É falso que irmãos morreram após se vacinarem contra a Covid-19

Quando você tem fatos, quer que sejam verificados. Quando tem apenas narrativa, o silêncio é mais seguro.
A autora do vídeo bloqueou jornalistas após uma única resposta, sugerindo incapacidade de sustentar suas alegações.

Mulher sem provas alegou em vídeo que três irmãos morreram após vacinação, mas história contém inconsistências e contradições com protocolos oficiais. Anvisa e instituições de pesquisa confirmam: apenas adultos participam de testes, nenhuma morte foi reportada, e vacinas em teste não são exigidas para viagens.

  • Vídeo acumulou 97.834 visualizações no YouTube até 16 de setembro de 2020
  • Anvisa confirma: apenas maiores de 18 anos podem participar de testes de vacina
  • Instituto Butantan monitorou 4 mil voluntários da CoronaVac sem relatos de mortes ou reações graves
  • Autora é terapeuta que trabalha com terapias holísticas desde 1998, não epidemiologista

Projeto Comprova desmente vídeo viral que acusa vacina Covid de matar três irmãos. Anvisa confirma que apenas maiores de idade podem participar de testes e não há relatos de mortes ou reações graves.

Um vídeo que circulou no YouTube em setembro de 2020 apresentava uma acusação grave: três irmãos haviam morrido após receber doses de uma vacina contra a covid-19 em testes clínicos no Brasil. A mulher que fez a denúncia não apresentou qualquer comprovação, mas sua história se espalhou pelas redes sociais com rapidez. Até 16 de setembro, o vídeo havia acumulado quase 98 mil visualizações no YouTube, foi republicado 133 vezes no Twitter e gerou mais de 11 mil interações no Facebook. O Projeto Comprova, uma coalizão de 28 veículos de imprensa dedicada à verificação de conteúdo online, investigou a denúncia e encontrou inconsistências fundamentais em cada camada da narrativa.

Segundo o relato, os três jovens tinham 13, 16 e 18 anos de idade. A autora do vídeo não especificou qual das quatro vacinas em teste no Brasil teria causado as mortes — ela nem usava a palavra "vacina" na gravação, alegando que seu vídeo seria removido se mencionasse explicitamente o termo. Quando questionada pelo Comprova, a mulher, que se apresenta como terapeuta e trabalha com terapias holísticas desde 1998, respondeu que não tinha "mais nada a acrescentar" e depois bloqueou a jornalista que tentava entrevistá-la. A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), responsável por autorizar pesquisas clínicas no país, forneceu informações que contradizem completamente a história: apenas maiores de idade podem receber doses das vacinas em teste, e não houve nenhum relato de mortes ou reações adversas graves relacionadas aos testes realizados no Brasil.

O protocolo de pesquisa é claro e rigoroso. O Instituto Butantan, que coordena os testes da CoronaVac em parceria com a farmacêutica chinesa Sinovac, informou que 4 mil dos 9 mil voluntários já haviam recebido a primeira dose. Todos são monitorados continuamente, e até o momento da verificação, nenhum efeito colateral grave ou morte havia sido reportado. A instituição classificou o depoimento do vídeo como "irresponsável e totalmente inverídico". A Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), que conduz testes da vacina AstraZeneca/Oxford em 5 mil voluntários, confirmou que o estudo envolve apenas adultos maiores de 18 anos e que as reações observadas foram as esperadas — dor temporária no local da injeção, dor de cabeça e febre passageira. Nenhuma intercorrência grave foi registrada no Brasil. O Centro Paulista de Investigação Clínica (Cepic) testava a vacina Pfizer/BioNtech com mil voluntários e declarou explicitamente que nenhum participante morreu.

A história também continha um elemento logístico impossível. A autora alegou que a família decidiu se vacinar porque pretendia viajar para a Europa. Porém, a Anvisa deixou claro que as vacinas em fase de testes estão restritas aos protocolos de pesquisa e aos voluntários previamente selecionados. Elas não podem ser exigidas como pré-requisito para viagens internacionais, e não estão disponíveis para uso fora das instituições que coordenam os estudos. A família, portanto, não teria acesso ao medicamento por esse motivo.

