR, mas em outras instituições também. Ela aponta uma realidade cada vez mais urgente — as mudanças climáticas estão alterando o comportamento e a distribuição desse vetor, tornando estudos como este não apenas importantes, mas necessários.
Ao final do período de monitoramento, os pesquisadores terão mapeado padrões de distribuição do mosquito nos campi e poderão sugerir medidas concretas para evitar sua proliferação e a transmissão do vírus. O que começou como uma observação preocupante — pessoas infectadas dentro da universidade — transformou-se em um esforço sistemático para entender e controlar um problema que afeta diretamente a saúde de quem estuda e trabalha nesses espaços.
Citas Notables
A gente observa se há ovos e faz a quantificação por armadilha e por campus. Depois, colocamos os ovos na água para obtenção dos mosquitos, e posterior análise virômica deles— Lucas Neris, mestrando em Microbiologia
Trazer esse assunto para dentro da universidade é salutar, é superimportante e urgente no sentido de que cada vez mais, com as mudanças climáticas, a gente observa mudança também no comportamento e na distribuição desse vetor— Professora Magda Costa-Ribeiro
La Conversación del Hearth Otra perspectiva de la historia
Por que vocês suspeitaram que as infecções estavam acontecendo dentro da universidade?
Porque as pessoas que tiveram dengue passam o dia inteiro no campus. A professora Magda começou a conversar com elas e percebeu um padrão — não era coincidência, era uma possibilidade real.
E como vocês conseguem saber se um mosquito tem o vírus?
Coletamos os ovos nas armadilhas, deixamos os mosquitos se desenvolverem na água, e depois fazemos uma análise virômica. Basicamente, testamos o inseto para ver se ele carrega o vírus da dengue.
Dois mil ovos em dois meses parece muito. O que isso significa?
Significa que há uma população significativa de Aedes aegypti circulando aqui. Não é um número alarmante isoladamente, mas mostra que o vetor está presente e ativo nos campi.
Por que escolheram esses três campi específicos?
Porque são os lugares com maior concentração de pessoas — estudantes e funcionários passam o dia inteiro lá. Se o mosquito vai estar em algum lugar da universidade, é onde há mais gente.
E o que vocês vão fazer com essas informações quando o estudo terminar?
Vamos mapear exatamente onde o mosquito está mais presente e sugerir medidas preventivas. Mas antes disso, vamos avisar a comunidade — cartazes, informações sobre sintomas, um atendimento preparado na Casa 1.
Isso é urgente por quê?
Porque as mudanças climáticas estão mudando o comportamento do Aedes aegypti. Ele está se espalhando para novos lugares e em novas épocas. Estudar isso agora é entender o que vem pela frente.