Egito descobre cidade bizantina preservada no deserto ocidental

Vozes de pessoas comuns, registradas em cacos de barro, falando sobre negócios e assuntos do dia a dia
Fragmentos de cerâmica antiga revelam correspondências e transações comerciais de 1.700 anos atrás.

Cidade inclui basílica do século IV, torres de vigia, casas fortificadas e espaços públicos organizados em padrão urbano estruturado. Artefatos encontrados incluem moedas de ouro e bronze, cerâmica com inscrições comerciais e domésticas, fornos de pão e ferramentas de moagem.

  • Cidade residencial do século IV no Oásis de Dakhla, com basílica, torres de vigia e casarões fortificados
  • Cerca de 200 fragmentos de cerâmica (óctraca) com inscrições comerciais e domésticas
  • Moedas de ouro do imperador Constâncio II (337-361) e moedas de bronze com símbolos cristãos
  • Sítio está na Lista Indicativa da Unesco, a um passo do Patrimônio Mundial
  • Segunda descoberta: 18 tumbas em Marina el-Alamein com sarcófago de granito de 2,5 metros e moedas de ouro funerárias

Egito anuncia descoberta de cidade residencial bem preservada da era bizantina no Oásis de Dakhla, revelando detalhes da vida cotidiana, desenvolvimento urbano e atividades econômicas do século IV.

No deserto ocidental do Egito, arqueólogos desenterraram uma cidade inteira do século IV — ruas, casarões, uma basílica, torres de vigia, fornos de pão — tudo preservado sob a areia do Oásis de Dakhla. O anúncio chegou no sábado, 4 de julho, como parte de duas grandes descobertas que o país apresentou ao mundo, e marca um momento raro em que a arqueologia egípcia oferece um retrato quase completo de como as pessoas viviam quando o Egito era parte do Império Bizantino.

O que os escavadores encontraram não é um palácio ou um templo isolado, mas um assentamento urbano inteiro. As ruas corriam de norte a sul, cruzadas por vias leste-oeste, criando praças abertas e espaços públicos onde a vida pública acontecia. No topo dessa malha urbana ficava uma basílica que data de meados do século IV, com vista para as principais artérias da cidade. Duas torres de vigia protegiam os arredores. Mahmoud Massoud, que preside a missão arqueológica, descreveu estruturas fortemente fortificadas com muralhas defensivas espessas e casarões compostos por salões de recepção e telhados abobadados — a arquitetura de gente com recursos.

Entre essas casas estava a residência de Tisous, identificada como pertencente a um diácono da igreja. Os arqueólogos acreditam que ela funcionou como uma igreja doméstica antes da construção da basílica maior. Mas o que torna essa descoberta tão valiosa não são apenas os edifícios. Foram encontrados fornos de pão, cozinhas e ferramentas de moagem de pedra que revelam como a população produzia alimento. Moedas de bronze bem preservadas trazem retratos de imperadores bizantinos, inscrições em latim e símbolos cristãos. Um conjunto de moedas de ouro data do reinado do imperador Constâncio II, que governou entre 337 e 361.

Mas talvez o achado mais intrigante seja a coleção de cerca de 200 fragmentos de cerâmica conhecidos como óctraca — pedaços de barro que os antigos usavam como papel. Diaa Zahran, chefe do departamento de Antiguidades Islâmicas, Coptas e Judaicas, explicou que esses fragmentos contêm inscrições que detalham transações comerciais, correspondências e aspectos da vida cotidiana. São vozes de pessoas comuns, registradas em cacos de barro, falando sobre negócios e assuntos do dia a dia.

O Oásis de Dakhla, localizado na província de Novo Vale, já estava na Lista Indicativa da Unesco — um passo antes de ser adicionado à Lista do Patrimônio Mundial. Essa descoberta reforça seu candidato. Para o Egito, que enfrenta dificuldades financeiras, o turismo é uma fonte crucial de divisas estrangeiras, junto com o Canal de Suez. Arqueologia bem divulgada atrai visitantes.

A segunda grande descoberta anunciada no mesmo dia veio de Marina el-Alamein, a cerca de 100 quilômetros a oeste de Alexandria, na costa mediterrânea. Ali, arqueólogos encontraram 18 tumbas antigas. Uma delas continha um sarcófago de granito com 2,5 metros de comprimento. Perto dele, os restos de uma estátua de gesso de uma esfinge. Eman Abdel-Khaliq, chefe da missão, relatou que em quatro dos falecidos foram encontradas moedas de ouro colocadas dentro da boca — uma prática funerária conhecida como "língua de ouro", associada às crenças sobre a vida após a morte naquela época.

O que essas descobertas compartilham é a capacidade de devolver à vida um período histórico que, para a maioria das pessoas, permanecia abstrato. Não são apenas artefatos em vitrines de museu. São as ruas onde as pessoas caminhavam, as casas onde dormiam, os fornos onde assavam pão, as moedas que trocavam, as palavras que escreviam em cacos de cerâmica. É a vida cotidiana de 1.700 anos atrás, preservada sob a areia, esperando para ser lida.

Os fragmentos contêm inscrições que detalham transações comerciais, correspondências e outros aspectos da vida cotidiana
— Diaa Zahran, chefe do departamento de Antiguidades Islâmicas, Coptas e Judaicas
Uma estrutura fortemente fortificada com grossas muralhas defensivas e muitas casas compostas por salões de recepção e telhados abobadados
— Mahmoud Massoud, presidente da missão arqueológica
A Conversa do Hearth Outra perspectiva sobre a história
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Por que essa cidade no deserto foi tão bem preservada? Parece quase intacta.

Model

A areia é um conservador extraordinário. Quando uma cidade é abandonada e coberta pela areia do deserto, ela fica selada — sem umidade excessiva, sem oxigênio para apodrecer a matéria orgânica, sem pessoas perturbando as camadas. É como um congelador natural.

Inventor

E como os arqueólogos sabem que essa era uma cidade de verdade, não apenas um acampamento ou um assentamento temporário?

Model

A estrutura urbana conta a história. Ruas organizadas em padrão de grade, praças públicas, uma basílica no centro — isso não é acidental. É planejamento. Além disso, encontraram casarões com múltiplos cômodos, fornos de pão, ferramentas de moagem. Isso indica permanência, vida estabelecida.

Inventor

Esses fragmentos de cerâmica com inscrições — o que eles dizem realmente?

Model

Transações comerciais, correspondências pessoais, registros do dia a dia. São como bilhetes de gente comum. Alguém escreveu sobre um negócio, uma dívida, uma entrega. São vozes que atravessaram 1.700 anos.

Inventor

A moeda de ouro na boca dos mortos — isso era uma prática comum?

Model

Era uma crença funerária. As pessoas acreditavam que os mortos precisavam de moeda para pagar a passagem para o outro mundo. Encontrar essas moedas ainda no lugar significa que os túmulos nunca foram saqueados, nunca foram perturbados.

Inventor

Por que o Egito está anunciando isso agora, tão publicamente?

Model

Turismo. O país enfrenta dificuldades financeiras. Patrimônio arqueológico bem divulgado atrai visitantes, gera receita. Mas também há algo genuíno aqui — essas descobertas são significativas. O Oásis de Dakhla está perto de ser declarado Patrimônio Mundial da Unesco.

Inventor

O que vem a seguir para esses sítios?

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Escavação contínua, estudo dos artefatos, documentação. Eventualmente, museus e possivelmente acesso ao público. Mas há muito ainda sob a areia. Essas descobertas são apenas o começo.

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