Dez anos após impeachment de Dilma: onde estão os principais articuladores de 2016

O impeachment de Dilma Rousseff resultou em seu afastamento do cargo presidencial e teve impactos políticos significativos para diversos atores envolvidos, incluindo cassações de mandatos e processos criminais.
O impeachment permanece como divisão profunda na política brasileira
Uma década depois, os articuladores do afastamento de Dilma seguem trajetórias radicalmente diferentes, refletindo as consequências duradouras daquele momento.

Dilma foi afastada em maio de 2016 após votação no Senado por crime de responsabilidade fiscal, marcando o segundo impeachment presidencial na história democrática brasileira. Protagonistas como Eduardo Cunha, Michel Temer e Renan Calheiros tiveram papéis centrais; alguns mantêm mandatos, outros enfrentaram processos legais ou se afastaram da política.

  • Dilma Rousseff foi afastada em 31 de agosto de 2016 com 61 votos a favor e 20 contra
  • Eduardo Cunha autorizou a abertura do processo em 2 de dezembro de 2015 como presidente da Câmara
  • Michel Temer assumiu a presidência após o afastamento de Dilma
  • Janaína Paschoal foi eleita deputada estadual em 2018 com cerca de 2 milhões de votos
  • Ricardo Lewandowski permitiu o "fatiamento" da votação, separando perda do cargo de inabilitação

A reportagem resgata os dez anos do afastamento de Dilma Rousseff em 2016 e mapeia onde estão os principais atores políticos envolvidos no processo de impeachment, desde Aécio Neves até Janaína Paschoal.

Dez anos se passaram desde aquela terça-feira de maio quando o Senado Federal votou pela segunda vez na história democrática brasileira para afastar um presidente da República. Dilma Rousseff saiu do cargo em 31 de agosto de 2016, condenada por crime de responsabilidade fiscal — as chamadas pedaladas fiscais — com 61 votos a favor e 20 contra. Michel Temer, seu vice, assumiu a cadeira que ela deixava vazia. Uma década depois, os nomes que orquestraram aquele momento seguem trajetórias radicalmente diferentes, alguns ainda no poder, outros marcados pela cassação, pela prisão, ou pelo silêncio.

Tudo começou após as eleições de 2014, quando Dilma venceu Aécio Neves no segundo turno por uma margem que parecia confortável — 3,4 milhões de votos — mas que não se traduziria em governabilidade. Os anos que se seguiram foram de crise contínua com o Congresso Nacional. Em 2 de dezembro de 2015, Eduardo Cunha, então presidente da Câmara dos Deputados, aceitou o pedido de impeachment contra ela. Quatro meses depois, em 17 de abril de 2016, a Câmara autorizou a abertura do processo com 367 votos a favor e 137 contra. O caminho estava aberto para o Senado, onde Renan Calheiros presidia os trabalhos.

Aécio Neves, o senador que havia perdido aquela eleição, tornou-se uma das principais vozes da oposição. Ele comemorou abertamente a aprovação do parecer de abertura do processo, argumentando que o impeachment era necessário diante das pedaladas fiscais e da crise econômica. Durante o julgamento final, acusou Dilma de ter vencido a eleição mentindo sobre a situação do país. Após o afastamento, porém, Aécio e seu partido perderam espaço na política nacional. Em 2018, desistiu de concorrer à reeleição ao Senado e disputou uma vaga na Câmara dos Deputados, onde permanece. Hoje é presidente nacional do PSDB.

Michel Temer, o vice que assumiu, sempre negou ter articulado diretamente o impeachment, descrevendo-o como cumprimento constitucional. Mas antes do processo ser iniciado, ele e Dilma já haviam se rompido politicamente. Em dezembro de 2015, Temer publicou a "Carta ao Povo Brasileiro", na qual se queixava de ser um vice decorativo. Seu partido, o PMDB, rompeu com o governo e oficializou apoio ao impeachment. Temer permaneceu na presidência até 2018, mas sua gestão foi marcada por turbulências políticas. Atualmente, prestes a completar 85 anos, ele atua como advogado, consultor jurídico e conferencista, longe dos cargos eletivos.

Eduardo Cunha, o presidente da Câmara que autorizou a abertura do processo, teve papel central e nunca se arrependeu. Ele alegou ter agido por razões técnicas, mas o timing foi suspeito: Cunha estava enfrentando seu próprio processo de cassação. Afirmou que Dilma havia mentido ao negar negociações para barrar o impeachment em troca de ajuda contra sua cassação. Ironia do destino: Cunha teve mesmo o mandato cassado em 2016 e posteriormente foi preso. Atualmente, filiado ao Republicanos, é pré-candidato à Câmara dos Deputados por Minas Gerais e atua no setor de comunicação, montando uma rede de emissoras de rádio, incluindo evangélicas. Lançou também o livro "Tchau, Querida", narrando os bastidores do impeachment.

