Por que rivais do Palmeiras rejeitam seus títulos brasileiros pré-1971

O que importa é a finalidade da competição, não apenas seu formato
Pesquisador Odir Cunha defende a unificação de títulos históricos baseado em critérios substantivos, não apenas na estrutura das competições.

Na noite de 6 de dezembro de 2023, o Palmeiras ergueu seu 12º troféu do Campeonato Brasileiro — um número que, para muitos, não é apenas estatística, mas campo de batalha. A disputa não se trava no gramado, mas nos arquivos: desde 2010, quando a CBF unificou competições nacionais das décadas de 1950 e 1960 ao Brasileiro oficial, a legitimidade histórica tornou-se tão contestada quanto qualquer clássico. O que está em jogo é uma pergunta antiga e sempre atual: quem tem o direito de nomear o passado?

  • O apelido 'campeão por fax' viralizou nas redes sociais assim que o título foi confirmado, sintetizando a recusa de torcedores rivais em aceitar conquistas anteriores a 1971.
  • A tensão central é de formato versus finalidade: críticos argumentam que competições com poucos jogos e alcance regional não podem equivaler ao Brasileiro moderno.
  • O pesquisador Odir Cunha, autor do dossiê que embasou a unificação de 2010, rebate com uma analogia incômoda — os mesmos que negam esses títulos celebram Mundiais de Clubes decididos em jogo único.
  • A CBF reforçou sua posição em agosto de 2023 ao reconhecer o título do Atlético-MG de 1937, sinalizando que a revisão histórica com documentação adequada permanece possível.
  • O Palmeiras encerra 2023 como maior campeão brasileiro em número de títulos, mas a hegemonia nos registros oficiais não apazigua a guerra de narrativas nas arquibancadas e nas timelines.

Na quarta-feira, 6 de dezembro de 2023, o Palmeiras conquistou seu 12º título do Campeonato Brasileiro. Mas o número carrega uma disputa que vai muito além do futebol: desde 2010, quando a CBF unificou ao Brasileiro oficial os títulos nacionais disputados entre 1959 e 1970, torcedores rivais passaram a chamar o clube de 'campeão por fax' — expressão que resume a desconfiança sobre a legitimidade dessas conquistas.

A decisão da CBF foi baseada em um dossiê elaborado pelo jornalista e pesquisador Odir Cunha, que mapeou duas competições nacionais da época: a Taça Brasil, criada em 1959 no formato de mata-mata com representantes estaduais, e o Torneio Roberto Gomes Pedrosa, organizado a partir de 1967 pelas federações do Rio e São Paulo antes de se expandir para outros estados. Com a unificação, o Palmeiras ganhou quatro títulos adicionais e o Santos, seis — transformando o cenário histórico do futebol brasileiro de forma irreversível.

Os críticos apontam que essas competições tinham abrangência limitada e poucos jogos, questionando como um time pode ser campeão nacional com apenas quatro partidas. Cunha responde com uma provocação: os mesmos que negam esses títulos não questionam Mundiais de Clubes decididos em jogo único. Para ele, o critério legítimo não é o formato, mas a finalidade da competição — e a Taça Brasil era, à época, a única competição que definia o representante brasileiro na Libertadores.

O debate ganhou novo contorno em agosto de 2023, quando a CBF reconheceu o título do Atlético-MG de 1937 mediante documentação histórica apresentada pelo clube, reafirmando sua abertura à revisão do passado. O Palmeiras encerrou o ano com 18 títulos nacionais no total, mas o troféu mais disputado continua sendo o da narrativa — e esse, por enquanto, ninguém levantou definitivamente.

Na quarta-feira 6 de dezembro de 2023, o Palmeiras conquistou seu 12º título do Campeonato Brasileiro. Mas essa contagem, que parece simples na superfície, carrega uma disputa histórica que divide o futebol brasileiro há mais de uma década. Torcedores de clubes rivais rejeitam sistematicamente esses números, desconsiderando as conquistas que o Palmeiras acumula antes de 1971 — o ano em que o Campeonato Brasileiro foi oficialmente criado. O termo que ecoou nas redes sociais e nos bares é "campeão por fax", uma alcunha que resume o ceticismo de quem não reconhece aqueles títulos como legítimos.

Tudo começou em 2010, quando a Confederação Brasileira de Futebol tomou uma decisão que reverberaria por anos: unificar os títulos nacionais conquistados entre 1959 e 1970 ao Campeonato Brasileiro oficial. A CBF se baseou em um dossiê meticuloso produzido pelo jornalista e pesquisador Odir Cunha, que havia montado o material histórico a pedido de clubes para convencer a entidade dessa unificação. Naquela época, duas competições nacionais distintas funcionavam como definidoras do campeão brasileiro: a Taça Brasil, criada em 1959, e o Torneio Roberto Gomes Pedrosa, que começou em 1967 e depois ficou conhecido como Taça de Prata.

