Resultados em animais não garantem os mesmos resultados em humanos
Desde setembro de 2021, uma mensagem distorcida circula pelas redes sociais afirmando que a União Europeia teria abandonado as vacinas contra a Covid-19 em favor da ivermectina — uma alegação que inverte o sentido de um comunicado oficial que, na verdade, reafirma a vacinação como pilar central da resposta europeia à pandemia. O estudo do Instituto Pasteur citado como prova foi conduzido em hamsters, e a OMS recomenda a ivermectina apenas em contextos clínicos controlados, sem reconhecê-la como preventivo. A desinformação persiste não por falta de clareza científica, mas pela força com que narrativas alarmistas encontram terreno fértil em tempos de incerteza coletiva.
- Uma mensagem viral com tom de urgência afirma que, a partir de 20 de outubro de 2021, todas as vacinas contra Covid-19 seriam canceladas na Europa — criando pânico e confusão entre leitores despreparados para verificar a fonte.
- O texto usa um link legítimo da Comissão Europeia para simular credibilidade, mas o documento original não menciona ivermectina em nenhum momento e coloca a vacinação no topo da estratégia de saúde pública.
- Um estudo do Instituto Pasteur citado como prova científica foi realizado em hamsters, não em humanos — uma distinção fundamental que a mensagem omite deliberadamente.
- A OMS descartou o uso preventivo da ivermectina e restringe sua recomendação a ensaios clínicos controlados, enquanto a ciência ainda aguarda evidências robustas em seres humanos.
- Cinco agências independentes de fact-checking — Aos Fatos, Estadão Verifica, AFP Checamos, Agência Lupa e Boatos.org — chegaram à mesma conclusão: a alegação é inteiramente falsa.
Uma mensagem falsa que circula desde setembro de 2021 afirma que a União Europeia anunciou o fim das vacinas contra Covid-19, substituindo-as pela ivermectina. Para parecer legítima, inclui um link para o site da Comissão Europeia — mas o documento original, redigido em francês, não cita ivermectina em nenhum ponto. Pelo contrário: destaca a vacinação como o melhor caminho para o mundo retornar à normalidade.
O comunicado oficial trata de cinco medicamentos em estudo para tratar pacientes já infectados. Stefan De Keersmaecker, porta-voz da Comissão Europeia, foi claro: vacinação e desenvolvimento de terapêuticas são estratégias complementares, não excludentes — uma previne a doença, a outra a trata quando ela ocorre.
A mensagem também afirma que pesquisadores do Instituto Pasteur reconheceram cientificamente a ivermectina como eficaz contra a Covid-19. O estudo existe, mas foi realizado em hamsters. O medicamento protegeu os animais de desenvolverem sintomas, mas não impediu a replicação viral — e o próprio Instituto Pasteur classificou os dados como pré-clínicos, ainda distantes de qualquer aplicação segura em humanos.
A OMS recomenda a ivermectina apenas em ensaios clínicos controlados e descartou seu uso preventivo. A metodologia científica exige múltiplos testes bem estruturados antes de qualquer conclusão definitiva — resultados em animais não se traduzem automaticamente em eficácia humana. A verificação foi confirmada por cinco agências de fact-checking, todas unânimes: a alegação é falsa, e representa uma distorção deliberada de um documento que reafirma, não abandona, o papel central das vacinas.
Uma afirmação que circula há meses pelas redes sociais sustenta que a União Europeia anunciou o fim das vacinas contra a Covid-19 em favor da ivermectina. A alegação é falsa. O que existe é um comunicado oficial da Comissão Europeia, publicado em junho, sobre cinco tratamentos coadjuvantes em estudo — nenhum deles a ivermectina — e que em nenhum momento propõe substituir a vacinação.
A mensagem viral, compartilhada desde setembro com sucessivas alterações, apresenta tom alarmista e afirma que "a partir de 20.10.2021, covid trial e proteção de vacinas para covid-19 serão cancelados todos na Europa". Para ganhar aparência de credibilidade, o texto inclui um link para o site da Comissão Europeia e menciona uma suposta lista de novas terapias. Mas o documento original, redigido em francês, não cita ivermectina em lugar algum. Mais que isso: no topo da página, a vacina é explicitamente destacada como o melhor caminho para o mundo retornar à vida normal.