Renan Calheiros, presidente do Senado à época, tentou manter postura de neutralidade, mas acabou votando a favor da cassação. Assegurou o andamento da pauta, rejeitou tentativas de anulação e se alinhou ao governo Temer. Atualmente, mantém o mandato de senador por Alagoas, com mandato até 2027, e preside a Comissão de Assuntos Econômicos do Senado. Ricardo Lewandowski, presidente do Supremo Tribunal Federal em 2016, conduziu a sessão final de julgamento e assinou a sentença de condenação. Sua decisão mais polêmica foi permitir o "fatiamento" da votação: Dilma perdeu o cargo, mas não foi inabilitada para funções públicas. Meses depois, Lewandowski classificou o impeachment como um "tropeço na democracia". Recentemente deixou o cargo de Ministro da Justiça e Segurança Pública, demitindo-se em janeiro de 2026.

Os advogados também seguiram caminhos distintos. José Eduardo Cardozo, principal defensor de Dilma, argumentou que as pedaladas fiscais não configuravam crime de responsabilidade e denunciou o processo como perseguição política e golpe. Após a condenação, chamou-a de "injustiça histórica". Hoje atua como advogado, professor de Direito e comentarista político, sócio do escritório Martins Cardozo Advogados Associados. Do lado acusador, Janaína Paschoal foi a principal advogada de acusação no Senado, sustentando a tese de crime de responsabilidade. No dia da votação final, chegou a pedir desculpas a Dilma pelo sofrimento causado, embora reiterasse sua convicção técnica. A visibilidade conquistada impulsionou sua carreira: em 2018, foi eleita deputada estadual por São Paulo com cerca de 2 milhões de votos, a maior votação da história para o cargo na época. Em 2022 tentou uma vaga ao Senado sem sucesso. Atualmente é vereadora em São Paulo, filiada ao PP, atuando na Comissão de Constituição e Justiça da Câmara Municipal.

Hélio Bicudo, um dos fundadores do PT, foi o autor principal do pedido de impeachment, protocolado em 1º de setembro de 2015, baseado nas pedaladas fiscais e nas denúncias de corrupção na Petrobras. Comemorou o afastamento em 2016, afirmando que a luta havia sido popular. Morreu em 31 de julho de 2018, aos 96 anos. Miguel Reale Júnior, outro autor do pedido ao lado de Bicudo e Paschoal, argumentou que havia crime de responsabilidade e que o país estava em caos econômico. Atualmente é professor titular sênior da USP, advogado criminalista em São Paulo e conselheiro do Instituto Não Aceito Corrupção. Neste ano foi um dos defensores de um Código de Ética para o Supremo Tribunal Federal.

Dez anos depois, o impeachment de Dilma Rousseff permanece como o segundo na história democrática brasileira, deixando cicatrizes profundas na política nacional. Seus articuladores seguem em trajetórias que refletem as consequências duradouras daquele momento: alguns ascenderam politicamente, outros foram cassados ou presos, e alguns simplesmente desapareceram da vida pública. O que permanece é a divisão que o processo deixou na sociedade brasileira e as perguntas que ainda ecoam sobre se foi justiça ou golpe.

O impeachment foi um tropeço na democracia
— Ricardo Lewandowski, presidente do STF em 2016
A condenação de Dilma Rousseff seria uma injustiça histórica e um desrespeito à democracia
— José Eduardo Cardozo, principal advogado de defesa de Dilma
A Conversa do Hearth Outra perspectiva sobre a história
Inventor

Por que um impeachment que aconteceu há dez anos ainda importa tanto?

Model

Porque foi o segundo na história democrática brasileira e porque os atores envolvidos continuam moldando a política do país. Alguns estão no poder, outros foram presos. A história não terminou em 2016.

Inventor

Dilma perdeu o cargo, mas não foi inabilitada para funções públicas. Como isso aconteceu?

Model

Ricardo Lewandowski, presidente do STF, permitiu o "fatiamento" da votação. A perda do cargo foi aprovada, mas a inabilitação foi rejeitada. Muitos chamaram isso de uma decisão política, não jurídica.

Inventor

Eduardo Cunha estava sendo cassado quando autorizou o impeachment. Isso não parece suspeito?

Model

Muito. Cunha alegou que Dilma havia mentido ao negar negociações para barrar seu impeachment em troca de ajuda contra o dela. Mas ele foi cassado mesmo assim, e depois preso. A ironia é brutal.

Inventor

Michel Temer sempre negou ter articulado o impeachment. Você acredita nisso?

Model

Ele diz que foi cumprimento constitucional. Mas publicou uma carta reclamando de ser vice decorativo, seu partido rompeu com o governo e oficializou apoio ao impeachment. As ações falam mais alto que as palavras.

Inventor

Janaína Paschoal pediu desculpas a Dilma no dia da votação. Por quê?

Model

Ela reconheceu o sofrimento causado, mas manteve sua convicção técnica de que havia crime de responsabilidade. Foi uma forma de separar o pessoal do profissional, embora a política raramente permita essa separação.

Inventor

O que aconteceu com Aécio Neves depois?

Model

Perdeu espaço político. Em 2018, desistiu de concorrer à reeleição ao Senado e foi para a Câmara. Hoje é presidente nacional do PSDB, mas nunca recuperou a relevância que tinha antes do impeachment.

Inventor

Lewandowski chamou o impeachment de "tropeço na democracia" depois. Ele se arrependeu?

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Não exatamente. Ele criticou a coalizão política da época, mas não sua própria condução do processo. É uma forma de manter distância sem assumir responsabilidade direta.

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