Os resultados desse radicalismo não fez bem aos cariocas
No domingo de novembro de 2020, o Rio de Janeiro voltou a confiar a Eduardo Paes as chaves de uma cidade que ele já havia governado por oito anos. Com 64% dos votos, o resultado foi menos uma escolha entusiasmada do que um veredicto coletivo contra o presente — contra Crivella, contra a influência de Bolsonaro nas urnas municipais, contra quatro anos de avaliação negativa. Paes retorna não ao Rio das Olimpíadas, mas a uma cidade de orçamento apertado e expectativas práticas, onde a grandeza prometida terá de caber dentro de 2,2% de capacidade de investimento.
- A vitória de 64% não deixou margem para interpretação: a rejeição a Crivella foi tão intensa quanto a derrota de Bolsonaro como cabo eleitoral nas grandes capitais.
- Paes chegou ao segundo turno carregando duas ações penais por corrupção e uma investigação federal sobre milhões depositados no exterior pela Odebrecht — e venceu assim mesmo, sustentado por uma liminar e pelo apoio crítico de quase todos os partidos derrotados no primeiro turno.
- O DEM consolida com o Rio sua maior conquista municipal, transformando a capital fluminense no símbolo do crescimento do partido nas eleições de 2020.
- O prefeito eleito herda uma cidade sem Olimpíada, sem grandes repasses federais e com taxa de investimento prevista em apenas 2,2% — menos de um sexto do que ele próprio praticou em seu segundo mandato.
- Em vez de prometer transformação, Paes apostou na comparação: sua gestão anterior contra os quatro anos de Crivella, e essa estratégia se mostrou suficiente para vencer.
Eduardo Paes venceu a eleição para a Prefeitura do Rio de Janeiro no domingo, 29 de novembro de 2020, com 64,07% dos votos válidos, derrotando o atual prefeito Marcelo Crivella. Era o retorno de quem havia governado a cidade entre 2009 e 2016, período marcado pelos Jogos Olímpicos e por investimentos federais que agora não mais existiam.
No discurso da vitória, ao lado do presidente da Câmara Rodrigo Maia, Paes enquadrou seu triunfo como um repúdio ao radicalismo político. Sobre a pandemia, rejeitou lockdowns e prometeu ampliar leitos e testagem. A rejeição a Crivella foi o motor principal da vitória: o prefeito saía com avaliação negativa e sem conseguir convencer os eleitores sobre as falhas dos últimos quatro anos. O apoio de Bolsonaro a Crivella, longe de ajudar, expôs a fraqueza do presidente nas eleições municipais.
Para Paes, a vitória encerrava uma sequência de dois reveses consecutivos — a derrota de seu candidato à sucessão em 2016 e sua própria derrota ao governo do estado em 2018. Com o Rio, o DEM consolidava seu crescimento e ganhava sua principal base de poder nas grandes cidades do país.
Mas o Rio que Paes assume em janeiro de 2021 é muito diferente do que ele deixou. Sem Olimpíada para justificar repasses federais, a taxa de investimento prevista para 2021 é de apenas 2,2% — contra os mais de 13% de seu segundo mandato. Crivella não ultrapassou 3% em quatro anos, pressionado pela crise e pelas dívidas. Essa realidade fiscal moldou a campanha: em vez de grandes obras, Paes prometeu melhorar saúde e transporte.
O prefeito eleito também superou acusações pesadas. Era réu em duas ações penais por supostos benefícios a empreiteiras e alvo de investigação federal sobre milhões depositados no exterior pela Odebrecht. Uma liminar suspendeu a condenação eleitoral que o impediria de concorrer, permitindo que disputasse enquanto o TSE ainda não havia julgado o mérito. Paes iniciará um terceiro mandato não consecutivo numa cidade que exige soluções práticas — não promessas de transformação.
Eduardo Paes retornou ao comando do Rio de Janeiro no domingo, 29 de novembro de 2020, com uma votação que não deixava dúvidas sobre o resultado. Com todas as urnas apuradas, o ex-prefeito de 51 anos conquistou 64,07% dos votos válidos, deixando para trás o atual mandatário Marcelo Crivella, que ficou com 35,93%. Era o retorno de quem havia governado a cidade entre 2009 e 2016, oito anos marcados pela organização dos Jogos Olímpicos e por investimentos federais volumosos que agora não mais existiam.
No discurso da vitória, Paes enquadrou seu triunfo como um repúdio ao radicalismo político que havia dominado o debate público nos últimos anos. Ao lado de Rodrigo Maia, presidente da Câmara que permaneceu ausente durante toda a campanha, o prefeito eleito falou sobre a necessidade de retomar uma "boa política" e recuperar a identidade carioca. Sua posição sobre a pandemia de coronavírus foi clara: rejeitava lockdowns e prometia ampliar leitos hospitalares e aumentar a testagem como estratégia de combate à doença.
A rejeição a Crivella foi o motor principal dessa vitória. O atual prefeito chegava ao fim de seu mandato com avaliação negativa dos eleitores, incapaz de convencer a maioria sobre suas explicações de falta de recursos para justificar as falhas dos últimos quatro anos. A derrota foi ainda mais acentuada porque Crivella contava com o apoio do presidente Jair Bolsonaro, cuja influência nas eleições municipais havia se mostrado fraca desde o primeiro turno. Paes, por sua vez, conseguiu reunir o que as pesquisas chamavam de "apoio crítico" de praticamente todos os partidos que haviam sido derrotados na primeira rodada de votação.
