Erika Hilton denuncia 'discursos odiosos' contra nomeação para Comissão da Mulher

Ataques transfóbicos em rede nacional contra deputada eleita, com questionamento de sua identidade de gênero e legitimidade profissional.
Um debate produtivo foi contaminado por discurso odioso
Erika Hilton descreve como críticas à sua nomeação desviaram de políticas públicas para ataques à sua identidade.

Em março de 2026, a deputada federal Erika Hilton foi eleita para presidir a Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher na Câmara — e o que poderia ter inaugurado um debate sobre feminicídio e violência de gênero foi rapidamente eclipsado por ataques que questionavam não suas propostas, mas sua própria existência como mulher trans. O episódio revela uma tensão antiga e persistente: a de que certas vozes, antes mesmo de falar, precisam primeiro provar que têm o direito de estar na sala.

  • A eleição de Hilton para presidir a comissão foi recebida com votos em branco como protesto, sinalizando resistência organizada desde o primeiro momento.
  • O apresentador Ratinho, em rede nacional, usou pronomes indefinidos para se referir à deputada e declarou que o cargo deveria ser ocupado por 'uma mulher' — falas que Hilton classifica como transfobia com alcance amplificado.
  • A empresária Silvia Abravanel defendeu Ratinho, argumentando que críticas a figuras públicas são legítimas e que o apresentador não teria ofendido a dignidade de Hilton — normalizando o discurso contestado.
  • Hilton protocolou ação no MP-SP pedindo inquérito por transfobia, violência política de gênero e injúria transfóbica, com penas que podem chegar a seis anos de prisão.
  • Deputadas da oposição anunciaram recurso para anular a eleição e representação no Conselho de Ética, institucionalizando a resistência à sua liderança.

Na segunda-feira, a deputada federal Erika Hilton descreveu como sua eleição para presidir a Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher — ocorrida em 11 de março — foi imediatamente cercada por resistência. Votos em branco marcaram a sessão como protesto, e os ataques que se seguiram, segundo ela, tinham menos a ver com divergências políticas do que com tentativas de deslegitimá-la enquanto pessoa.

O epicentro público da controvérsia foi o apresentador Ratinho, que em seu programa no SBT questionou se Hilton, sendo mulher trans, teria condições de representar mulheres cisgênero. Ele se referiu a ela com pronomes indefinidos — 'a deputada ou o deputado, não sei' — e afirmou que o cargo deveria ser ocupado por 'uma mulher'. Quando confrontado com a possibilidade de ação judicial, rejeitou as críticas como 'lacração'.

Em entrevista ao Roda Viva, Hilton lamentou que um debate que poderia ter sido centrado em feminicídio, estupros e violência contra mulheres tivesse sido 'completamente contaminado' por questionamentos sobre sua identidade. A empresária Silvia Abravanel, por sua vez, defendeu Ratinho, classificando seu posicionamento como 'normal' e sugerindo que Hilton, como figura pública, deveria aceitar críticas de qualquer origem.

Em resposta, Hilton protocolou ação no Ministério Público de São Paulo solicitando inquérito por transfobia, violência política de gênero e injúria transfóbica — crimes com penas que somadas podem ultrapassar quinze anos. Paralelamente, deputadas da oposição anunciaram recurso para anular sua eleição e representação formal no Conselho de Ética da Câmara, mantendo a resistência institucionalizada mesmo enquanto a batalha legal ainda se desenrola.

Na segunda-feira, a deputada federal Erika Hilton anunciou que sua eleição para presidir a Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher havia sido cercada por ataques que ela caracteriza como tentativas deliberadas de desviar o foco de questões substantivas. A nomeação, ocorrida em 11 de março, enfrentou resistência imediata — incluindo votos em branco como protesto — e desde então tem sido alvo de críticas que Hilton diz serem movidas menos por objeções políticas legítimas e mais por discursos que buscam deslegitimá-la enquanto pessoa e profissional.

O apresentador de televisão Ratinho, durante seu programa no SBT, questionou se Hilton teria legitimidade para ocupar o cargo. Suas falas incluíram indagações sobre se ela, sendo mulher trans, compreenderia os desafios enfrentados por mulheres cisgênero, além de comentários sobre casais do mesmo sexo em restaurantes que ele descreveu como "exageros". Ratinho também se referiu à deputada com pronomes indefinidos — "a deputada ou o deputado, não sei" — e afirmou que o cargo deveria ser ocupado por "uma mulher". Quando questionado posteriormente sobre a ação judicial que Hilton protocolaria contra ele, o apresentador rejeitou críticas a suas falas como "lacração" e reafirmou seu compromisso com seu estilo direto de comunicação.

