Ameaças fazem parte de uma tentativa de silenciar meu mandato
Em março de 2022, Erika Hilton — primeira mulher transgênero eleita para a Câmara Municipal de São Paulo — anunciou sua candidatura à Câmara dos Deputados, carregando consigo não apenas uma agenda de direitos humanos e cultura, mas também o peso de ameaças constantes contra sua vida. Sua decisão reflete um movimento mais amplo da política brasileira: a luta de corpos historicamente silenciados por ocupar os espaços onde as leis são escritas. Hilton não busca apenas representação simbólica, mas a transformação concreta das estruturas que determinam quem pode existir com dignidade no Brasil.
- Erika Hilton formalizou sua candidatura federal em meio a um clima político que ela própria descreve como 'violentíssimo e cruel', reconhecendo os riscos reais que essa escolha implica.
- As ameaças que enfrenta não são abstratas: um boletim de ocorrência recente registrou promessas de degolação e incêndio de sua residência, revelando a violência transfóbica que persegue seu mandato.
- Apesar do medo declarado, Hilton transforma as ameaças em combustível político, interpretando cada tentativa de silenciamento como confirmação de que sua voz perturba estruturas de poder.
- Seu plano imediato era reunir lideranças LGBTQIA+ para formular propostas e pressionar candidatos presidenciais — especialmente Lula — a romper o 'silêncio estarrecedor' sobre direitos do segmento.
- Hilton deixou claro que sua eventual aliança com um governo Lula seria crítica e condicional, recusando lealdade automática e prometendo pressão onde houvesse recuo.
Erika Hilton, vereadora de São Paulo pelo PSOL, anunciou em março de 2022 sua candidatura à Câmara dos Deputados. A decisão foi formalizada com lideranças do partido e representava um passo natural para quem, em 2020, havia se tornado a primeira mulher transgênero eleita para a Câmara Municipal paulistana — com mais de 50 mil votos e a sexta colocação geral.
Para Hilton, ir a Brasília era uma questão de necessidade histórica. Ela descrevia o governo Bolsonaro como um período de destruição sem precedentes e via na candidatura federal a chance de ampliar em escala nacional o trabalho iniciado na capital — com foco em direitos humanos, cultura e, especificamente, a federalização do debate em torno do programa Transcidadania, voltado à inclusão de pessoas trans e travestis.
Mas essa trajetória carrega um peso concreto. Hilton é alvo frequente de ameaças de morte, incluindo uma ocorrência recente em que uma mulher prometeu degolá-la e incendiar sua casa. Ela não minimiza o impacto: admite o medo, a tristeza, a preocupação diante de uma escalada de violência. Ainda assim, recusa a paralisia. 'Ameaças fazem parte de uma tentativa de silenciar meu mandato e meu corpo. Isso me dá combustível', afirmou.
Nas semanas seguintes ao anúncio, Hilton planejava se reunir com lideranças LGBTQIA+ para construir propostas e apresentá-las ao então favorito nas pesquisas presidenciais, Lula. Ela e seu grupo denunciavam o silêncio dos candidatos sobre a agenda do segmento e queriam arrancar compromissos públicos. Ao mesmo tempo, Hilton foi enfática: não seria uma parlamentar petista ou lulista por lealdade automática. Apoiaria onde houvesse alinhamento, pressionaria onde houvesse recuo — uma declaração de independência crítica que definia, desde o início, os termos de sua presença em Brasília.
Erika Hilton, vereadora de São Paulo pelo PSOL, anunciou na sexta-feira sua candidatura à Câmara dos Deputados nas eleições de 2022. A decisão, que vinha sendo considerada há tempo, foi formalizada em conversa com lideranças do partido.
Hilton chegou à Câmara Municipal em 2020 como a sexta candidata mais votada, com 50.508 votos. Seu mandato marcou um ponto de inflexão: ela se tornou a primeira mulher transgênero a ocupar uma cadeira na Casa. Agora, aos olhos do PSOL e de seus apoiadores, o próximo passo é levar essa representatividade e essa agenda para Brasília.
