Os itens deveriam ser testados com anos de diferença
Cinco dias antes da maior prova do Brasil, um estudante de Medicina transmitiu ao vivo questões que se revelaram quase idênticas às do Enem 2025 — e o fez não por acaso, mas como parte de um negócio construído sobre o acesso privilegiado a pré-testes sigilosos do Inep. O MEC respondeu anulando três questões e acionando a Polícia Federal, reconhecendo em silêncio que a integridade do exame havia sido tocada. O episódio levanta uma pergunta que vai além do caso individual: quando a memória de um participante se torna mercadoria, onde termina o conhecimento e começa a fraude?
- Uma live transmitida cinco dias antes do Enem apresentou questões com alternativas praticamente idênticas às da prova oficial, incluindo a resposta correta — o alarme soou tarde demais para milhões de candidatos.
- O MEC anulou três questões do gabarito oficial, uma medida rara que expõe a vulnerabilidade do banco de itens do Inep diante de quem participa dos pré-testes.
- O estudante Edcley Teixeira havia construído um curso preparatório inteiro sobre essa vantagem, afirmando memorizar questões inéditas com a ajuda de amigos e revendê-las como 'criações originais'.
- O paradoxo é perturbador: em 2022, o próprio Edcley gravou um vídeo denunciando exatamente essa prática como 'vazamento' que fragilizava o exame — e depois a adotou sistematicamente.
- A Polícia Federal agora investiga se houve quebra de confidencialidade ou má-fé, enquanto o MEC tenta sustentar a validade do Enem 2025 diante de uma crise de credibilidade já instalada.
Na manhã de 19 de novembro, o MEC divulgou o gabarito do Enem 2025 com três questões anuladas — itens 115, 121 e 178 na versão amarela, com numerações equivalentes nas demais cores. A causa era uma live transmitida cinco dias antes por Edcley Teixeira, estudante de Medicina da Universidade Federal do Ceará, cujo canal no YouTube havia exibido questões com similaridades alarmantes às da prova oficial.
Edcley afirmava participar dos pré-testes do Inep e ser capaz de memorizar detalhes suficientes para recriar as questões, que depois vendia como material de curso preparatório. Em uma questão de Biologia sobre espécies restritas a ambientes específicos, quatro das cinco alternativas eram idênticas às da prova — inclusive a correta. Em outra, sobre ruído sonoro postada nos stories do Instagram, todas as alternativas, a função logarítmica e os valores eram reproduzidos com exatidão.
O MEC reconheceu que nenhuma questão apareceu exatamente como na live, mas identificou 'similaridades pontuais' suficientes para justificar a anulação. A Polícia Federal foi acionada para investigar possível quebra de confidencialidade.
O que tornava o caso ainda mais perturbador era o histórico do estudante. Em setembro de 2022, Edcley havia gravado um vídeo denunciando essa mesma prática — explicando como cursinhos 'hackeavam o Enem' usando questões de pré-testes do Inep e classificando isso como 'vazamento'. No ano seguinte, passou a fazer exatamente o mesmo, argumentando que suas questões eram 'criações originais' inspiradas nos pré-testes e que 'o Inep não possui poder de censurar a memória de um estudante'.
O estudante havia inclusive recebido reconhecimento oficial: aparecia em vídeo nas redes do próprio MEC como ganhador do Prêmio CAPES Talento Universitário, que lhe rendeu R$ 5 mil. A investigação agora busca entender como esse esquema operou por tanto tempo sem ser detectado — e o que isso revela sobre as fragilidades do sistema de segurança do maior exame do país.
Na manhã de 19 de novembro, o Ministério da Educação divulgou o gabarito oficial do Enem 2025 com uma novidade incômoda: três questões anuladas. Na prova amarela, eram os itens 115, 121 e 178. Nas demais versões — cinza, azul e verde — os números variavam, mas o padrão era o mesmo. Três questões simplesmente removidas do cálculo de notas. A razão, segundo o MEC, era uma live transmitida cinco dias antes da prova, no dia 11 de novembro, por um estudante de Medicina chamado Edcley Teixeira.
Edcley, aluno do quinto período da Universidade Federal do Ceará, havia apresentado questões em seu canal do YouTube que se pareciam demais com as que caíram no exame. Ele afirmava em suas redes sociais participar dos pré-testes realizados pelo Inep — o instituto responsável pela aplicação do Enem — e conseguir memorizar detalhes suficientes das perguntas para recriá-las. Com isso, vendia aulas on-line como curso preparatório. Na live em questão, uma questão de Biologia sobre espécies que evoluem e se mantêm restritas a ambientes específicos apresentava quatro das cinco alternativas idênticas às da prova oficial, inclusive a resposta correta. Em outra questão sobre ruído sonoro, postada nos stories do Instagram, todas as alternativas, a mesma função logarítmica e todos os valores envolvidos eram reproduzidos identicamente.
