Erika Hilton terminou namoro após ler clássico sobre moral sexual de Kolontai

O livro nomeou algo que eu já sentia, mas não tinha palavras
Hilton descreve como a leitura de Kolontai transformou uma inquietação vaga em compreensão clara sobre dinâmicas de poder.

Em algum momento entre as estantes empoeiradas de uma biblioteca universitária e as últimas páginas de um livro escrito há mais de um século, a deputada Erika Hilton encontrou palavras que reorganizaram sua vida. A obra de Alexandra Kolontai — uma revolucionária russa do século XIX — ofereceu à parlamentar uma linguagem para nomear o que ela já sentia: que certas estruturas relacionais exigem das mulheres uma renúncia silenciosa de si mesmas. O resultado foi o fim de um namoro de dois anos e o início de uma reflexão pública sobre o poder transformador da leitura.

  • Um livro fino, encontrado quase por acaso, carregou peso suficiente para encerrar um relacionamento de dois anos — a leitura como ruptura, não como evasão.
  • Kolontai escreveu no século XIX, mas Hilton leu como se as palavras tivessem sido escritas ontem: a tese de que relações heterossexuais estruturalmente anulam as mulheres ainda provoca e divide.
  • A deputada não apenas absorveu a teoria — ela reconheceu a dinâmica descrita no próprio relacionamento, transformando análise política em decisão pessoal.
  • Sua biblioteca revela uma trajetória mais ampla: livros que a salvaram na adolescência, destruídos pela mãe por medo, e obras que ainda hoje funcionam como espelho e refúgio.
  • Hilton posiciona a leitura não como passatempo intelectual, mas como ferramenta de sobrevivência — especialmente para pessoas marginalizadas que raramente se veem refletidas nas páginas.

Erika Hilton encontrou o livro sem grandes expectativas. O título a chamou nas prateleiras da biblioteca universitária: 'A nova mulher e a moral sexual', de Alexandra Kolontai, revolucionária russa nascida em 1872. Era um volume fino, de leitura rápida — mas o que estava escrito ali a transformou. Ao terminar, ela encerrou um namoro de dois anos.

Kolontai argumenta que a estrutura social vigente obriga as mulheres em relações heterossexuais a abrirem mão de si mesmas — de sua identidade, de seu eu interior. Para Hilton, essa análise não era abstrata: ela reconheceu a dinâmica em sua própria vida. O que impressiona a deputada é que a obra foi escrita no século XIX e ainda ressoa com precisão nos debates contemporâneos sobre feminismo e poder. Ela recomenda o livro não como peça histórica, mas como espelho de problemas que continuam vivos.

Mas a relação de Hilton com os livros vai muito além da teoria política. Na adolescência, ela encontrou refúgio em 'O preço de ser diferente', de Mônica Castro — a história de um menino gay que sofre preconceito. Ela se viu naquelas páginas. Sua mãe, porém, destruiu o exemplar, jogando-o na máquina de lavar como se pudesse apagar o que ele representava. O que era porto seguro para a filha era ameaça para a mãe.

Sua estante hoje reúne Eça de Queirós, Erico Verissimo, Machado de Assis, Orwell e Judith Butler — clássicos e teoria de gênero lado a lado. Quando fala de escritoras negras, Hilton identifica uma urgência nascida da dor: a necessidade de cura, de amor, de pertencimento. Para ela, os livros nunca foram apenas leitura. São ferramentas de transformação. Um a fez terminar um namoro. Outro a salvou quando ninguém mais podia.

Erika Hilton descobriu um livro antigo na biblioteca da universidade e saiu de lá com muito mais do que esperava. A obra era "A nova mulher e a moral sexual", de Alexandra Kolontai, a revolucionária russa nascida em 1872. Hilton leu rápido — o livro é fino, acessível — e o que encontrou nas páginas a marcou profundamente. Tanto que, após terminar a leitura, ela encerrou um namoro que durava cerca de dois anos.

O que Kolontai argumenta no livro é que, dentro da estrutura social como está organizada, mulheres em relações heterossexuais acabam se anulando. Segundo Hilton, a autora sustenta que toda relação entre homem e mulher carrega um caráter abusivo justamente porque a mulher é forçada a abrir mão de si mesma — de seu eu interior, de sua identidade. A sociedade, em sua forma atual, exige essa renúncia. Hilton absorveu essa análise e reconheceu a dinâmica em seu próprio relacionamento. O livro não era um tratado acadêmico pesado; era uma conversa direta sobre poder, gênero e o preço que as mulheres pagam por pertencer a alguém.