O comunicado oficial trata especificamente de cinco medicamentos em desenvolvimento para o tratamento de pacientes já infectados. A Comissão Europeia deixa claro que essa estratégia funciona em paralelo com a vacinação, não em substituição a ela. Stefan De Keersmaecker, porta-voz de saúde, segurança alimentar e transporte da Comissão, explicou a iniciativa ao Portal G1: a vacinação e o desenvolvimento de terapêuticas são totalmente compatíveis e ambas são necessárias — uma para prevenir a doença, outra para tratá-la quando ela ocorre.
A mensagem viral contém uma segunda falsidade. Afirma que "a ivermectina foi cientificamente reconhecida como uma droga eficaz na prevenção e tratamento de covid-19 por pesquisadores do Instituto Pasteur, França". O estudo mencionado existe e foi publicado na Revista EMBO Molecular Medicine, mas há um detalhe crucial: foi realizado em hamsters, não em humanos. A pesquisa mostrou que o medicamento protegeu os animais de desenvolverem sintomas durante a infecção, mas não impediu a replicação do vírus em seus organismos. O Instituto Pasteur ressaltou que os dados são pré-clínicos — isto é, ainda muito distantes de uma aplicação segura em pessoas.
A Organização Mundial da Saúde recomenda o uso de ivermectina apenas dentro de análises clínicas controladas, enquanto não há comprovação de sua eficácia. A OMS também descartou explicitamente o uso preventivo do medicamento. Conforme a metodologia científica rigorosa, uma substância só é considerada eficaz contra uma doença após passar por vários testes clínicos bem estruturados. Resultados em animais não garantem os mesmos resultados em humanos — essa é uma das razões pelas quais a pesquisa leva anos para chegar a conclusões definitivas.
A verificação dessa desinformação foi realizada por múltiplas agências de fact-checking: Aos Fatos, Estadão Verifica, AFP Checamos, Agência Lupa e Boatos.org. Todos chegaram à mesma conclusão: a alegação de que a União Europeia substituiria vacinas por ivermectina é inteiramente falsa. O que existe é uma distorção deliberada de um comunicado oficial que, na verdade, reafirma o papel central da vacinação na estratégia europeia contra a Covid-19.
Citações Notáveis
A vacinação e o desenvolvimento de terapêuticas são totalmente compatíveis e ambas são necessárias — uma para prevenir a doença, outra para tratá-la quando ela ocorre— Stefan De Keersmaecker, porta-voz de saúde da Comissão Europeia
Os dados do estudo são pré-clínicos e a OMS recomendou o uso do medicamento apenas em análises clínicas, enquanto não existe comprovação para o tratamento— Instituto Pasteur
A Conversa do Hearth Outra perspectiva sobre a história
Por que essa mensagem específica sobre ivermectina e União Europeia conseguiu viralizar tanto?
Porque toca em dois medos simultâneos: desconfiança nas vacinas e esperança em uma alternativa simples. A ivermectina é um medicamento barato e conhecido há décadas. Quando alguém diz que uma instituição poderosa como a UE a escolheria no lugar da vacina, parece uma revelação libertadora.
Mas o comunicado original da Comissão Europeia realmente existe?
Existe, sim. Publicado em junho. O problema é que foi completamente deturpado. O documento fala de terapias para tratar pacientes já doentes, não para substituir prevenção. E não menciona ivermectina em lugar algum.
E quanto ao estudo do Instituto Pasteur que a mensagem cita?
Existe também, mas foi feito em hamsters. As pessoas leem "Instituto Pasteur prova eficácia" e pulam a parte crucial: foi em animais, não em humanos. E mesmo nos hamsters, o medicamento não impediu o vírus de se replicar.
Qual é o risco real de uma mensagem assim continuar circulando?
Pessoas podem deixar de se vacinar ou abandonar a vacinação acreditando que uma alternativa melhor está vindo. Enquanto isso, a OMS deixa claro que ivermectina só está sendo testada em análises clínicas controladas, sem comprovação ainda.
Por que tantas agências de fact-checking checaram a mesma coisa?
Porque a mensagem era viral e prejudicial. Quando desinformação sobre saúde pública se espalha, múltiplas organizações trabalham para desmentir simultaneamente. É uma resposta proporcional ao dano potencial.
O que diferencia um estudo pré-clínico de um resultado real?
Tudo. Um estudo pré-clínico é o primeiro passo. Depois vêm testes em humanos, depois análises de segurança, depois aprovação regulatória. Pode levar anos. Dizer que um resultado em hamsters é "prova científica" é pular todas essas etapas.