A Taça Brasil funcionava com um representante por estado em um formato de mata-mata, similar ao que a Copa do Brasil viria a ser. Os campeões estaduais competiam, com vantagem para os times do Rio e de São Paulo, que entravam em fases mais avançadas. Para participar, era necessário ter conquistado antes o campeonato estadual. O Bahia foi o primeiro vencedor, em 1959, derrotando o Santos na final. Já o Torneio Roberto Gomes Pedrosa, organizado pelas federações do Rio e São Paulo, expandiu-se gradualmente para incluir times de outros estados. O Palmeiras venceu a primeira edição em 1967 com uma campanha de 20 jogos — dez vitórias, oito empates e duas derrotas. Quando a Confederação Brasileira de Desportos passou a organizar a competição, ela incorporou clubes baianos e pernambucanos, transformando-se na Taça de Prata.

Com a unificação de 2010, o Palmeiras ganhou quatro títulos adicionais (1960, 1967, 1967 e 1969), enquanto o Santos foi ainda mais beneficiado, agregando seis conquistas à sua coleção (1961, 1962, 1963, 1964, 1965 e 1968). Bahia, Cruzeiro, Botafogo e Fluminense também tiveram um título cada um reconhecido. Essa decisão transformou o Palmeiras no maior campeão brasileiro com 12 títulos, ultrapassando o Flamengo e o Santos, ambos com oito.

Mas por que tantos torcedores rejeitam essa contagem? A crítica mais comum é que essas competições antigas tinham formatos diferentes, abrangência nacional limitada e, em alguns casos, um número reduzido de jogos. Como pode um time ser campeão brasileiro com apenas quatro partidas, questionam. Odir Cunha, o pesquisador que fundamentou toda a unificação, responde a essa objeção com uma lógica que desafia a coerência dos críticos: esses mesmos jornalistas e torcedores, ele aponta, celebram times que foram campeões mundiais com apenas um jogo. Se no futuro os Mundiais de Clubes tiverem dezenas de equipes e muito mais partidas, seria justo anular aqueles títulos conquistados com uma única partida?

Para Cunha, o que importa não é o nome da competição ou o número de jogos, mas sim a finalidade dela, seus critérios e sua chancela pela entidade responsável pelo futebol nacional na época — a CBD, que depois virou CBF. A Taça Brasil era a única competição que definia o campeão brasileiro e o representante do país na Libertadores. A Copa do Brasil, por contraste, sempre foi uma competição secundária que nunca definiu o campeão brasileiro. Essa distinção fundamental, argumenta Cunha, é frequentemente ignorada por jornalistas mal informados que comparam as duas apenas pelo formato de disputa.

A unificação ganhou novo respaldo em agosto de 2023, quando a CBF reconheceu o título de campeão brasileiro do Atlético-MG em 1937, após receber um estudo da diretoria do clube com documentos e acervo histórico. Isso reforça que a entidade continua aberta a reconhecer títulos históricos quando há fundamentação adequada. Enquanto isso, o Palmeiras segue acumulando conquistas: além do 12º título do Brasileiro em 2023, o time também venceu a Supercopa do Brasil no início do ano, totalizando 18 títulos nacionais. O debate, porém, permanece vivo nas ruas e nas redes sociais, onde torcedores de São Paulo, Corinthians, Flamengo e Vasco continuam a desdenhar aqueles números com o apelido que virou sinônimo de desconfiança: campeão por fax.

Se são apenas torcedores de clubes que não ganharam nada naquele período, é uma reação normal de torcedores debochados. Mas se são jornalistas, fico decepcionado, pois não leram o dossiê e não estudaram com devido respeito a história do futebol brasileiro.
— Odir Cunha, pesquisador e jornalista
O que importa não é o nome da competição ou o número de jogos, mas a finalidade dela, seus critérios e sua chancela pela entidade responsável pelo futebol nacional.
— Odir Cunha, pesquisador e jornalista
The Hearth Conversation Another angle on the story
Inventor

Por que exatamente a CBF decidiu unificar títulos de competições que não existem mais?

Model

Porque aquelas competições — a Taça Brasil e o Torneio Roberto Gomes Pedrosa — eram as únicas que definiam o campeão brasileiro naquela época. Não eram torneios secundários. Eram a coisa em si.

Inventor

Mas o formato era tão diferente. Um time podia ser campeão com apenas quatro jogos.

Model

Verdade. Mas hoje times são campeões mundiais com um jogo. Se alguém disser que aqueles títulos não contam porque tiveram poucos jogos, está sendo incoerente.

Inventor

Então qualquer competição que defina um campeão deveria ser unificada?

Model

Não exatamente. A Copa do Brasil, por exemplo, nunca definiu o campeão brasileiro. Sempre foi secundária. Aí sim faz diferença o que você está contando.

Inventor

E por que os torcedores rivais rejeitam tanto isso?

Model

Porque o Palmeiras ganhou muito com a unificação. Saltou de oito para doze títulos. Santos também se beneficiou bastante. Para quem torce para times que não ganharam nada naquela época, é fácil desdenhar.

Inventor

Mas existe documentação que comprova tudo isso?

Model

Existe. Um pesquisador chamado Odir Cunha montou um dossiê completo. A CBF se baseou nele. Mas nem todos leem. É mais fácil chamar de "campeão por fax" e seguir em frente.

Inventor

Isso vai mudar em algum momento?

Model

Provavelmente não. Essas disputas sobre história do futebol raramente se resolvem. Cada torcida vai contar do seu jeito.

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