A bipolaridade não me define e, com a estabilidade, eu me sinto firme
Bia Garbato viveu 16 anos com ciclos de depressão e mania antes do diagnóstico, enfrentando comportamentos de risco durante episódios maníacos. A bipolaridade afeta 140 milhões de pessoas no mundo e 2,5% da população adulta brasileira, sendo altamente hereditária mas também influenciada por fatores ambientais.
- Bia Garbato viveu 16 anos com ciclos de depressão e mania antes do diagnóstico
- 140 milhões de pessoas no mundo têm transtorno bipolar; 2,5% da população adulta brasileira apresenta sintomas
- Tipo 2 do transtorno é diagnosticado erroneamente com atraso de até 10 anos
- 85% dos primeiros episódios ocorrem entre 15 e 25 anos de idade
Escritora Bia Garbato lança livro sobre sua experiência com transtorno bipolar, desafiando estigmas sociais e mostrando que a condição é tratável e compatível com qualidade de vida.
Bia Garbato, 42 anos, recorda-se de uma viagem a Porto Seguro com um grupo de 14 pessoas. Durante uma semana inteira, ela não dormiu. Andava sozinha pelas ruas à noite, tomada por uma euforia que lhe parecia absoluta. Naquele estado, ela se sentia invencível — atravessava ruas de olhos fechados, convencida de possuir superpoderes. Mais tarde, em um Carnaval em Salvador, repetiu o padrão: uma semana sem dormir, comportamentos impulsivos e perigosos, uma falta total de percepção do risco. Naquele momento, ela não enxergava perigo algum.
Essas experiências marcaram décadas de sua vida. Do aos 16 aos 32 anos, Garbato viveu ciclos alternados de depressão profunda e episódios de mania — aquele estado em que a pessoa se sente eufórica, autoconfiante, com autoestima elevada. O prazer desses momentos, ela explica, é algo que quem não vive a condição dificilmente consegue compreender. Mas logo a euforia transbordava: compras compulsivas, comportamento hipersexualizado, decisões inconsequentes que deixavam rastros de dano. O diagnóstico de transtorno bipolar só chegou quando ficou inegável para família e amigos que algo estava errado — quando a mudança súbita de humor deixou de ser apenas um traço de personalidade e revelou-se um padrão perigoso.
Ela estava em depressão pós-parto quando amigos organizaram uma pequena festa no seu aniversário. Garbato não queria sair da cama. Mas ao chegar ao evento, algo mudou radicalmente. Ela se sentiu ótima, escreveu em um bilhete que aquele havia sido o melhor dia de sua vida. Para quem a observava, o contraste era perturbador — não era apenas um bom dia, era uma transformação que não fazia sentido.
Agora, com estabilidade conquistada há um ano e meio — o que significa ausência tanto de episódios depressivos quanto maníacos — Garbato decidiu contar sua história em um livro: "Bipolar Sim. Louca, Só Quando Eu Quero". A decisão não foi simples. Familiares temiam o impacto que o diagnóstico público teria em seu trabalho e em sua vida. Mas ela deu de ombros ao preconceito e ao passado marcado por sofrimento. Sua motivação era clara: o transtorno bipolar é tratado pela sociedade de forma velada ou carregado de estigmas. As pessoas tendem a usar a palavra "bipolar" para descrever alguém que muda de opinião, como se fosse sinônimo de falso, não confiável ou louco. Garbato queria mudar essa narrativa.
"Quem tem diabetes não tem vergonha de sua condição", ela diz. "Com a bipolaridade também não se deve ter. É uma condição de saúde séria, mas que tem tratamento. É possível viver com qualidade de vida, apesar da doença." Sua estabilidade atual é resultado de uma abordagem integrada: medicamentos prescritos por psiquiatra, psicoterapia regular, e mudanças radicais no estilo de vida. Ela eliminou álcool e cafeína. Mantém horários fixos para dormir e se alimentar. Pratica atividade física diariamente. Essas escolhas, combinadas com o tratamento farmacológico, permitiram que ela chegasse a um ponto em que o transtorno não a define mais.
