É falso que Japão declarou ivermectina mais eficaz que vacinas contra covid-19

Conteúdo falso representa risco à saúde pública ao desestimular vacinação e promover medicamento ineficaz contra covid-19, potencialmente afetando decisões de tratamento de milhões de pessoas.
Governo recomenda vacinação, não ivermectina
Embaixada do Japão confirma que não há aprovação do medicamento antiparasitário para covid-19 no país.

Em julho de 2022, uma mensagem viral atribuiu ao Japão uma declaração que o país jamais fez: a de que a ivermectina seria superior às vacinas contra a covid-19. O Projeto Comprova investigou e encontrou o oposto — a Embaixada japonesa e a agência reguladora PMDA confirmaram que o medicamento não está aprovado para esse fim, e que o governo continua recomendando a vacinação. O episódio revela como narrativas fabricadas, muitas vezes originadas em fontes distantes e ideologicamente motivadas, podem atravessar fronteiras e colocar em risco decisões de saúde de milhões de pessoas.

  • Um tuíte com quase 15 mil curtidas e mais de 4.700 compartilhamentos espalhava a mentira de que o Japão havia trocado vacinas por ivermectina — uma afirmação capaz de influenciar escolhas médicas reais.
  • O vídeo que acompanhava a postagem vinha de uma empresa indiana de mídia alternativa e afirmava que países ocultavam a 'cura' da ivermectina por causa de contratos irrevogáveis com a Pfizer.
  • A Embaixada do Japão no Brasil respondeu diretamente: não há qualquer processo de aprovação da ivermectina para covid-19, e o governo japonês recomenda ativamente a vacinação.
  • A ciência é clara — Anvisa, OMS e a própria bula do medicamento confirmam que a ivermectina não tem eficácia comprovada contra vírus, sendo formulada para combater parasitas.
  • Com 81% da população vacinada até julho de 2022, o Japão seguia exatamente o caminho oposto ao descrito na desinformação viral.
  • A verificação chegou tarde para muitos: a mesma alegação já circulava desde novembro de 2021, e múltiplas agências de checagem precisaram desmentir versões diferentes da mesma mentira.

Em julho de 2022, um tuíte afirmava categoricamente que o Japão havia declarado a ivermectina mais eficaz contra a covid-19 do que as vacinas. O post vinha acompanhado de um vídeo que sugeria que o país asiático estava abandonando a vacinação em favor do medicamento antiparasitário. A mensagem acumulou quase 15 mil curtidas e mais de 4.700 compartilhamentos antes de ser investigada.

O Projeto Comprova consultou diretamente a Embaixada do Japão no Brasil, que foi categórica: não existe nenhum processo de aprovação da ivermectina para tratar covid-19 no país. A agência reguladora japonesa PMDA confirma isso em sua lista oficial de medicamentos autorizados — que inclui Remdesivir, Molnupiravir e outros, mas não a ivermectina. O governo japonês, ao contrário do que o vídeo sugeria, recomenda ativamente a vacinação.

O vídeo tinha origem em uma empresa de mídia indiana chamada The Frustrated Indian, que se apresenta como alternativa aos meios convencionais. A narração afirmava que países escondiam a suposta eficácia da ivermectina por causa de contratos com a Pfizer que não podiam ser cancelados. A narrativa era sedutora — e inteiramente falsa.

A ciência sobre o tema é consolidada. A Anvisa afirma que o uso da ivermectina para covid-19 não está previsto em bula e não teve respaldo regulatório. A OMS recomenda seu uso apenas em pesquisas clínicas. O medicamento foi desenvolvido para combater parasitas, não vírus.

O Japão, longe de rejeitar as vacinas, havia imunizado 81% de sua população com pelo menos duas doses até julho de 2022, aprovando quatro vacinas diferentes desde fevereiro de 2021. O autor da postagem falsa, um perfil criado em 2021 que se descreve como economista e entusiasta do Brasil, não respondeu ao Comprova. A alegação circulava desde novembro de 2021 e já havia sido desmentida por AFP, Lupa, Estadão Verifica e Reuters — sem que isso impedisse sua ressurgência.

Um tuíte que circulou amplamente nas redes sociais em julho de 2022 afirmava, em letras diretas, que o Japão havia declarado a ivermectina mais eficaz contra a covid-19 do que as vacinas. A mensagem acompanhava um vídeo que, embora não mencionasse explicitamente o medicamento antiparasitário, sugeria que o país asiático estava se inclinando para reconhecer os danos das vacinas e buscar outras opções de tratamento. Uma versão mais longa do mesmo vídeo circulava pelo WhatsApp, desta vez afirmando que o governo japonês substituiria completamente a vacinação pela ivermectina. O post no Twitter alcançou 14,8 mil curtidas, quase 300 comentários e mais de 4.700 compartilhamentos até meados de julho.

O Projeto Comprova, agência de verificação de fatos, investigou a afirmação e constatou que ela é inteiramente falsa. A Embaixada do Japão no Brasil respondeu diretamente aos questionamentos, afirmando que não existe qualquer processo de aprovação da ivermectina como medicamento para tratar covid-19 no país. Além disso, o governo japonês recomenda ativamente que a população se vacine, posição que pode ser verificada em seus sites oficiais. Uma consulta à lista de medicamentos aprovados pela Agência de Produtos Farmacêuticos e Dispositivos Médicos do Japão (PMDA) confirma que a ivermectina não consta entre os tratamentos autorizados para a doença. Os medicamentos de fato aprovados para covid-19 no país incluem Remdesivir, Baricitinibe, Casirivimabe/Imdevimabe, Sotrovimabe, Molnupiravir, Tocilizumabe e Nirmatrelvir/Ritonavir.

