Ele corre o risco de ser preso caso os planos de Washington mudem
Cabello era alvo de recompensa de US$ 25 milhões e acusado de tráfico de cocaína, mas agora trabalha lado a lado com diplomatas e generais americanos no governo pós-Maduro. Trump optou por cooperar com membros do regime deposto em vez da oposição pró-democracia, reintegrando notórios repressores ao novo governo apoiado pelos EUA.
- Recompensa de US$ 25 milhões pela captura de Cabello, ainda oficialmente em vigor
- Cabello mantém cargo de ministro do Interior e divide poder com Delcy Rodríguez e Jorge Rodríguez
- Acusado de ordenar assassinato de dissidente no Chile em 2024 e de tráfico de cocaína
- Invasão das Forças Especiais dos EUA em janeiro transformou Venezuela em protetorado americano
Diosdado Cabello, procurado pelos EUA por tráfico de drogas e violações de direitos humanos, tornou-se parceiro fundamental do governo Trump após a queda de Maduro em janeiro, exemplificando a pragmática realpolitik americana na Venezuela.
Em janeiro, quando as Forças Especiais dos EUA derrubaram Nicolás Maduro e transformaram a Venezuela em um protetorado americano de fato, poucos esperavam que Diosdado Cabello — um dos homens mais procurados do governo americano — terminaria o mês apertando a mão de diplomatas dos EUA em zonas de desastre e rindo com generais americanos em reuniões oficiais.
Cabello era alvo de uma recompensa de US$ 25 milhões. Promotores federais o acusavam de trafegar toneladas de cocaína. O Tesouro americano havia imposto sanções contra ele por peculato. A ONU o acusava de aterrorizar opositores políticos. O Departamento de Estado ainda o listava como criminoso procurado. E no entanto, ali estava ele, em julho, visitando zonas de desastre com John Barrett, chefe da Embaixada dos EUA na Venezuela, em um vídeo divulgado pelo Corpo de Bombeiros de Los Angeles que o mostrava recebendo um tapinha no ombro do diplomata americano.
A transformação de Cabello de adversário ferrenho para parceiro tolerado — até mesmo aceito — reflete uma escolha pragmática do governo Trump. Ao invadir a Venezuela, Washington decidiu trabalhar com membros do regime deposto em vez de apoiar a oposição pró-democracia. O resultado foi a reintegração de notórios repressores ao novo governo apoiado pelos americanos. Cabello, membro fundador do Partido Socialista que governou o país nas últimas três décadas e amplamente considerado um dos homens mais poderosos da Venezuela, manteve seu cargo como ministro do Interior. Desde então, abraçou seu novo papel como promotor dos interesses americanos.
A dinâmica criada é perturbadora: funcionários venezuelanos que trabalham diariamente com seus homólogos americanos são procurados pelos Estados Unidos por acusações criminais, ou foram proibidos pelo governo americano de fazer negócios com americanos. Em alguns casos, funcionários do governo Trump agora colaboram com venezuelanos que foram alvos de outros funcionários do governo Trump durante administrações anteriores. Quando questionado em maio sobre se a recompensa pela captura de Cabello ainda estava em vigor, o secretário de Estado Marco Rubio respondeu que a política dos EUA sobre o assunto não havia mudado. Quando Barrett foi questionado sobre o mesmo tema em uma coletiva de imprensa, ele esquivou a pergunta.
Cabello não está sozinho nessa situação ambígua. O ministro da Defesa, General Gustavo González López, foi nomeado para o cargo este ano com a bênção de Washington, mas havia sido sancionado pelos Estados Unidos em 2015 por reprimir protestos. O coronel Alexander Granko, um alto oficial de contraespionagem, foi visto dentro da área de segurança do principal aeroporto do país observando helicópteros militares americanos. O primeiro governo Trump havia imposto sanções contra Granko por abuso sistemático de direitos humanos e repressão à dissidência; a ONU e grupos de direitos humanos o acusaram de tortura.