O transtorno bipolar afeta aproximadamente 140 milhões de pessoas no mundo, segundo a Organização Mundial da Saúde. No Brasil, estimativas indicam que 2,5% da população adulta apresenta sintomas. É uma das condições de saúde mental mais hereditárias — a genética tem peso determinante — mas fatores ambientais também exercem influência significativa. Experiências estressoras na infância, como maus-tratos e negligência emocional, além do uso de substâncias estimulantes, distúrbios do sono e doenças físicas, podem desencadear o transtorno em pessoas geneticamente vulneráveis. Em 85% dos casos, o primeiro episódio aparece entre os 15 e 25 anos, frequentemente com sintomas leves que passam despercebidos.
Existem dois tipos principais. O tipo 1 apresenta fases bem marcadas de depressão e mania, com alternância evidente que pode durar semanas ou meses. O tipo 2 alterna entre hipomania — um estado mais leve de euforia — e depressão. Este último é frequentemente negligenciado e diagnosticado erroneamente, atrasando o diagnóstico em até dez anos. O problema é que na hipomania, o paciente pode parecer apenas mais energético e de bom humor, e os sintomas depressivos são idênticos aos da depressão maior. Além disso, muitos pacientes só procuram ajuda quando estão na fase melancólica, sendo então diagnosticados apenas com depressão, sem que o histórico completo de oscilações seja investigado. O tratamento exige abordagem interdisciplinar: psicoterapia, medicamentos estabilizadores de humor, e adoção de um estilo de vida que exclua substâncias estimulantes. Garbato agora vive como prova de que, com diagnóstico adequado e adesão ao tratamento, é possível alcançar estabilidade e qualidade de vida — mesmo que o transtorno, como ela ressalva, nunca tenha cura e exija acompanhamento pelo resto da vida.
Notable Quotes
Quem tem diabetes não tem vergonha de sua condição. Com a bipolaridade também não se deve ter. É uma condição de saúde séria, mas que tem tratamento.— Bia Garbato, escritora
Se o profissional não questionar claramente o paciente sobre seu histórico de saúde e conversar com familiares, ele vai ter apenas a foto daquele momento de vida do paciente, quando é necessário ver o filme completo.— Luísa Weber Bisol, professora de psiquiatria da UFC
The Hearth Conversation Another angle on the story
Por que você decidiu expor seu diagnóstico publicamente, sabendo que a família temia as consequências?
Porque o silêncio alimenta o estigma. As pessoas usam a palavra "bipolar" como insulto, como se fosse sinônimo de louco ou falso. Eu precisava mostrar que é uma condição médica real, tratável, e que não define quem você é.
Nesses 16 anos antes do diagnóstico, você sabia que algo estava errado?
Não. Eu achava que tinha superpoderes. Quando estava em mania, tudo parecia perfeito — eu era invencível. Só depois, vendo o padrão repetir, é que ficou claro que aquilo não era normal.
O que mudou quando você finalmente recebeu o diagnóstico?
Tudo. Pela primeira vez, eu tinha um nome para aquilo. E mais importante: tinha um caminho. Medicamentos, terapia, mudanças no estilo de vida. Não é cura, mas é estabilidade.
Você eliminou álcool e cafeína. Por que essas substâncias importam tanto?
Porque estimulam o sistema nervoso. Para alguém com bipolaridade, qualquer coisa que dispare a mania é perigosa. Dormir mal, beber, cafeína — tudo pode desencadear um episódio.
Como você descreve o prazer da mania para quem nunca sentiu?
É indescritível. É um prazer que quem não tem a doença não consegue compreender. Mas aí você passa do ponto — compra compulsivamente, fica hiperssexualizado, faz coisas que destroem sua vida.
E agora, com um ano e meio de estabilidade, como você se sente?
Firme. Pela primeira vez, eu consigo lidar com minhas questões sem que elas me dominem. A bipolaridade não me define. Eu defino a bipolaridade.