Jorge Venâncio, coordenador da Comissão Nacional de Ética em Pesquisa (Conep), explicou os critérios éticos que governam esses testes. Menores de idade só são incluídos em pesquisas quando os testes em adultos não são suficientes ou quando o objeto de estudo é específico daquele grupo etário — como medicamentos pediátricos. Se alguma pesquisa tentasse inserir crianças sem notificar a Conep, seria uma violação grave do protocolo que poderia resultar em denúncia à Anvisa. Venâncio também observou que a pandemia afeta muito menos crianças que adultos, tornando ilógico incluir menores em testes de vacina. Além disso, qualquer acordo que proibisse participantes de relatar efeitos adversos seria juridicamente inválido.

O vídeo não era um caso isolado de desinformação sobre vacinas. Outras agências de checagem — Fato ou Fake, e-farsas, Aos Fatos e Lupa — também investigaram o conteúdo e o classificaram como falso. O Comprova havia verificado anteriormente outras alegações infundadas: que a vacina causava danos irreversíveis ao organismo, que usava células de fetos abortados, e que continha um microchip para rastreamento populacional. Cada uma dessas narrativas havia sido desmentida com base em evidências científicas e protocolos oficiais.

O Projeto Comprova investigou o caso porque conteúdos que disseminam desinformação sobre a covid-19 colocam a saúde pública em risco direto. Ao incentivar as pessoas a desconfiarem da vacinação, o vídeo não apenas espalha uma mentira — ele potencialmente custa vidas. A verificação foi conduzida pela Folha de São Paulo e Poder 360, e posteriormente verificada por oito outros veículos de imprensa, incluindo O POVO. A conclusão foi unânime: a história dos três irmãos mortos era falsa, construída sobre alegações sem comprovação e contradições com todos os dados oficiais disponíveis sobre os testes de vacina em andamento no Brasil.

Qualquer estudo sério é interrompido imediatamente assim que identificada qualquer anomalia
— Instituto Butantan
Se alguma das pesquisas tentasse inserir crianças sem notificar seria uma violação grave ao protocolo, que poderia gerar uma denúncia na Anvisa
— Jorge Venâncio, coordenador da Comissão Nacional de Ética em Pesquisa
La Conversación del Hearth Otra perspectiva de la historia
Inventor

Por que essa história em particular circulou tanto? O que a torna tão pegajosa?

Model

Ela toca em medos reais — a morte de filhos, a desconfiança em relação a medicamentos novos, a sensação de que as autoridades escondem informações. Não precisa de provas quando apela para o emocional. E o fato de a autora se recusar a nomear a vacina ou fornecer detalhes específicos na verdade reforça a narrativa de conspiração: "eles estão me silenciando".

Inventor

A autora bloqueou a jornalista depois de responder uma vez. O que isso sugere?

Model

Que ela sabia que não conseguiria sustentar a história sob escrutínio. Quando você tem fatos, você quer que sejam verificados. Quando você tem apenas uma narrativa emocional, o silêncio é mais seguro.

Inventor

Mas ela tinha credibilidade — era terapeuta, tinha um perfil profissional. Isso não importa?

Model

Importa para quem já está predisposto a acreditar. Mas credibilidade em terapias holísticas não é credibilidade em epidemiologia ou protocolos clínicos. O Comprova descobriu que ela trabalha com "terapias vibracionais" desde 1998 e se interessou por mediunidade após ouvir um médium famoso. Isso não a desqualifica como pessoa, mas não a qualifica para fazer afirmações sobre testes de vacina.

Inventor

A Anvisa foi bem clara: apenas maiores de idade. Como alguém acredita que três menores conseguiram entrar em um teste clínico?

Model

Porque as pessoas não conhecem como funcionam esses protocolos. A maioria não sabe que existe uma Comissão Nacional de Ética em Pesquisa, que há critérios rigorosos, que violar isso é crime. Quando você não conhece o sistema, qualquer coisa parece possível.

Inventor

E o detalhe da viagem para a Europa? Isso parecia plausível?

Model

Não, mas só se você souber que vacinas em teste não são exigidas para viagens. A autora contou com o fato de que a maioria das pessoas não saberia disso. É um detalhe que soa específico o suficiente para parecer verdadeiro, mas é completamente falso.

Inventor

Qual é o risco real de um vídeo como esse?

Model

Pessoas deixam de se vacinar. Outras convençam seus filhos a não se vacinarem. Em uma pandemia, isso mata gente. Não é hipérbole — é matemática simples. Quanto menos pessoas vacinadas, mais o vírus circula, mais pessoas morrem. Um vídeo com 98 mil visualizações pode custar vidas reais.

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