Mulheres ganham 75,2% do que ganham os homens, e a diferença aumenta
No Distrito Federal, onde as mulheres formam a maioria da população em idade ativa, um levantamento do IPEDF revela que a desigualdade salarial entre gêneros não apenas persiste como se aprofundou em 2023: a proporção do rendimento feminino em relação ao masculino recuou de 76,7% para 75,2%, enquanto o desemprego e a inatividade continuam a pesar de forma desproporcional sobre elas. O retrato é o de uma estrutura que distribui o trabalho — remunerado e não remunerado — de maneira profundamente assimétrica, deixando para as mulheres a maior carga e a menor recompensa.
- A renda dos homens cresceu quase o dobro do ritmo da renda feminina em 2023, ampliando uma lacuna que já era expressiva.
- Com 23% das mulheres em idade ativa fora do mercado de trabalho — contra 12,5% dos homens —, o trabalho doméstico não remunerado emerge como uma barreira invisível e estrutural.
- A taxa de desemprego feminino chegou a 18%, superando a masculina de 14,4%, e as mulheres levam em média dois meses a mais para encontrar uma vaga.
- Apesar das adversidades, 18 mil mulheres ingressaram na população economicamente ativa do DF em relação a 2022, sinalizando uma pressão crescente por participação.
- Especialistas alertam que apenas o acesso ao trabalho remunerado garante às mulheres reconhecimento social e autonomia — tornando a desigualdade salarial não só econômica, mas existencial.
Um levantamento do Instituto de Pesquisa Estatística do Distrito Federal traça um retrato incômodo do mercado de trabalho na capital. Entre 2022 e 2023, a renda média dos homens cresceu 7,4%, passando de R$ 4.790 para R$ 5.145. A das mulheres avançou apenas 6,6%, de R$ 3.628 para R$ 3.868. O efeito prático: a proporção do que as mulheres ganham em relação aos homens encolheu de 76,7% para 75,2%.
O paradoxo é que as mulheres representam 54,6% da população em idade ativa do DF — e ainda assim enfrentam barreiras mais altas para participar do mercado formal. Enquanto 23% delas estão inativas, apenas 12,5% dos homens se encontram nessa situação. A diferença revela o peso do trabalho doméstico não remunerado, que recai desproporcionalmente sobre as mulheres e reduz sua disponibilidade para o emprego formal.
Lucia Garcia, do Dieese, aponta que o trabalho remunerado é apenas uma fração do que as mulheres realizam na sociedade — e que, ainda assim, é ele que confere reconhecimento social e abre caminho para a emancipação feminina. A desigualdade, portanto, não é só de salário: é de visibilidade e de poder.
Os números de desemprego aprofundam a disparidade. A taxa feminina chegou a 18% em 2023, contra 14,4% entre os homens. O tempo médio de busca por emprego também é maior para elas: 12 meses, ante 10 meses para eles. Ainda assim, 18 mil mulheres ingressaram na população economicamente ativa do DF no período, totalizando 823 mil trabalhadoras — um crescimento de 2,2%, superior ao registrado entre os homens. Entre os desempregados, as mulheres representavam 54,4% do total, uma leve melhora frente aos 55,9% de 2022. Os dados revelam uma estrutura que, em vários aspectos, continua se intensificando.
Um levantamento divulgado pelo Instituto de Pesquisa Estatística do Distrito Federal nesta semana traça um retrato desconfortável do mercado de trabalho na capital: enquanto os homens viram seus salários crescerem em ritmo mais acelerado, as mulheres — que formam maioria na população em idade ativa — ficaram para trás. Entre 2022 e 2023, a renda média dos homens saltou de R$ 4.790 para R$ 5.145, um aumento de 7,4%. Para as mulheres, o crescimento foi de apenas 6,6%, passando de R$ 3.628 para R$ 3.868. O resultado é que a proporção do que as mulheres ganham em relação aos homens encolheu: caiu de 76,7% para 75,2%.
