Ele mandava mais que um coprodutor
No cruzamento entre o dinheiro, a política e a arte, emerge uma questão antiga: quem financia uma obra, até onde pode controlá-la? As mensagens reveladas pelo Intercept Brasil sugerem que Daniel Vorcaro, ex-banqueiro preso, exerceu sobre o filme 'Dark Horse' — retrato cinematográfico de Jair Bolsonaro — uma influência que transcende o papel convencional de financiador, orientando o apagamento de publicações e moldando a narrativa pública do projeto. A produtora, que primeiro negou qualquer vínculo com Vorcaro, depois admitiu que ele bancou mais de 90% do orçamento, revelando uma contradição que coloca em xeque a transparência de todo o empreendimento.
- Mensagens de WhatsApp mostram Vorcaro ordenando o apagamento de uma reportagem sobre o filme, um nível de controle editorial que especialistas do setor consideram incomum para um simples financiador.
- A produtora GoUp contradiz a si mesma: em maio afirmou publicamente que não havia 'um único centavo' de Vorcaro, mas depois reconheceu que ele financiou mais de 90% dos cerca de 13 milhões de dólares do orçamento.
- A prisão de Vorcaro deixou a equipe em pânico — folha de pagamento em aberto, gravações em andamento e nenhuma fonte de recursos, forçando uma corrida desesperada por novos apoiadores.
- Figuras políticas como Flávio Bolsonaro e Mário Frias aparecem nas conversas, ampliando o alcance da controvérsia para além do mercado audiovisual e adentrando o campo da influência política.
- Erick Bretas, ex-diretor da Globo, usa sua própria experiência como coprodutor para atestar que o poder exercido por Vorcaro era incompatível com qualquer papel legítimo no setor — 'ele mandava mais que um coprodutor'.
Erick Bretas, ex-diretor da Globo e responsável pelo Globoplay, trouxe à tona uma comparação reveladora: mesmo tendo assinado como coprodutor em 'Ainda Estou Aqui', filme premiado internacionalmente, ele jamais exerceu o tipo de controle que as mensagens atribuem a Daniel Vorcaro sobre 'Dark Horse', documentário sobre a vida de Jair Bolsonaro. Para Bretas, o ex-banqueiro 'mandava mais que um coprodutor' — uma afirmação que ganhou peso após o Intercept Brasil divulgar trocas de WhatsApp entre Vorcaro e Thiago Miranda, sócio do Portal Leo Dias.
Nas mensagens de 1º de agosto de 2025, Vorcaro reclamou que uma publicação sobre o filme era 'muito ruim'. Miranda concordou, evocou um acordo de sigilo e mencionou conversas com o deputado Mário Frias e o senador Flávio Bolsonaro. Minutos depois, confirmou ter pedido o apagamento da reportagem — um episódio que ilustra como o controle sobre a narrativa do filme extrapolava qualquer fronteira convencional entre financiamento e produção.
O financiamento em si tornou-se um campo de contradições. Karina Ferreira da Gama, dona da produtora GoUp, afirmou à GloboNews que Vorcaro bancou mais de 90% do orçamento — cerca de 13 milhões de dólares. Mas essa versão choca com declarações anteriores da própria produtora, que havia negado categoricamente qualquer recurso proveniente do banqueiro. A explicação veio depois: a prisão de Vorcaro teria forçado a equipe a buscar novos apoiadores às pressas, com gravações em andamento e salários por pagar.
O que resta dessas revelações é um retrato de poder exercido nas sombras — um financiador que moldava decisões editoriais, uma produtora que oscilou entre a negação e o reconhecimento, e figuras políticas de primeiro escalão entrelaçadas num projeto milionário. Com Vorcaro preso e o arranjo desfeito, as perguntas sobre quem realmente controlava 'Dark Horse' seguem sem resposta.
Erick Bretas, ex-diretor da Globo e responsável pelo Globoplay, saiu em defesa de uma tese incômoda: Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master, exerceu sobre o filme "Dark Horse" um tipo de controle que vai muito além do que qualquer financiador deveria ter. A afirmação veio após o Intercept Brasil divulgar mensagens de WhatsApp que mostram Vorcaro orientando Thiago Miranda, sócio do Portal Leo Dias, a apagar uma reportagem sobre a produção cinematográfica que retratava a vida do ex-presidente Jair Bolsonaro.