O MEC informou que acionaria a Polícia Federal para investigar a conduta. A nota oficial reconhecia que nenhuma questão havia sido apresentada exatamente como apareceu no exame, mas identificava "similaridades pontuais" entre os itens divulgados e os aplicados. A equipe técnica responsável pela montagem das provas analisou as circunstâncias e decidiu pela anulação dos três itens. O instituto reafirmava a "isonomia, lisura e validade" do Enem 2025, mas o estrago já estava feito.
O que tornava o caso ainda mais intrigante era o histórico de Edcley. Em 2022, ele havia gravado um vídeo "denunciando" exatamente a estratégia que depois passaria a adotar. Naquela gravação, de 29 de setembro de 2022, ele explicava como "grandes cursinhos" — cujos nomes não podia citar — "hackeavam o Enem" usando questões do Prêmio Talento Capes Universitário, um pré-teste do Inep. Ele classificava a prática como "vazamento" e argumentava que fragilizava o exame. "Os itens deveriam ser testados com anos de diferença para a prova", defendia.
No ano seguinte, porém, sua postura mudou radicalmente. Em 2023, Edcley disponibilizou um material chamado "Essas questões estarão no Enem 2023", afirmando que havia tido "a oportunidade de participar do pré-teste do Enem" e que, "com a colaboração de cinco amigos", conseguiu se lembrar de 90 questões inéditas. Em um documento anexado, ele argumentava que suas questões eram "criações originais" inspiradas nas do pré-teste, portanto sem risco jurídico, já que "o Inep não possui poder de censurar a memória de um estudante". Ele afirmava ainda ter tido acesso antecipado a questões dos Enems de 2023 e 2024, trabalhando-as em seu curso preparatório.
Edcley havia recebido reconhecimento oficial do próprio MEC. Em um vídeo publicado nas redes sociais do ministério, ele aparecia como um dos ganhadores da edição mais recente do Prêmio CAPES Talento Universitário, que lhe rendeu R$ 5 mil. No vídeo, dizia que usaria o prêmio para investir em ferramentas essenciais para seu curso de medicina e que era "um reconhecimento que dá um gás incrível para continuarmos nos dedicando". O GLOBO tentou contato com o estudante, mas ele não respondeu.
A investigação da Polícia Federal agora buscaria apurar se houve quebra de confidencialidade ou má-fé na divulgação de questões sigilosas. O MEC ressaltava que o Enem utiliza a Teoria da Resposta ao Item (TRI) para apuração de resultados, uma metodologia que demanda pré-testes rigorosos. Estudantes que participam desses pré-testes têm contato com itens que podem compor o exame em alguma edição futura. Mas o protocolo de segurança, segundo o instituto, havia sido cumprido em todas as etapas. A questão agora era: como um estudante havia conseguido transformar informações confidenciais em vantagem comercial, e por quanto tempo isso havia passado despercebido?
Citações Notáveis
Os cursinhos estão atentos. O vazamento acontece na prova do Talento Universitário. Muitos cursinhos usam seus alunos para fazer essas provas e decorar as questões.— Edcley Teixeira, em vídeo de 2022 denunciando a prática que depois adotaria
Nenhuma questão foi apresentada tal qual na edição de 2025 do exame. Na divulgação observada nas redes sociais, foram identificadas similaridades pontuais entre os itens.— Nota oficial do MEC
A Conversa do Hearth Outra perspectiva sobre a história
Como um estudante consegue memorizar questões de um pré-teste com precisão suficiente para recriá-las meses depois?
Edcley não diz que memoriza palavra por palavra. Ele afirma lembrar de detalhes — a estrutura da pergunta, as alternativas, os valores numéricos. Com cinco amigos ajudando, é possível reconstruir bastante coisa. E ele tinha incentivo: vender cursos.
Mas ele próprio havia denunciado essa prática em 2022. Por que mudou de ideia?
Ele viu uma oportunidade. Quando denunciou, estava reclamando de concorrentes. Quando começou a fazer, estava monetizando. A mudança de narrativa — de "vazamento" para "criação original inspirada" — foi apenas uma questão de perspectiva.
O MEC diz que nenhuma questão foi apresentada "tal qual". Então por que anular?
Porque as similaridades eram demais para ser coincidência. Quatro de cinco alternativas idênticas, a mesma resposta correta, os mesmos valores em uma questão de logaritmo. Não é cópia, mas é próximo demais. A anulação protege a validade do exame.
E quanto aos estudantes que responderam essas questões sem ter visto a live?
Eles perdem pontos que teriam ganho. É injusto, mas é o preço de manter a integridade do teste. Se deixassem as questões, estariam validando uma vantagem que alguns tiveram e outros não.
Edcley recebeu prêmio do próprio MEC. Isso não deveria ter levantado suspeitas?
Deveria, talvez. Mas o prêmio era por desempenho acadêmico, não por integridade. Ninguém estava monitorando o que ele fazia com as informações do pré-teste. Agora estão.
A Polícia Federal vai conseguir provar quebra de confidencialidade?
Depende. Se Edcley assinou algum termo de confidencialidade ao participar do pré-teste, sim. Se não, fica mais complicado. Mas divulgar questões de um banco sigiloso é diferente de simplesmente lembrar delas. Há uma linha entre memória e vazamento.