Muitas respostas não estão na prova, mas no conhecimento que você traz
Questões objetivas representam 80% da nota final do Enem, com 180 questões distribuídas em quatro áreas de conhecimento ao longo de dois dias de prova. Professores destacam que interpretação textual, falta de hábito de leitura e dificuldades em filosofia, eletrodinâmica e biotecnologia são os principais desafios dos alunos.
- 4,8 milhões de inscritos confirmados, com 272.299 de Pernambuco
- 180 questões objetivas em dois dias (9 e 16 de novembro), representando 80% da nota final
- Temas recorrentes: Era Vargas, escravidão, Guerra Fria em Humanas; eletrodinâmica em Física; biotecnologia em Biologia
Reportagem analisa os temas mais frequentes em cada área do Enem 2025, com dicas de professores para a reta final de preparação dos 4,8 milhões de inscritos.
Com mais de 4,8 milhões de inscritos confirmados — incluindo 272.299 de Pernambuco — o Enem 2025 acontece nos dias 9 e 16 de novembro. Nos dois dias, os candidatos enfrentarão 180 questões objetivas distribuídas em quatro áreas de conhecimento, 45 perguntas por área a cada dia. Essas questões objetivas representam 80% da nota final, um peso que muitos alunos subestimam ao dedicarem-se exclusivamente à redação. Sérgio Salles, professor e coordenador de História do Colégio GGE, observa que alguns candidatos deixam as questões objetivas de lado, mas aqueles que se preparam adequadamente percebem que a prova objetiva pode até mesmo servir como suporte para a redação.
Na área de Linguagens, Códigos e suas Tecnologias — que engloba português, literatura, artes e línguas estrangeiras — a interpretação textual é o fio condutor de praticamente todas as questões. Eduardo Pereira, professor de redação e linguagens do Colégio Boa Viagem, explica que além da interpretação, os alunos precisam dominar gêneros textuais, figuras de linguagem, variação linguística e elementos verbais e não verbais. A dificuldade central, segundo ele, é a falta de hábito de leitura entre os estudantes. Muitas respostas não estão explícitas nas questões; elas exigem conhecimento de mundo que o aluno traz consigo. Essa habilidade de compreensão vai além de Linguagens — é fundamental para resolver questões em todas as outras áreas.
Em Ciências Humanas e suas Tecnologias, que abrange história, geografia, filosofia e sociologia, certos temas aparecem com regularidade: Era Vargas, escravidão, Guerra Fria, questões migratórias e trabalho. Mas é filosofia que gera as maiores reclamações de dificuldade entre os alunos. Salles aponta que muitos candidatos tratam filosofia como disciplina secundária, dedicando pouco tempo a ela — especialmente quando o assunto envolve filósofos mais contemporâneos. Essa negligência é um erro estratégico.
No segundo dia de prova, Matemática e suas Tecnologias apresenta seus próprios desafios. Cinthya Moraes, professora da Escola de Referência de Ensino Médio Santos Dumont, lista os assuntos mais recorrentes: medidas de tendência central, análise de gráficos, funções polinomiais de primeiro e segundo grau, planificação de objetos, relações trigonométricas, projeção ortogonal, volume de cone e esfera, e porcentagem. O obstáculo principal não é o conteúdo em si, mas a interpretação matemática do texto. Os alunos se perdem em textos longos e não conseguem identificar qual operação ou conceito aplicar. Moraes recomenda que questões de função exponencial e logarítmica sejam deixadas para o final da prova, pois têm baixo valor no sistema de pontuação do Enem.
Ciências da Natureza e suas Tecnologias reúne física, química e biologia, cada uma com suas armadilhas. Em física, teoria ondulatória e eletrodinâmica são frequentes, assim como trabalho, energia, potência mecânica, leis de Newton, impulso, quantidade de movimento, termodinâmica e estática. Carlos Japwwa, professor de física do Colégio GGE, destaca que eletrodinâmica e eletromagnetismo causam as maiores dificuldades — a abrangência é imensa, cobrindo potência elétrica, correntes, resistores, baterias, receptores, máquinas e motores. Em biologia, biotecnologia é o tema mais desafiador porque exige que o aluno construa um repertório cronológico completo: como funcionam os genes, onde se localizam, como trabalham, depois clonagem e assim por diante. Daniel Senna, professor do Colégio Boa Viagem, enfatiza que ecologia também provoca erros frequentes. Os temas mais comuns incluem ecologia, biotecnologia, citologia, evolução, genética, botânica, zoologia e doenças. Em química, os assuntos recorrentes são química ambiental e sustentabilidade, físico-química, química geral, química orgânica e química do cotidiano. Analouise Almeida, professora de química da Erem Santos Dumont, observa que a compreensão de química exige acúmulo de conceitos essenciais ao longo de todo o Ensino Médio, além de domínio de matemática, física e biologia — e as reformas curriculares recentes dificultam ainda mais esse aprendizado.
Na reta final, os professores são unânimes: não é hora de aprender assuntos novos. O tempo é curto demais para aprofundamento. A estratégia deve ser resolver questões e revisar o que já foi estudado, focando especialmente nos temas em que o aluno sente menos domínio. Salles resume: dedique-se à resolução de questões e revisão de assuntos recorrentes, concentrando-se naquilo que você não domina para não cometer erros na hora da prova.
Citações Notáveis
Os alunos que se preparam adequadamente enxergam que a prova objetiva pode inclusive ser um suporte para a prova de redação— Sérgio Salles, coordenador de História do Colégio GGE
Nessa reta final a dica é se dedicar na resolução de questões e revisão de assuntos recorrentes, focando naqueles que você não tem domínio— Sérgio Salles, coordenador de História do Colégio GGE
A Conversa do Hearth Outra perspectiva sobre a história
Por que tantos alunos negligenciam as questões objetivas se elas representam 80% da nota?
Porque a redação é visível, tangível — você escreve um texto inteiro e sente que fez algo. As questões objetivas parecem menos importantes, mais mecânicas. Mas essa é uma ilusão perigosa.
E a interpretação de texto — por que é tão central em todas as áreas?
Porque o Enem não testa apenas conhecimento. Testa se você consegue ler um problema, entender o que está sendo pedido e aplicar o que sabe. Sem isso, você não consegue nem resolver uma questão de matemática ou química.
Qual é a diferença entre estudar agora e estudar na reta final?
Agora você pode aprender coisas novas, aprofundar. Na reta final, você não tem tempo para isso. Você só tem tempo para revisar e praticar o que já sabe, para não esquecer e para ganhar velocidade.
Por que filosofia é tão problemática para os alunos?
Porque muitos a tratam como secundária durante todo o Ensino Médio. Quando chega o Enem, eles não têm repertório. E filosofia não é algo que você aprende em duas semanas.
Biotecnologia em biologia parece particularmente difícil. Por quê?
Porque não é um conceito isolado. É uma sequência histórica de descobertas que você precisa entender em ordem. Genes, depois clonagem, depois aplicações. Se você pula um degrau, o próximo não faz sentido.
E a química — por que é tão dependente de outras disciplinas?
Porque química é uma linguagem. Você precisa de matemática para entender pH, de física para entender reações, de biologia para entender processos celulares. É tudo conectado.