O vírus propaga-se mais depressa do que a resposta consegue acompanhar
Na encruzilhada entre a biologia e a fragilidade humana, a República Democrática do Congo enfrenta o surto de Ébola mais veloz já registado — não apenas mais rápido do que epidemias anteriores do vírus Bundibugyo, mas mais rápido do que qualquer forma conhecida desta doença. Com mais de 600 mortes e casos a surgir em províncias até agora poupadas, a crise revela uma verdade incómoda: a velocidade do vírus supera a capacidade de resposta, e os profissionais de saúde que combatem a epidemia fazem-no sem a certeza de receber o seu salário.
- O vírus Bundibugyo está a disseminar-se mais depressa do que qualquer surto de Ébola alguma vez registado, superando a capacidade de resposta das autoridades e dos parceiros internacionais.
- Novos casos suspeitos aparecem em províncias antes não afetadas, incluindo um sem qualquer ligação geográfica a focos conhecidos — sinal de que o vírus encontrou caminhos de transmissão invisíveis.
- Dezenas de trabalhadores das equipas de resposta protestaram em Bunia por salários em atraso, com a ameaça de greve a pairar sobre três centros de tratamento no epicentro da crise.
- O ministro da Saúde congolês admitiu falhas nas listas de pagamento, enquanto o Africa CDC tenta mobilizar fundos para cobrir os atrasos e manter os profissionais de saúde no terreno.
- O surto já atravessou fronteiras, com 20 casos confirmados no Uganda, e a ausência de vacina ou tratamento específico para este tipo de Ébola agrava a vulnerabilidade de toda a região.
Na quinta-feira, a agência de saúde da União Africana confirmou o que muitos temiam: o surto de Ébola na República Democrática do Congo está a alastrar mais depressa do que qualquer epidemia anterior — não apenas entre surtos do vírus Bundibugyo, mas entre todos os tipos de Ébola conhecidos. O Dr. Wessam Mankoula, chefe de emergências do Africa CDC, foi claro: o vírus propaga-se mais rapidamente do que os recursos mobilizados para o conter.
Declarado oficialmente a 15 de maio na província de Ituri, o surto já causou mais de 600 mortes entre 1.759 casos confirmados. A geografia da doença expande-se de forma inquietante: casos suspeitos surgiram em Kisangani e em Haut-Uele, províncias até agora poupadas. Um desses casos não apresentava qualquer ligação aparente a focos conhecidos — um sinal de que o vírus está a encontrar novos caminhos.
A resposta é ainda ameaçada por uma crise dentro da crise. Dezenas de membros das equipas de resposta protestaram em Bunia por salários em atraso, com a ameaça de greve sobre três centros de tratamento. O ministro da Saúde congolês reconheceu falhas no «pilar de recursos humanos», admitindo que as listas de pagamento estavam desatualizadas. O Africa CDC disponibilizou cerca de dois milhões de dólares ao Congo, parte dos quais poderá cobrir os atrasos. Negociações com os trabalhadores estavam em curso, mas nenhuma greve tinha ainda começado.
O contexto agrava tudo: não existe vacina nem tratamento específico para o vírus Bundibugyo, e a RDC já viveu 17 surtos anteriores. O Uganda registou 20 casos, incluindo duas mortes. A epidemia mais mortífera da história do Ébola, na África Ocidental entre 2013 e 2016, vitimou mais de 11.300 pessoas. Desta vez, o vírus move-se mais depressa, os recursos são mais escassos, e os profissionais que combatem a doença não sabem se receberão o seu ordenado no fim do mês.
Na quinta-feira, a agência de saúde da União Africana soou o alarme: o surto de Ébola que assola a República Democrática do Congo está a alastrar-se mais depressa do que qualquer epidemia anterior registada. O Dr. Wessam Mankoula, chefe de emergências do Centro de Controlo e Prevenção de Doenças de África, foi direto na conferência de imprensa online: o vírus propaga-se mais rapidamente do que a capacidade de resposta consegue acompanhar, mais depressa do que os recursos mobilizados para o controlar. Não se trata apenas de uma aceleração comparada com outros surtos do vírus Bundibugyo — é a disseminação mais rápida jamais vista entre todos os tipos de Ébola conhecidos.
