A dor nunca é normal. Sempre há uma razão para tratamento.
Em consultórios por todo o Brasil, idosos chegam carregando não apenas dor nas costas, mas anos de respostas que os mandaram embora sem tratamento. O ortopedista Guilherme Porceban, especialista em cirurgia de coluna, desafia uma crença enraizada na medicina e na cultura: a de que envelhecer é sinônimo de sofrer em silêncio. Ao nomear causas concretas — hérnias, sarcopenia, sedentarismo — e ao apontar o custo humano do silenciamento, ele lembra que a dor nunca é destino, e que ouvir o idoso é o primeiro ato de cuidado.
- Pacientes com setenta e oitenta anos chegam exaustos de ouvir que sua dor é 'coisa da idade', enquanto doenças tratáveis avançam sem intervenção.
- A sarcopenia — perda acelerada de massa muscular — retira o suporte das vértebras e transforma o envelhecimento em um ciclo de desgaste que se intensifica a cada mês sem tratamento.
- Hérnias de disco com dormência e perda de força exigem resposta rápida; cada semana de espera, alimentada pela crença de que 'é normal', aprofunda o dano neurológico.
- A dor crônica não tratada empurra idosos para o isolamento, que gera depressão, que amplifica a dor — um ciclo do qual sair exige intervenção coordenada entre ortopedia e saúde mental.
- A saída existe e é acessível: fortalecimento muscular regular, diagnóstico precoce e tratamento que respeite a queixa do paciente podem preservar mobilidade e autonomia na velhice.
Guilherme Henrique Porceban, mestre em cirurgia de coluna pela Universidade Federal de São Paulo, recebe pacientes idosos que chegam ao consultório exaustos — não só de dor, mas de não serem ouvidos. Meses ou anos reclamando de dores nas costas, e a resposta é sempre a mesma: é a idade. É normal. O ortopedista discorda com firmeza: "A dor nunca é normal. Sempre que há dor, há uma razão para tratamento."
O silenciamento dessas queixas tem consequências concretas. Quando o paciente acredita que tudo é "coisa da idade", ele deixa de buscar ajuda. As hérnias de disco, por exemplo, comprimem estruturas neurológicas e podem causar dormência e perda de força — sintomas que exigem intervenção rápida. Esperar, nesse caso, é permitir que a doença se aprofunde.
Outro fator central é a sarcopenia, a perda natural de massa muscular que acompanha o envelhecimento. Quando essa perda é acelerada, os músculos deixam de sustentar as vértebras adequadamente, intensificando o desgaste articular e a dor. Porceban chama o processo de "uma tragédia para a coluna" e aponta o fortalecimento muscular como o principal aliado contra esse declínio — nunca é tarde para começar.
Mas a história tem uma camada ainda mais grave. A dor crônica, quando ignorada, raramente permanece apenas física. Em idosos, ela alimenta um ciclo perverso: a dor provoca isolamento, o isolamento gera depressão, e a depressão intensifica a dor. O paciente perde autonomia e deixa de viver plenamente. Para Porceban, o tratamento precisa ser precoce e coordenado, envolvendo saúde mental além da ortopedia. Ignorar a queixa de um idoso não é apenas negligência — é empurrá-lo para um ciclo cada vez mais difícil de romper.
Guilherme Henrique Porceban recebe pacientes com setenta, oitenta anos que chegam exaustos. Não de dor — bem, de dor também — mas de não serem ouvidos. Vêm reclamando de dores nas costas há meses, às vezes anos, e ouvem a mesma resposta: é idade. É normal. É assim mesmo quando se envelhece. Porceban, mestre em cirurgia de coluna pela Universidade Federal de São Paulo, diz que essa ideia está errada, e que o silenciamento dessas queixas é um dos maiores obstáculos para um envelhecimento saudável.
"A dor nunca é normal", afirma o ortopedista. "Sempre que há dor, há uma razão para tratamento, já que isso afeta severamente a qualidade de vida." O que preocupa Porceban não é apenas o sofrimento imediato. É o que vem depois: quando uma queixa é minimizada, o paciente deixa de procurar ajuda. A doença avança. A vida encolhe.