Bretas comparou sua própria experiência como coprodutora do Globoplay em "Ainda Estou Aqui", filme que ganhou prêmios internacionais, com o que parecia estar acontecendo em "Dark Horse". Mesmo tendo assinado o contrato como coprodutora, ele afirmou que nunca teve o poder de decisão sobre a estratégia de divulgação que as mensagens revelam ter Vorcaro. "Ele mandava mais que um coprodutor", escreveu Bretas nas redes sociais, sugerindo um grau de interferência raro no mercado audiovisual brasileiro.
As mensagens trocadas em 1º de agosto de 2025 pintam um quadro revelador. Vorcaro enviou uma mensagem a Miranda às 12h07 reclamando que a publicação do Portal Leo Dias sobre o filme era "muito ruim". Miranda respondeu minutos depois concordando e mencionando que havia um acordo prévio de sigilo. Ele citou conversas com o deputado federal Mário Frias e o senador Flávio Bolsonaro, ambos ligados ao projeto. Poucos minutos depois, Miranda confirmou ter pedido o apagamento da reportagem.
O financiamento do filme, porém, permanece envolto em contradições. Karina Ferreira da Gama, dona da produtora GoUp responsável pela produção, afirmou à GloboNews que Vorcaro bancou mais de 90% do orçamento, que chegou a aproximadamente 13 milhões de dólares. Mas essa versão contrasta radicalmente com o que a própria GoUp havia declarado publicamente em 13 de maio, quando afirmou categoricamente que não havia "um único centavo" proveniente de Vorcaro ou de suas empresas. Karina havia dito também à Folha de S.Paulo que não tinha "absolutamente nenhum recurso" dessa pessoa.
A mudança de narrativa ganhou contexto quando Karina explicou que a prisão de Vorcaro forçou a produtora a buscar novos apoiadores enquanto as gravagens já estavam em andamento. Ela descreveu um cenário de urgência: folha de pagamento para honrar, profissionais esperando pelos salários, e nenhuma fonte de financiamento. A equipe, segundo ela, "arregaçou as mangas" e saiu em busca de apoio da iniciativa privada para manter o projeto de pé.
O que emerge dessas revelações é um padrão de controle editorial que vai além do financiamento convencional. Vorcaro não apenas colocava dinheiro na produção, mas também orientava decisões sobre quando e como o filme seria divulgado publicamente. Flávio Bolsonaro, por sua vez, tem tratado Vorcaro como investidor do projeto, enquanto a produtora oscilou entre negar completamente sua participação e depois reconhecer seu papel financeiro majoritário. A prisão de Vorcaro, que interrompeu esse arranjo, deixou em aberto questões sobre quem realmente controlava as decisões sobre um filme que custou milhões de dólares e envolvia figuras políticas de primeiro escalão.
Citas Notables
Eu e as pessoas do Globoplay não tínhamos o poder de decisão na estratégia de divulgação do filme do que o Vorcaro tinha no Dark Horse— Erick Bretas, ex-diretor da Globo
Quando ele foi preso, a gente já estava filmando. Eu tinha folha de pagamento para pagar, eu já tinha profissionais para pagar— Karina Ferreira da Gama, dona da produtora GoUp
La Conversación del Hearth Otra perspectiva de la historia
Por que Bretas achou necessário sair publicamente para contestar a versão de Vorcaro como simples financiador?
Porque as mensagens revelam algo que vai além de dinheiro. Vorcaro não estava apenas pagando contas; estava dizendo o que podia ou não ser dito sobre o filme, e Miranda obedecia.
Mas Vorcaro era o principal financiador. Não teria direito a algum controle?
Talvez tivesse direito a voz, mas não ao poder de apagar reportagens de terceiros. Bretas está apontando que isso ultrapassa o que um coprodutora normal faz, mesmo uma grande como o Globoplay.
A mudança de história da GoUp sobre o financiamento é estranha. Por que negariam depois admitem?
Porque a situação era politicamente sensível. Admitir que Vorcaro financiava 90% de um filme sobre Bolsonaro era arriscado. Quando ele foi preso, não havia mais razão para manter a ficção.
E Miranda, o sócio do Portal Leo Dias? Ele estava sendo coagido ou era cúmplice?
As mensagens sugerem que ele concordava com Vorcaro e tinha seus próprios interesses no projeto. Mas também menciona Flávio e Mário Frias, o que indica que havia uma rede maior de pessoas envolvidas nas decisões.
O que muda agora que Vorcaro está preso?
A produtora perdeu seu financiador principal no meio das gravações. Tiveram que improvisar, buscar novos apoiadores. O filme continua, mas sem a mão invisível que antes controlava o que era dito sobre ele.