Embora as mulheres representem 54,6% da população em idade ativa do Distrito Federal — pessoas com 14 anos ou mais — elas enfrentam barreiras significativas para participar do mercado de trabalho. Enquanto 23% das mulheres em idade ativa estão inativas, seja por incapacidade, desalento ou dedicação a afazeres domésticos, apenas 12,5% dos homens encontram-se nessa situação. A diferença revela como o trabalho não remunerado — cuidados, limpeza, organização do lar — recai desproporcionalmente sobre as mulheres, reduzindo sua disponibilidade para o mercado formal.
Quem trabalha com dados sobre esse tema aponta que a questão vai além dos números. Lucia Garcia, do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos, observa que o trabalho remunerado é apenas uma parte do que as mulheres executam na sociedade. Segundo ela, as mulheres dedicam tempo significativo a atividades que beneficiam o desenvolvimento social sem receber por isso — cuidados com pessoas, afazeres domésticos — enquanto enfrentam desigualdade também no trabalho que é pago. Garcia ressalta que apenas o trabalho remunerado confere à mulher o status de relevância social e representa o caminho para sua emancipação.
Os números de desemprego aprofundam ainda mais essa disparidade. Em 2023, a taxa de desemprego entre as mulheres chegou a 18%, enquanto entre os homens ficou em 14,4%. O tempo médio de procura por uma vaga também difere: as mulheres levam em média 12 meses para encontrar trabalho, enquanto os homens levam 10 meses. Apesar disso, houve movimento no mercado: 18 mil mulheres foram incorporadas à população economicamente ativa do Distrito Federal em relação a 2022, totalizando 823 mil trabalhadoras, das quais 675 mil estão ocupadas e 148 mil desempregadas. A variação foi de 2,2% para as mulheres, superior aos 1,4% registrados entre os homens.
A participação das mulheres no mercado de trabalho também fica aquém da dos homens. Em 2023, 57,3% das mulheres com 14 anos ou mais participavam da força de trabalho, enquanto entre os homens esse percentual chegava a 72,5%. Entre os desempregados, as mulheres representavam 54,4% do total, uma leve melhora em relação a 2022, quando eram 55,9%. Os dados, compilados pela Pesquisa de Emprego e Desemprego com recorte de gênero, revelam uma estrutura de desigualdade que persiste e, em alguns aspectos, se intensifica.
Citações Notáveis
As mulheres executam e dedicam boa parte do seu tempo em atividades que são entregues gratuitamente ao desenvolvimento social, como cuidado e afazeres domésticos. Também acabam, no âmbito do trabalho remunerado, enfrentando uma desigualdade muito grande— Lucia Garcia, Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese)
A Conversa do Hearth Outra perspectiva sobre a história
Por que a renda das mulheres cresceu menos que a dos homens se ambos tiveram aumentos?
Porque quando você começa de um patamar mais baixo, um crescimento percentualmente menor aprofunda a diferença. Mas há mais: as mulheres enfrentam barreiras estruturais — menos acesso a posições melhor remuneradas, interrupções de carreira por cuidados familiares, segregação ocupacional.
E essa questão do trabalho doméstico não remunerado? Como isso afeta os números?
Reduz drasticamente a disponibilidade delas para o mercado formal. Enquanto 23% das mulheres em idade ativa estão inativas, só 12,5% dos homens estão. Muitas dessas mulheres inativas estão cuidando de filhos, pais idosos, mantendo a casa — trabalho essencial que não aparece em nenhuma folha de pagamento.
A taxa de desemprego feminino é mais alta. Isso significa que há discriminação na contratação?
Pode haver, mas é mais complexo. Mulheres levam mais tempo procurando emprego — 12 meses contra 10 dos homens. Isso sugere que enfrentam critérios mais rigorosos, exigências maiores, ou simplesmente menos oportunidades em setores que pagam bem.
Se 54,6% da população em idade ativa é mulher, por que só 57,3% delas trabalha?
Porque muitas não conseguem ou não podem entrar no mercado. Falta de creches, responsabilidades domésticas, falta de qualificação em áreas bem remuneradas, discriminação — tudo isso funciona junto. Os homens têm uma taxa de participação de 72,5%, quase 15 pontos percentuais acima.
O que muda se essa tendência continuar?
A desigualdade se cristaliza. Mulheres ganham menos, economizam menos, acumulam menos patrimônio. Isso afeta aposentadoria, independência financeira, poder de decisão. É um ciclo que se perpetua de geração em geração.