Desde que foi oficialmente declarado a 15 de maio na província de Ituri, o surto já causou mais de 600 mortes confirmadas entre 1.759 casos registados. A geografia da doença está a expandir-se de forma preocupante. Enquanto Ituri permanece o epicentro, suspeitas de novos casos começaram a surgir em províncias que até agora tinham sido poupadas. O Ministério da Saúde congolês confirmou dois casos suspeitos em Kisangani, na província de Tshopo, e outros em Haut-Uele. Um desses casos em Tshopo estava ligado à zona de saúde de Nia-Nia em Ituri, onde tudo começou. O outro, porém, não apresentava qualquer ligação geográfica aparente com focos conhecidos — um sinal de que o vírus está a encontrar novos caminhos de transmissão.
A crise humanitária é agravada por um problema que deveria ser simples de resolver: o dinheiro. Na quinta-feira, dezenas de membros das equipas de resposta ao Ébola no nordeste da RDC realizaram protestos em frente a três centros de tratamento em Bunia, a capital de Ituri. Alegavam que não tinham recebido os seus salários na totalidade. A polícia dispersou um dos protestos, junto ao Centro Médico Evangélico. Não ficou imediatamente claro se as operações nos centros foram interrompidas, mas a ameaça pairava no ar: se os pagamentos não fossem retomados, os trabalhadores entrariam em greve.
O ministro da Saúde congolês, Samuel Roger Kamba, reconheceu publicamente que havia problemas com o «pilar de recursos humanos» da resposta — um eufemismo para dizer que as listas de quem deveria ser pago estavam desatualizadas e incorretas. Mankoula afirmou estar a trabalhar com as autoridades congolesas para agilizar os pagamentos aos profissionais de saúde na linha da frente. O Africa CDC tinha fornecido ao Congo cerca de dois milhões de dólares para apoiar a resposta, parte dos quais poderia ser utilizado para cobrir atrasos salariais. Um responsável congolês, que pediu anonimato, disse à Reuters que negociações estavam em curso com os trabalhadores que ameaçavam fazer greve, mas que até à data nenhuma greve tinha começado.
O contexto histórico torna a situação ainda mais grave. A RDC já viveu 17 surtos de Ébola anteriormente, mas não existe vacina ou tratamento específico para o vírus Bundibugyo. A Organização Mundial de Saúde tinha alertado a 19 de maio para a «escala e velocidade» da propagação no leste do país. Médicos Sem Fronteiras manifestou preocupação em meados de junho sobre as «lacunas perigosas» na resposta, que estava a progredir mais rapidamente do que a capacidade de reação.
O vírus também atravessou as fronteiras. No Uganda, foram confirmados 20 casos de infeção, incluindo 15 importados da RDC, com duas mortes registadas. A comparação com o passado é sombria: a epidemia de Ébola mais violenta da história, que assolou a África Ocidental entre o final de 2013 e 2016, provocou mais de 11.300 mortes em cerca de 29.000 casos. Desta vez, o vírus está a mover-se mais depressa, os recursos estão mais escassos, e os profissionais que combatem a doença não sabem se receberão o seu ordenado no final do mês.
Citações Notáveis
O vírus continua a espalhar-se mais rapidamente do que a nossa capacidade de resposta— Dr. Wessam Mankoula, chefe de emergências do Africa CDC
Continuamos a enfrentar a epidemia de Ébola com a propagação mais rápida alguma vez registada— Dr. Wessam Mankoula
A Conversa do Hearth Outra perspectiva sobre a história
Porque é que este surto é diferente dos anteriores? Parece que o vírus em si é mais agressivo?
Não é necessariamente o vírus que mudou. É a velocidade com que se espalha através das populações. Os sistemas de resposta — rastreamento de contactos, isolamento, tratamento — estão a ficar para trás. É como tentar apagar um incêndio quando a água chega mais lentamente do que as chamas avançam.
E os novos casos em províncias que não tinham sido afetadas — isso significa que perderam o controlo?
Significa que o vírus encontrou novos caminhos. Um dos casos em Tshopo não tem ligação aparente com Ituri. Isso sugere transmissão comunitária que não estava a ser rastreada, ou que o vírus chegou através de rotas que ninguém estava a monitorizar.
Os protestos dos trabalhadores de saúde — isso é apenas uma questão de dinheiro, ou há algo mais profundo?
É dinheiro, mas o dinheiro é tudo. Se os profissionais não confiam que serão pagos, abandonam o trabalho. E quando os centros de tratamento perdem pessoal, o vírus ganha espaço. É um colapso que começa com folhas de pagamento.
Quanto tempo até que isto se torne incontrolável?
Já está a tornar-se. A OMS e Médicos Sem Fronteiras estão a dizer que a resposta está a ficar para trás. Se as greves começarem, se os recursos não chegarem, o que vemos agora é apenas o início.