Os problemas de coluna que mais acometem pessoas acima de quarenta ou cinquenta anos têm nomes e mecanismos bem definidos. As hérnias de disco comprimem estruturas neurológicas e podem afetar a força e a sensibilidade. Quando começam a aparecer dormência e perda de força, o tempo é essencial — quanto antes a intervenção, melhor o resultado. Mas se o paciente acredita que tudo é "coisa da idade", ele espera. E esperar, neste caso, é deixar a doença se aprofundar.
Há outro vilão que Porceban destaca com ênfase: a perda de massa muscular. Conforme envelhecemos, nossos músculos naturalmente diminuem — um processo chamado sarcopenia. Quando essa perda é rápida, seja pelo envelhecimento ou por emagrecimento acelerado, as consequências para a coluna são severas. Os músculos são o suporte das vértebras. Sem eles, o desgaste natural das articulações se intensifica, e a dor piora. "É uma tragédia para a coluna", resume o médico.
A solução, porém, existe e é acessível. O fortalecimento muscular é, segundo Porceban, o melhor aliado para retardar o desgaste natural. Musculação, exercícios físicos regulares — atividades que parecem simples, mas que fazem toda a diferença. O ideal seria começar na juventude, reconhece o especialista, mas nunca é tarde. "O envelhecimento saudável é construído dia a dia", diz. "São os exercícios que vão ajudar a ter uma velhice com mobilidade e sem o peso da dor crônica."
Mas há uma camada mais profunda nesta história. A dor crônica — aquela que persiste por mais de três meses — raramente é apenas física. Em idosos, ela frequentemente vem acompanhada de depressão e ansiedade. E aqui ocorre um ciclo perverso: a dor causa isolamento, o isolamento causa depressão, a depressão intensifica a dor. O paciente se retrai, perde autonomia, deixa de viver. Porceban insiste que o tratamento deve ser coordenado e precoce, envolvendo não apenas o ortopedista, mas também profissionais de saúde mental. Porque ignorar a queixa de um idoso não é apenas negligência médica. É permitir que uma pessoa entre em um ciclo do qual é cada vez mais difícil sair.
Citações Notáveis
Recebo pacientes de 70, 80 anos cansados de atendimento médico porque suas queixas de dores nas costas não são ouvidas ou são minimizadas como algo 'normal' para a idade— Guilherme Henrique Porceban, ortopedista especialista em coluna
O envelhecimento saudável é construído dia a dia. Nunca é tarde para iniciar atividades físicas como musculação— Guilherme Henrique Porceban
A Conversa do Hearth Outra perspectiva sobre a história
Por que você acha que os médicos minimizam tanto a dor nas costas em idosos? É falta de conhecimento ou algo mais?
Acho que é uma combinação. Existe essa crença cultural de que envelhecer dói, que é inevitável. E quando algo parece inevitável, a gente para de lutar contra. Mas também há uma questão prática — o médico vê um paciente de setenta anos com dor nas costas e pensa: "Bem, é esperado." Não investiga fundo.
E qual é o custo real disso? Não é só desconforto, certo?
Não. É muito mais. Quando você não trata a dor, ela piora. A pessoa começa a se mover menos, fica deprimida, ansiosa. Perde a autonomia. Deixa de fazer as coisas que gosta. É um espiral descendente que poderia ter sido evitado com intervenção precoce.
Você mencionou sarcopenia. Por que a perda muscular é tão crítica para a coluna?
Porque os músculos são literalmente o suporte das vértebras. Sem eles, toda a carga cai sobre as articulações e os discos. É como tirar as colunas de um prédio e esperar que ele continue de pé.
Então exercício físico é realmente a resposta?
É a melhor resposta que temos. Não é glamouroso, não é uma pílula mágica. Mas musculação, atividade física regular — isso retarda o desgaste, mantém a mobilidade, e quebra o ciclo da dor crônica.
E se alguém já está nesse ciclo, já está deprimido, já perdeu autonomia?
Aí o tratamento precisa ser coordenado. Não é só ortopedia. Precisa de saúde mental, de reabilitação. Mas quanto mais cedo você intervém, mais fácil é sair desse buraco.