O retorno de Paes à prefeitura encerrava uma sequência de duas derrotas políticas consecutivas. Em 2016, seu candidato à sucessão, o deputado Pedro Paulo, nem chegou ao segundo turno. Dois anos depois, o próprio Paes perdeu a eleição ao governo do estado para Wilson Witzel. Agora, com a vitória no Rio, o DEM consolidava seu crescimento nas eleições municipais e transformava a capital fluminense em sua principal base de poder nas grandes cidades do país. Era a quarta vez que um membro do partido assumiria a prefeitura, considerando os três mandatos de César Maia e o de Luiz Paulo Conde.
Mas Paes assumiria uma cidade muito diferente daquela que havia deixado. Não havia Olimpíada para justificar grandes repasses federais. A capacidade de investimento estava reduzida. Durante seu segundo mandato, a taxa de investimentos havia ficado sempre acima de 13%, impulsionada pelas obras olímpicas e por empréstimos de bancos públicos. Crivella não conseguiu ultrapassar 3% em investimentos, pressionado pela crise econômica e pelas despesas com amortização de dívidas. O orçamento previsto para 2021 apontava uma taxa de investimento de apenas 2,2% para despesas estimadas em 32,4 bilhões de reais.
Essa realidade fiscal moldou a campanha de Paes. Em vez de prometer grandes obras, ele focou em melhorar a prestação de serviços, particularmente em saúde e transporte. Comparou constantemente sua gestão anterior com a de Crivella, argumentando que seu sucessor não havia sabido gerir a cidade diante das dificuldades financeiras. Paes também superou as acusações de corrupção que pesavam sobre ele. Era réu em duas ações penais por supostos benefícios dados a empreiteiras que teriam repassado recursos via caixa dois para suas campanhas. O Ministério Público Federal ainda investigava o destino de 5,75 milhões de dólares depositados no exterior pela Odebrecht em 2012. Mas uma liminar havia suspendido os efeitos de uma condenação eleitoral de 2018 que o impediria de se candidatar, permitindo que ele disputasse a eleição enquanto o Tribunal Superior Eleitoral ainda não havia julgado o mérito do caso.
Crivella deixava a prefeitura após três tentativas frustradas de chegar ao cargo e duas ao governo do estado, carregando o peso da rejeição à Igreja Universal, da qual era bispo licenciado. Pela primeira vez desde 2003, quando havia sido eleito senador, o político ficaria sem mandato. Paes, por sua vez, iniciava um terceiro mandato não consecutivo na prefeitura carioca, repetindo a trajetória de seu primeiro padrinho político, César Maia, de quem havia se reaproximado. A carreira de Paes havia sido marcada por mudanças de partidos e padrinhos políticos, mas dessa vez ele havia evitado nacionalizar a disputa e apontar seus aliados, apostando tudo na comparação entre suas gestões e a de Crivella. Assumiria em 1º de janeiro de 2021 uma cidade que exigia soluções práticas, não promessas de transformação.
Citas Notables
Essa é uma vitória dos que acreditam na boa política. Os resultados desse radicalismo, desse quadro de extremos, de muito ódio e divisão não fez bem aos cariocas e brasileiros— Eduardo Paes, em discurso de vitória
Olha quantas pessoas foram presas desde 2014. Eu estou aqui. Só estou disputando com você porque sou Ficha Limpa— Eduardo Paes, respondendo a Crivella em debate televisivo
La Conversación del Hearth Otra perspectiva de la historia
Por que a margem de vitória foi tão grande? Paes conquistou quase dois terços dos votos.
Crivella chegou ao fim do mandato muito desgastado. As pessoas estavam insatisfeitas com a qualidade dos serviços, e ele não conseguiu explicar bem por que não tinha recursos. Quando um prefeito fica impopular assim, qualquer alternativa parece melhor.
Mas Paes também enfrentava acusações de corrupção. Como ele conseguiu se eleger apesar disso?
Porque conseguiu enquadrar a questão de forma diferente. Disse que havia muita gente presa desde 2014 e que ele ainda estava ali, candidato. A rejeição a Crivella e ao Bolsonaro, que o apoiava, foi tão forte que ofuscou tudo mais.
A vitória dele consolida o poder do DEM nas grandes cidades?
Sim. O Rio é a segunda maior capital eleitoral do país. Ter o DEM governando lá dá muito peso ao partido nas negociações presidenciais de 2022. É uma base sólida.
Qual é o maior desafio que Paes vai enfrentar quando assumir?
O orçamento. Ele governou com Olimpíada e dinheiro federal abundante. Agora vai ter que fazer mais com muito menos. A taxa de investimento vai cair de 13% para 2,2%. Isso muda completamente o que é possível fazer.
Ele prometeu grandes obras?
Não. Aprendeu a lição. Focou em melhorar saúde e transporte, serviços básicos que as pessoas usam todo dia. É uma estratégia mais realista para o momento.