O vídeo que acompanhava a postagem falsa originava-se de uma empresa de comunicação indiana chamada The Frustrated Indian (TFI Global), que se descreve como fornecedora de uma narrativa alternativa aos meios de comunicação convencionais. A narração do vídeo afirmava que o Japão havia dito "em alto e bom som" não às campanhas de vacinação das grandes farmacêuticas, e que o país havia demonstrado que a ivermectina poderia ser usada como cura mais eficaz e substituto permanente das vacinas. O vídeo também alegava que países não divulgavam a suposta eficácia da ivermectina porque haviam assinado contratos com a Pfizer para compra de vacinas, contratos que não poderiam ser anulados mesmo que uma cura fosse encontrada.

A realidade científica sobre a ivermectina e a covid-19 é bem estabelecida. De acordo com a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), o uso do medicamento para covid-19 não está previsto em sua bula, e o uso off-label não teve respaldo das agências reguladoras ou do fabricante. Uma nota técnica da Anvisa de março de 2021 afirma que os resultados disponíveis não parecem suficientes para sustentar a recomendação de uso da ivermectina no tratamento de pacientes com covid-19. A Organização Mundial da Saúde recomenda que o medicamento seja utilizado apenas em protocolos de pesquisa clínica. A ivermectina é, por sua formulação original, um medicamento que atua contra várias espécies de parasitas e vermes — não contra vírus.

Os dados sobre a pandemia no Japão revelam um país que, apesar de ter começado sua campanha de vacinação mais tarde que alguns países ocidentais, alcançou altas taxas de imunização. Até 13 de julho de 2022, o país havia registrado 9.790.789 casos confirmados de covid-19 e 31.437 mortes confirmadas relacionadas à doença, com outros 31.170 óbitos ainda sob investigação. As autoridades sanitárias japonesas aprovaram o uso de quatro vacinas de diferentes fabricantes: Pfizer (fevereiro de 2021), Moderna e AstraZeneca (maio de 2021) e Novavax (abril de 2022). Até 11 de julho de 2022, 81,25% dos japoneses haviam recebido pelo menos duas doses de vacina, e 82,35% estavam parcialmente imunizados.

O autor da postagem falsa é um perfil no Twitter criado em janeiro de 2021 que se identifica como economista e empresário, descrevendo-se como "terrivelmente cristão e entusiasta do Brasil". A conta compartilha regularmente críticas aos pré-candidatos presidenciais Luiz Inácio Lula da Silva e Simone Tebet, além de elogios ao presidente Jair Bolsonaro e ações de seu governo. Quando contatado pelo Comprova, o autor não respondeu aos questionamentos.

Esta não é a primeira vez que a alegação sobre o Japão e a ivermectina circula nas redes sociais. Desde novembro de 2021, agências de fact-checking como AFP Checamos, Lupa, Fato ou Fake do G1, Yahoo, Estadão Verifica e Reuters já haviam verificado conteúdos semelhantes. O Comprova também identificou múltiplas verificações anteriores sobre a ivermectina em contextos diferentes, incluindo alegações falsas sobre sua distribuição no controle da pandemia na Índia e sobre supostos achados da Universidade de Oxford. O conteúdo representa um risco à saúde pública ao desestimular a vacinação e promover um medicamento sem eficácia comprovada contra a covid-19.

Não há, até o momento, nenhum processo de aprovação da ivermectina como medicamento para o tratamento da covid-19 no Japão
— Embaixada do Japão no Brasil
Os resultados não parecem ser suficientes para suportar recomendação de uso da ivermectina no tratamento de pacientes com covid-19
— Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa)
La Conversación del Hearth Otra perspectiva de la historia
Inventor

Por que um vídeo de uma empresa indiana sobre o Japão ganhou tanta circulação em português?

Model

Porque toca em dois medos profundos simultaneamente: desconfiança das grandes farmacêuticas e esperança em uma solução simples que as autoridades estariam escondendo. É uma narrativa que viaja bem.

Inventor

A Embaixada do Japão respondeu diretamente. Isso não deveria ter encerrado a questão?

Model

Deveria, mas não encerra. Quem compartilha esse conteúdo já desconfia de autoridades oficiais. Uma embaixada é exatamente o tipo de instituição que, na lógica da desinformação, estaria comprometida.

Inventor

O vídeo original é de uma empresa que se chama "The Frustrated Indian". Frustrada com quê?

Model

Com a narrativa dos meios convencionais. Eles se posicionam explicitamente como alternativa. Isso dá legitimidade aos olhos de quem já se sente traído pela mídia tradicional.

Inventor

Mas a ivermectina realmente não funciona contra covid?

Model

Não há evidência científica que funcione. É um antiparasitário. A OMS recomenda seu uso apenas em estudos clínicos, não em tratamento. Agências reguladoras em vários países, incluindo o Brasil, não a aprovaram para isso.

Inventor

O post teve 4.700 compartilhamentos. Quantas pessoas isso alcançou de verdade?

Model

Impossível saber com precisão. Mas cada compartilhamento é alguém dizendo a outra pessoa que isso é verdade. Em um contexto de pandemia, onde as pessoas estão assustadas e incertas, isso se propaga rápido.

Inventor

O autor do post nunca respondeu aos questionamentos. O que isso sugere?

Model

Pode ser desinteresse genuíno, ou pode ser que ele saiba que não tem defesa. Mas o silêncio também funciona — deixa a narrativa dele intacta na mente de quem acreditou.

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