Hilton respondeu em entrevista ao programa Roda Viva, da TV Cultura, descrevendo como um debate que poderia ter sido produtivo — centrado em políticas públicas para mulheres — foi "completamente contaminado" por discursos que questionavam sua identidade de gênero e sua capacidade profissional. Ela apontou que o aumento de feminicídios, estupros e violência contra mulheres deveria ser o foco central da comissão, não ataques pessoais. A deputada também destacou que críticas proferidas em rede nacional possuem alcance amplificado e impacto desproporcional.

A empresária Silvia Abravanel, filha de Silvio Santos e pré-candidata a deputada federal pelo PSD, ofereceu uma perspectiva diferente. Em entrevista ao portal Metrópoles, ela caracterizou o posicionamento de Ratinho como "normal" e argumentou que o apresentador "não ofendeu a dignidade nem a moral" de Hilton ao questionar sua legitimidade. Abravanel sugeriu que, como figura pública aberta à televisão e à política, Hilton deveria aceitar críticas de qualquer origem.

Em resposta aos ataques, Hilton protocolou ação no Ministério Público de São Paulo acusando Ratinho de proferir declarações transfóbicas. O documento solicita a instauração de inquérito policial para apurar possíveis crimes de transfobia — com pena de até cinco anos de prisão —, violência política de gênero — até seis anos — e injúria transfóbica — até quatro anos. A ação reflete a gravidade com que Hilton interpreta os ataques, situando-os não apenas como desacordos políticos, mas como violações legais.

Desde sua eleição, deputadas da oposição intensificaram a contestação. Após a primeira sessão presidida por Hilton, o grupo anunciou planos de apresentar recurso para tentar anular a eleição e uma representação formal no Conselho de Ética da Câmara. Esses movimentos sugerem que a resistência à sua liderança da comissão permanece organizada e institucionalizada, mesmo enquanto a questão dos ataques pessoais segue em disputa legal.

Um debate que poderia ser muito produtivo foi completamente contaminado por um discurso odioso que questiona se, por eu ser uma mulher trans, eu fosse menos mulher e menos capaz
— Erika Hilton, em entrevista ao Roda Viva
Nosso desafio vai ser não permitir que essa onda de mentiras, desinformação, ódio e ataques pessoais possam continuar a protagonizar
— Erika Hilton
A Conversa do Hearth Outra perspectiva sobre a história
Inventor

Por que você acha que Ratinho e outros focaram tanto em questionar se você é "realmente" mulher, em vez de debater suas políticas?

Model

Porque questionar minha identidade é mais fácil do que debater ideias. Se conseguem fazer as pessoas duvidarem de mim como pessoa, não precisam responder sobre feminicídio, sobre estupro, sobre o que a gente vai fazer.

Inventor

Silvia Abravanel disse que você, como figura pública, deveria aceitar críticas de qualquer um. Isso não é um ponto justo?

Model

Há diferença entre crítica política e negação da minha existência. Crítica é "discordo de sua proposta para a comissão". Negação é "você não é mulher o suficiente para isso". Uma é debate. A outra é violência.

Inventor

Você acha que a ação no Ministério Público vai mudar algo, ou é mais um sinal?

Model

É os dois. Juridicamente, pode estabelecer precedente sobre violência política de gênero. Mas também é um sinal de que não vou deixar passar. Que isso tem consequências.

Inventor

E quanto aos votos em branco na sua eleição? Isso não sugere que nem todos na câmara te apoiam?

Model

Claro que nem todos apoiam. Mas há diferença entre discordar e tentar deslegitimar alguém através de ataques à sua identidade. Posso lidar com oposição política. O que não posso deixar passar é transfobia institucionalizada.

Inventor

O que você espera que a Comissão da Mulher faça nos próximos meses?

Model

Trabalhar. Feminicídio aumentou. Estupro aumentou. Temos mulheres esperando por respostas concretas. Se conseguirmos tirar o foco desses ataques e colocar em políticas públicas, teremos feito nosso trabalho.

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