O que impressiona Hilton é a contemporaneidade de uma obra escrita há mais de um século. Kolontai não estava falando de 2019 ou 2000. Ela estava falando de 1800, e ainda assim suas palavras ressoam com precisão nos debates atuais sobre feminismo e relacionamentos. Hilton recomenda o livro justamente por isso — não é um artefato histórico distante, mas um espelho que reflete problemas que continuam vivos. A deputada encontrou o exemplar sem grande pompa, sem sinopse elaborada que a seduzisse. O título a chamou. Ela levou. Leu. E sua vida mudou de rumo.

Mas Hilton é mais do que uma leitora de teoria política. Sua biblioteca revela uma mulher que se move entre gêneros e épocas com facilidade. Desde adolescente, ela se aventura em diversos tipos de livros. Releu recentemente "O Bispo", que havia lido aos 12 anos — uma obra espírita que a conforta, que a faz querer saber o que acontecerá com os personagens, como se acompanhasse uma novela. Há também "O preço de ser diferente", de Mônica Castro, que conta a história de um menino gay que sofre preconceito. Hilton se viu naquele livro. Sua mãe, porém, não viu refúgio — viu conspiração. Destruiu o exemplar, jogou na máquina de lavar, tentou apagá-lo. Para Hilton, era um porto seguro. Para sua mãe, era uma ameaça.

Sua estante inclui "O Primo Basílio" de Eça de Queirós, "Incidente em Antares" de Erico Verissimo, "A Revolução dos Bichos" de George Orwell, "Relíquias de casa velha" de Machado de Assis. Também "Problemas de gênero" de Judith Butler — a teoria contemporânea ao lado dos clássicos. Ela lê pela história, não pela religião. Quer saber o que vai acontecer. Quer se ver refletida nas páginas. E quando fala de escritoras negras, Hilton identifica algo que chama de urgência a partir da dor — a dor presente na obra, a urgência de cura para essa dor, de amor, de pertencimento. Os livros, para ela, não são apenas leitura. São refúgio, espelho, ferramenta de transformação. Um livro a fez terminar um namoro. Outro a salvou quando ninguém mais podia.

Toda relação heterossexual é abusiva porque a mulher abre mão de seu eu interior, é anulada pela estrutura social
— Erika Hilton, parafraseando Alexandra Kolontai
O livro é bom porque é de uma mulher de 1800 falando coisas que a gente está falando hoje de uma maneira muito maravilhosa
— Erika Hilton
The Hearth Conversation Another angle on the story
Inventor

Quando você leu Kolontai, você já estava sentindo que algo não estava certo no relacionamento, ou o livro criou essa percepção do zero?

Model

Acho que o livro nomeou algo que eu já sentia, mas não tinha palavras para. Você sabe quando você está desconfortável mas não consegue explicar por quê? Kolontai deu forma a isso.

Inventor

E depois que você terminou o namoro, a leitura continuou sendo importante, ou foi mais um ponto de virada?

Model

Foi um ponto de virada, mas também abriu uma porta. Depois disso, comecei a ler muito mais sobre feminismo, sobre poder nas relações. O livro não foi o fim da história, foi o começo de uma conversa comigo mesma.

Inventor

Sua mãe destruiu "O preço de ser diferente". Como você acha que ela reagiria se soubesse que Kolontai te fez terminar um namoro?

Model

Ela provavelmente teria o mesmo medo. Minha mãe via os livros como uma ameaça porque eles me ofereciam possibilidades que ela não queria que eu tivesse. Kolontai seria exatamente isso — uma voz dizendo que eu podia escolher diferente.

Inventor

Você lê teoria política como lê novela — quer saber o que acontece. Mas com Kolontai, você já sabia o que ia acontecer?

Model

Não, na verdade. Eu não esperava que aquele livro fosse me fazer terminar um relacionamento. Eu achei que era só uma leitura rápida na biblioteca. A vida é assim às vezes — você pega um livro fininho e ele muda tudo.

Inventor

O que você acha que Kolontai diria sobre você hoje, como deputada, falando publicamente sobre essas ideias?

Model

Acho que ela ficaria feliz. Ela escreveu para mulheres que pudessem ler, que pudessem pensar, que pudessem se recusar. Eu estou fazendo exatamente isso — recusando, nomeando, oferecendo outras possibilidades para outras mulheres.

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