"Minha pretensão de ir a Brasília é pela necessidade de refundação do Brasil", disse ela em entrevista. Hilton caracteriza o governo Jair Bolsonaro como um período de "destruição sem precedentes" e vê na candidatura federal uma oportunidade de ampliar o trabalho que começou na capital paulista. Seu foco permanece em direitos humanos e cultura, mas agora em escala nacional. Um dos objetivos específicos é federalizar o debate sobre o programa Transcidadania, iniciativa voltada à inclusão de pessoas trans e travestis.
Mas há um peso que acompanha essa trajetória. Hilton é alvo frequente de ameaças contra sua vida. Recentemente, registrou boletim de ocorrência após uma mulher dirigi-lhe insultos transfóbicos e prometer degolá-la, além de incendiar sua residência e seu corpo. Quando perguntada sobre como isso a afeta, ela não minimiza o medo. "Fico preocupada, receosa, entristecida e amedrontada porque a gente vê uma escalada", afirmou. Mas também não se deixa paralisar. "Ameaças fazem parte de uma tentativa de silenciar meu mandato e meu corpo. Isso me dá combustível."
Hilton vê nas ameaças um sinal de que sua voz incomoda, de que ela está participando de um "processo revolucionário e transformador". Ao anunciar candidatura em um ano que promete ser "violentíssimo e cruel", ela reconhece a receptividade incerta que pode enfrentar, mas rejeita a ideia de que isso a desestimule.
Nas semanas seguintes, Hilton planejava se reunir com lideranças LGBTQIA+ para formular propostas de políticas públicas para o segmento. Alguns desses pontos seriam apresentados ao ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, do PT, que liderava as pesquisas presidenciais. Hilton e seu grupo observavam um "silêncio estarrecedor" dos candidatos presidenciais em relação à agenda de direitos da população LGBTQIA+ e queriam forçar compromissos públicos.
Mas ela deixou claro que sua lealdade não seria automática. "Não pretendo assumir uma posição petista nem lulista caso seja eleita deputada em um eventual governo Lula", disse. "Mas estarei ao lado dele para fazer o melhor pelo Brasil." Era uma declaração de independência crítica, a promessa de uma parceria condicional — apoio onde houvesse alinhamento, pressão onde houvesse recuo.
Citas Notables
Minha pretensão de ir a Brasília é pela necessidade de refundação do Brasil— Erika Hilton
Não pretendo assumir uma posição petista nem lulista caso seja eleita deputada em um eventual governo Lula— Erika Hilton
La Conversación del Hearth Otra perspectiva de la historia
Por que ela decidiu dar esse passo agora, em 2022, e não continuar apenas como vereadora?
Porque vereadora é escala municipal. Ela quer federalizar debates que começou em São Paulo — especialmente sobre direitos trans. Brasília é onde as políticas nacionais se fazem.
Mas ela recebe ameaças de morte. Como isso não a paralisa?
Ela não nega o medo. Diz que fica preocupada, receosa, amedrontada. Mas interpreta as ameaças como prova de que sua voz incomoda, e isso a motiva mais do que a desanima.
E quanto a Lula? Ela vai ser uma deputada petista?
Não. Ela deixa isso muito claro. Vai apoiar Lula onde fizer sentido, mas mantém independência. Quer pressionar candidatos presidenciais por compromissos com LGBTQIA+, não se submeter a nenhum deles.
Qual é o risco real que ela enfrenta ao se candidatar?
O risco é duplo: violência política e transfobia. Ela já registrou boletim de ocorrência por ameaças de degolação e incêndio. Ao se colocar em candidatura federal, expõe-se ainda mais.
E por que ela acha que consegue ganhar?
Ela não fala em ganhar com certeza. Fala em necessidade. Diz que o Brasil precisa de refundação. Para ela, a candidatura é um ato político, não uma aposta segura.