A transformação pessoal de Cabello foi igualmente dramática. Após décadas denunciando o imperialismo americano, ele abandonou qualquer crítica a Washington. Trocou suas camisas vermelhas berrantes e uniformes paramilitares por trajes sóbrios, ocasionalmente usando terno e gravata. Meses depois de alertar que um ataque dos EUA resultaria em "outro Vietnã", ele agora promove cooperação militar com Washington. Sua vasta influência nas forças militares e de segurança lhe garantiu um lugar na camarilha governante informal do país, onde efetivamente divide o poder com Delcy Rodríguez, presidente interina, e seu irmão Jorge Rodríguez, líder do Congresso. Analistas denominaram o acordo de triunvirato, com Cabello responsável por manter a segurança e a estabilidade internas.
Embora o governo chileno o acuse de ter ordenado o assassinato de um dissidente venezuelano exilado em Santiago em 2024, e apesar de ser réu em um processo em Nova York que o acusa de trabalhar com o Tren de Aragua para inundar os Estados Unidos com drogas e imigrantes, Cabello está envolvido de forma proeminente na resposta do governo aos terremotos que devastaram o país no mês passado. Autoridades americanas declararam apoio inequívoco a Delcy Rodríguez e enviaram ajuda humanitária e centenas de soldados para auxiliar nos esforços de resgate — uma cooperação que apenas intensificou a aliança entre Washington e o círculo próximo de Maduro.
O futuro de Cabello permanece incerto. Ele corre o risco de ser preso caso os planos de Washington para a Venezuela mudem. Por enquanto, uma antiga rivalidade partidária entre os irmãos Rodríguez e Cabello foi deixada de lado pelo desejo mútuo de manter o poder sob pressão americana. Mas isso não resultou em confiança mútua. Segundo pessoas próximas ao governo, Cabello está tentando ampliar seu poder promovendo sua filha, Daniella, ministra do Turismo com 30 anos, como candidata do partido governista nas próximas eleições. Em junho, ele teria ordenado uma operação de forças especiais para eliminar um chefe de gangue procurado pelos Estados Unidos — um esforço que parecia ter como objetivo obter reconhecimento pessoal, mas que fracassou quando um drone americano matou o alvo horas depois.
Citas Notables
A política dos EUA sobre essa questão não mudou— Secretário de Estado Marco Rubio, em resposta sobre a recompensa por Cabello
Quando o vácuo de poder ameaça se transformar em um conflito civil de proporções incalculáveis, a ordem de Diosdado Cabello foi decisiva: 'Mantenham a calma'— Assessor de Cabello, em declaração após a captura de Maduro
La Conversación del Hearth Otra perspectiva de la historia
Como um homem procurado por tráfico de drogas com uma recompensa de US$ 25 milhões acaba apertando a mão de diplomatas americanos?
Porque Washington decidiu que precisava dele mais do que precisava prendê-lo. Quando os EUA invadiram, escolheram trabalhar com o regime deposto em vez da oposição. Cabello controla a segurança e as forças armadas. Sem ele, não há estabilidade.
Mas isso não é uma contradição flagrante? O governo americano o procura e ao mesmo tempo o reconhece como parceiro?
Completamente. E ninguém está realmente explicando por que. Quando perguntam se a recompensa ainda está em vigor, os diplomatas mudam de assunto. A política oficial é que nada mudou, mas tudo mudou.
Qual é o risco para Cabello nessa situação?
Ele está em uma corda bamba. Se Washington mudar de ideia sobre a Venezuela, ele pode ser preso amanhã. Ele sabe disso. Por isso está tentando se tornar indispensável — controlando a segurança, mantendo os grupos paramilitares afastados das ruas, promovendo sua filha para o futuro.
E os outros funcionários do regime? Estão na mesma situação?
Muitos deles. O ministro da Defesa foi sancionado por reprimir protestos. Um oficial de contraespionagem foi acusado de tortura. Todos estão trabalhando lado a lado com americanos que os acusam de crimes.
Como isso afeta a credibilidade americana na região?
Destrói qualquer narrativa sobre trazer democracia ou justiça. Trump disse que a intervenção trouxe paz e alegria aos venezuelanos. Mas a paz está sendo garantida pelos mesmos homens que aterrorizaram opositores durante décadas. É pragmatismo puro, sem qualquer pretensão moral.